Vídeo sobre casas de idosos na Lapa e a lógica do recorte – 09/06/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Placa branca com texto vermelho e preto indicando proibição de casa de repouso em zona residencial, fixada em poste com câmera de segurança, ao lado de muro de tijolos e árvores ao fundo.

“Moradores pressionam e gestão Nunes expulsa casas de repouso para idosos da Lapa”, noticiou a Folha no último 25 de maio. No “outro lado” destacado sob o título, quem aparecia era a Prefeitura de São Paulo, dizendo que os “estabelecimentos não respeitam zoneamento ‘estritamente residencial’”.

Apesar de o título e o subtítulo da reportagem escolherem a gestão municipal como alvo, o texto e, sobretudo, o vídeo publicados pela Folha colocavam na berlinda outros personagens. As redes sociais sabiam que no banco dos réus estavam integrantes de uma associação de moradores que pedia a saída das casas de repouso do bairro.

Um deles era a professora de pilates Carla Banietti, 53, presidente da Assampalba (Associação de Amigos e Moradores pela Preservação do Alto da Lapa e Bela Aliança). Ela aparecia no começo do vídeo e do texto com a seguinte frase: “Nós vamos tirar uma por uma [casa de repouso], porque estamos do lado da lei. Ah, ‘coitados dos idosos’… Tudo bem, eles podem ir para outro lugar”.

Embora a declaração não dê margem a ambiguidades, a entrevistada se queixa do enfoque do jornal, que seria “seletivo e tendencioso”. “Eu dei uma entrevista de forma institucional e o recorte que o jornalista usou foi péssimo. Ele não usou nenhuma das justificativas que demos para a ação da associação”, escreveu Banietti em recurso à ombudsman, um dos direitos das fontes e dos personagens das reportagens que estão enunciados no Manual da Redação da Folha.

Segundo ela, o jornal “pegou logo uma das primeiras frases, em que ainda estávamos com os ânimos à flor da pele”. “Minha vida já está destruída, me sinto sendo devorada por hienas”, resume, ao listar insultos e problemas profissionais decorrentes da exposição. “Não tem como concorrer com a narrativa que foi feita com essa reportagem. Além de ‘influenciadores’, outros jornais, apresentadores, comentaristas, candidatos a deputado, todos tirando uma casquinha, usando de palanque para sua audiência.”

“Mas, claro, isso não é um problema da Folha“, diz a líder da associação de moradores, para quem o jornal “só despertou o ódio que existe dentro das pessoas”. O vídeo foi visto ao menos 713 mil vezes no perfil do jornal no Instagram, segundo o contador da plataforma, e juntou mais de 30 mil “curtidas” e 11 mil comentários. Mais versões e “remixes” aparecem em outros perfis.

A Folha afirma que “diferentes lados foram ouvidos e tiveram suas posições destacadas desde o texto original”. “Como sabemos, os tribunais de redes sociais são hábeis em recortar trechos que lhes convêm, independentemente do equilíbrio do material de origem”, diz a Secretaria de Redação.

No dia seguinte ao da reportagem, o jornal publicou carta em que Banietti se defendia, dizendo que a reportagem “adota o discurso dos donos das empresas, que tentam transformar a aplicação da lei em etarismo”. “O problema é o funcionamento de estabelecimentos comerciais em zona residencial, um desrespeito à lei. As casas alegam prestar serviço social, o que não é verdade: cobram mais de R$ 6.000 ao mês por pessoa. Essas empresas são responsáveis pelos transtornos aos idosos.”

Também no dia seguinte à primeira reportagem, a Folha publicou outro texto, de menor repercussão, em que voltava a destacar o “outro lado” do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e detalhava a questão do zoneamento.

“Segundo a gestão Nunes, as ILPIs [Instituições de Longa Permanência para Idosos] disseram pertencer à categoria residencial NR1-10 (serviço social de pequeno porte), mas, como elas são totalmente particulares, na verdade são da categoria NR1-12 (serviços de hospedagem e moradia), o que impediria sua atuação no bairro.”

No texto, as casas de repouso afirmam que a classificação teria sido feita automaticamente pelo sistema da prefeitura. Sob o tal código NR1-1, informa a reportagem, elas deveriam ter convênio com o município e oferecer vagas a quem não pode pagar mensalidade, mas alegam que “essa opção não foi oferecida pela prefeitura”.

Questionada pela ombudsman, a prefeitura respondeu que o sistema é “autodeclaratório e a licença é gerada a partir das informações prestadas pelo próprio interessado, que assume total responsabilidade jurídica pelos dados”.

“Para evidenciar que não há qualquer tipo de perseguição por parte da administração municipal, cabe destacar que o território da Subprefeitura Lapa conta com 51 casas de repouso. Desse total, 40 funcionam com alvará regular em áreas onde o zoneamento permite a atividade. A ação fiscalizatória, portanto, é estritamente técnica e pontual”, declarou a prefeitura. “Até o momento nenhum desses [6] estabelecimentos [cujas licenças foram canceladas] foi lacrado. A medida visa garantir a proteção, o cuidado e o respeito aos idosos que ainda residem nos imóveis, priorizando o aspecto humanitário enquanto os trâmites administrativos e legais seguem seu curso.”

Não se pode acusar o jornal de ter falseado o teor das declarações dos moradores ou as atitudes deles. Mais de um quarto da gravação de dois minutos e 17 segundos, porém, é dedicado a uma briga entre a reportagem e um morador já exaltado.

Para a Secretaria de Redação da Folha, o vídeo “não desvia o foco da questão”. “É complementar ao texto, que expõe os variados ângulos da disputa. Como ocorre em geral em qualquer edição, prioriza-se o que é mais noticioso e, no caso dos vídeos, aquilo em que a imagem em movimento faz diferença.” A gravação, por outro lado, circula sem o apoio textual nas redes sociais e acaba por se submeter à lógica dopaminérgica das plataformas digitais.

Longe dos ânimos virais, ficam em segundo plano questionamentos a falhas do controle municipal, ao atendimento dos idosos que podem e que não podem pagar pelo cuidado e às eventuais incongruências da própria lei de zoneamento —ou às distorções em sua interpretação.





Fonte ==> Folha SP

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