Sintomas depressivos também podem estar associados a fatores metabólicos, alerta médico
Alterações da tireoide, carências nutricionais e distúrbios do sono podem agravar determinados sintomas; Dr. Eudes Tarallo, explica quando a investigação clínica pode ser necessária

Por Dr. Eudes Tarallo
A depressão afeta milhões de brasileiros e exige acompanhamento adequado em saúde mental. Mas sintomas frequentemente relacionados ao quadro, como cansaço persistente, baixa energia, alterações do sono, dificuldade de concentração e oscilações de peso, também podem coexistir com condições clínicas capazes de intensificar o mal-estar e comprometer a recuperação do paciente.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) apontam que, em 2019, 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais relataram já ter recebido diagnóstico de depressão — aproximadamente 16,3 milhões de pessoas.
O número ajuda a dimensionar um problema que não admite explicações simplistas. A depressão é uma condição multifatorial, com consequências que podem alcançar a vida profissional, familiar e social. Psiquiatria e psicoterapia permanecem centrais no cuidado, mas a investigação clínica pode ser necessária para identificar fatores físicos que coexistam com o quadro ou agravem determinados sintomas.
Segundo o médico Eudes Tarallo, responsável técnico pela equipe da Tarallo Clínica Médica, em Jundiaí (SP), e com atuação voltada à tireoide e à nutriendocrinologia, essa avaliação deve ser individualizada e respeitar os limites de cada especialidade.
“Depressão não é ‘falta de força de vontade’ — e também não é um tema para simplificações. O cuidado em saúde mental precisa ser levado a sério. Ao mesmo tempo, em alguns casos, vale investigar fatores do corpo que podem piorar sintomas como desânimo, apatia e baixa energia, como alterações da tireoide, distúrbios do sono e carências nutricionais”, afirma Tarallo.

Quando o organismo também precisa ser investigado
Investigar fatores metabólicos não significa atribuir a depressão a uma única causa física — muito menos apresentar uma solução universal para um quadro complexo.
A avaliação médica pode, no entanto, identificar condições que coexistem com sintomas depressivos ou que apresentam manifestações semelhantes. O histórico clínico e as características individuais de cada paciente determinam quais aspectos devem ser investigados.
Entre eles está a função tireoidiana. Alterações relacionadas à tireoide podem estar associadas a sintomas como cansaço, lentificação, irritabilidade e redução da disposição.
Outro ponto é a qualidade do sono. Dormir pouco, ter um sono fragmentado ou conviver com distúrbios que prejudicam o descanso pode afetar energia, concentração e capacidade de regulação emocional.
As carências nutricionais, quando existe indicação clínica para investigá-las, também entram nessa análise. Determinados déficits podem estar relacionados a fadiga, redução da energia e alterações no desempenho cognitivo.
O médico chama atenção ainda para condições relacionadas ao metabolismo e à inflamação, que podem comprometer o bem-estar geral e interferir na percepção de vitalidade e humor.
A própria rotina integra essa avaliação. Alimentação, atividade física, exposição à luz, consumo de álcool e hábitos relacionados ao sono são algumas das variáveis que podem influenciar energia, disposição e estabilidade do humor.
Cuidado integrado, e não substituição de especialidades
Um dos principais riscos ao abordar a relação entre saúde mental e metabolismo é transformar uma condição complexa em uma explicação única.
A avaliação clínica não substitui o acompanhamento psiquiátrico ou psicológico. A proposta, segundo Tarallo, é justamente o contrário: integrar diferentes áreas quando o quadro do paciente indicar essa necessidade.
“O objetivo não é ‘substituir’ psiquiatra ou psicólogo. É somar: cada especialidade contribui com uma parte do cuidado. Quando encontramos e tratamos fatores clínicos associados, o paciente tende a ter melhores condições para aderir ao tratamento e recuperar funcionalidade”, afirma.
Essa diferenciação é especialmente importante diante da circulação, sobretudo no ambiente digital, de conteúdos que atribuem sintomas de saúde mental a causas isoladas ou apresentam intervenções específicas como respostas universais.
Quadros depressivos exigem avaliação profissional. A existência de um componente metabólico ou de outra condição clínica associada não elimina a necessidade de cuidado em saúde mental.

Quando é necessário procurar ajuda
Sintomas persistentes de tristeza, perda de interesse, desesperança, mudanças importantes no sono ou no apetite e prejuízos significativos na rotina são sinais que justificam a procura por avaliação profissional.
A atenção deve ser imediata quando houver ideação suicida, risco de autoagressão ou piora rápida dos sintomas. Nessas situações, a orientação é buscar atendimento de urgência, como pronto-socorro, SAMU pelo número 192 ou outros serviços de emergência disponíveis, além de acionar uma rede de apoio.
Mais do que buscar uma explicação única para sintomas complexos, a avaliação integrada procura compreender o paciente como um todo. Saúde mental e saúde física não competem pelo diagnóstico: em determinados casos, precisam ser investigadas em conjunto.
Sobre Eudes Tarallo
Dr. Eudes Tarallo é médico e responsável técnico pela equipe da Tarallo Clínica Médica, em Jundiaí (SP). Atua com foco em tireoide, metabolismo e nutriendocrinologia, dentro de uma abordagem clínica individualizada e integrada a diferentes especialidades conforme a necessidade de cada paciente.