O futuro dos negócios não tem idade: o encontro entre experiência e tecnologia
Por Max Katsuragawa Neumann

Em 2024, participei de uma missão de negócios no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Durante alguns dias, visitei empresas e instituições como Google, Meta, Nvidia, LinkedIn, Stanford e ApexBrasil.
Também conheci a região para além dos escritórios e das salas de reunião. Atravessei a Golden Gate de bicicleta, visitei Alcatraz, andei de cable car pelas ruas de São Francisco e experimentei o Waymo, serviço de transporte sem motorista que ainda era uma novidade para mim.
Mas uma das experiências mais marcantes aconteceu longe dos cartões-postais: a oportunidade de enxergar o mundo dos negócios sob outra perspectiva.
Até então, eu nunca havia utilizado o ChatGPT. Embora tivesse uma trajetória ligada à gestão, ao empreendedorismo e ao comércio, a tecnologia ainda não fazia parte do meu cotidiano como faz hoje.
Foi um despertar.
Não porque eu tivesse descoberto a existência da tecnologia, mas porque compreendi a velocidade com que ela poderia transformar a maneira de trabalhar, tomar decisões e conduzir empresas.
E essa transformação não se restringia às empresas de tecnologia. Ela alcançaria todos nós.

Não precisamos ter nascido na era digital
Existe a percepção de que a transformação tecnológica é um assunto predominantemente jovem, reservado a quem cresceu diante de telas, aprendeu a programar cedo ou trabalha diretamente com inovação.
A realidade é outra.
Um empresário com décadas de experiência no varejo, um diretor financeiro, um gestor industrial ou um executivo comercial pode nunca ter desenvolvido uma linha de código. Ainda assim, todos serão impactados pela inteligência artificial, pela automação e pelas novas ferramentas digitais.
A tecnologia deixou de ser apenas uma área das empresas. Hoje, influencia praticamente todas as operações.
Um gestor pode utilizá-la para organizar informações, analisar cenários, preparar apresentações, estruturar processos e explorar alternativas antes de decidir.
Isso não reduz a importância da experiência. Pelo contrário: aumenta o valor de interpretar informações, fazer as perguntas certas e distinguir uma boa oportunidade de uma decisão precipitada.
A ferramenta organiza o raciocínio. A responsabilidade continua sendo humana.
A experiência continua valendo, mas precisa evoluir
Quem construiu uma carreira ao longo de 20, 30 ou 40 anos acumulou conhecimentos que não se aprendem apenas em cursos: capacidade de negociação, leitura de mercado, conhecimento de clientes, gestão de pessoas e experiência com crises.
Esses profissionais conhecem as consequências de decisões mal planejadas. Já enfrentaram mudanças econômicas, alterações no comportamento do consumidor e momentos em que foi necessário rever estratégias para manter uma empresa competitiva.
Esse repertório tem valor.
O problema começa quando a experiência se transforma em resistência à mudança.
O mercado não precisa preservar modelos de negócio apenas porque funcionaram durante décadas. O consumidor muda, os concorrentes se adaptam e novas soluções surgem. Uma vantagem de ontem pode ser insuficiente amanhã.
Por isso, o desafio do gestor sênior não é abandonar o que aprendeu. É identificar o que continua válido e o que precisa ser atualizado.
Experiência sem atualização pode virar acomodação. Tecnologia sem experiência pode produzir decisões rápidas, mas equivocadas.
É nessa combinação que vejo uma oportunidade.
O encontro entre gerações pode produzir mais resultados
Durante muito tempo, discutimos as diferenças entre profissionais experientes e aqueles que ingressaram no mercado em uma realidade digital.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Em vez de perguntar qual geração está mais preparada para o futuro, deveríamos observar o que acontece quando competências diferentes trabalham juntas.
Um profissional jovem pode dominar ferramentas, plataformas e novas formas de comunicação. Um gestor experiente pode conhecer profundamente o cliente, entender a dinâmica comercial e identificar riscos que não aparecem em uma apresentação ou planilha.
Quando essas competências se complementam, a empresa ganha uma visão mais ampla.
O jovem pode acelerar a transformação. O profissional experiente pode direcioná-la para problemas reais do negócio.
Isso exige abertura dos dois lados. O profissional sênior precisa estar disposto a aprender, testar e rever conceitos. O mais jovem deve reconhecer que conhecimento técnico não substitui a experiência prática, a capacidade de negociação e o discernimento construído ao longo do tempo.
Não se trata de uma disputa por espaço. Trata-se de construir resultados melhores.
O que muda na prática?
Para as empresas, essa integração pode gerar processos mais eficientes, decisões mais bem fundamentadas, melhor atendimento ao cliente e novas possibilidades de crescimento.
Imagine um gestor comercial com 25 anos de experiência utilizando inteligência artificial para organizar dados de vendas, identificar padrões de comportamento e preparar cenários para sua equipe.
Ele não precisa se tornar especialista em tecnologia. Precisa compreender as possibilidades da ferramenta, avaliar a qualidade das informações e aplicá-las à realidade do negócio.
O mesmo vale para um empresário do varejo que busca entender mudanças no comportamento do consumidor, um diretor que analisa alternativas estratégicas ou um gestor que deseja reduzir tarefas repetitivas para dedicar mais tempo às decisões importantes.
A tecnologia amplia a capacidade de execução das equipes e permite aplicar, em maior escala, conhecimentos antes concentrados em poucas pessoas.
Mas há uma condição: não basta adotar ferramentas porque estão na moda. É necessário identificar problemas concretos, definir objetivos e avaliar se os resultados justificam o investimento.
Inovação não é acumular tecnologia. É transformar possibilidades em valor.

O futuro pertence a quem continua aprendendo
Minha experiência no Vale do Silício mostrou que a transformação tecnológica não era uma realidade distante, restrita às grandes empresas ou aos profissionais que dedicaram a vida à informática.
Ela também dizia respeito a mim, à minha empresa e às decisões que eu tomaria dali em diante.
O fato de eu não ter começado a carreira nesse ambiente não me impedia de participar dessa transformação. Exigia apenas disposição para aprender.
Essa é uma das principais mensagens para gestores com mais de 40 anos: não precisamos apagar nossa trajetória para acompanhar o futuro. Precisamos permitir que ela continue evoluindo.
A idade pode representar experiência, repertório e maturidade. Nenhum desses atributos, porém, deve servir de justificativa para deixar de aprender.

As novas gerações têm muito a ensinar sobre tecnologia. As mais experientes têm muito a contribuir com visão de negócio, estratégia e capacidade de decisão.
Quando uma empresa une essas competências, deixa de tratar a diferença de idade como obstáculo e passa a utilizá-la como vantagem competitiva.
No fim, a questão não é quem chegou primeiro à tecnologia. É quem está disposto a aprender a utilizá-la melhor.
O futuro dos negócios não será construído apenas por quem domina novas ferramentas, nem somente por quem acumulou experiência. Será construído por quem conseguir unir as duas coisas para tomar decisões melhores, gerar valor e transformar conhecimento em resultados.
Max Katsuragawa Neumann é empresário brasileiro, representante regional do CRA-SP, escritor, podcaster e articulista institucional.