Ele tocava o terror. “Grandão, sinistro, olhar de capa e espada”, era chamado por alguns de “o tenor da cachaça”. Acreditando ser ele um lobisomem, as senhoras avisam os filhos com um grito: “lá vem o Amanajós!” O terrível boêmio, “suplente de demônio”, aparece no Fórum, “encharcado de caninha agitando as mãos concupiscentes”, “descompõe os colegas” e desafia “o raio suspenso de Deus”.
Quem conta é Murilo Mendes, em seu livro de memórias “A Idade do Serrote” (de 1968, o mais engraçado da poesia brasileira, de acordo com Reinaldo “Pornopopeia” de Moraes). O poeta continua, falando de seu encontro com Amanajós: “faz-me beber à la russe num bar um grande copo de abrideira, conduzem-me à Santa Casa para me desintoxicar”. Beber à la russe é virar o copo de uma vez, sem essa de bebericar.
Segue: jovens breacos, liderados pelo manguaça-mor, saem à noite “com pés de tigre, desarranjam a ordem pública (…) produzem o escuro nas ruas.” Antes de ser preso, Amanajós avisa: “morrerei bêbado, assim não sentirei quando a bicha vier.”
Murilo Mendes não era um bebedor contumaz. Com certeza bebeu em bares e cafés onde viveu, no Rio, em Paris, Lisboa, Roma, Nápoles. Possivelmente acompanhado de colegas ilustres de copo, seus amigos, como Camus, Magritte e João Cabral, entre muitos outros.
Em seus poemas, a bebida e o beber aparecem ora em chave cômica e cotidiana —especialmente no começo de carreira, antes da fase espiritual—, ora em sentido metafísico, de embriaguez mística.
Assim, no seu primeiro livro, de 1930, “Poemas”, marinheiros se entopem de parati, como também era chamada a cachaça, e “fazem pipi na estátua de Barroso”. Aí, “chega de tarde a aguardente acabou/os fregueses somem, seu Naum cai na moleza.”
Em “História do Brasil” (1932), o narrador do poema, supostamente um soldado, tem um “delírio patriótico” após a batalha de Itararé e tira uma casquinha de Drummond: “No meio do caminho/Entrei num botequim,/Tomei um bruto pifão”. Pifão é palavra castiça para porre (talvez porque o incauto “pife”).
Passam-se os anos e o poeta começa a “dar de beber às estátuas”, para então chegar ao “líquido para adormecer o escafandrista.” Lírico, embriaga-se na sinestesia: “Bebi na música/E fechei-me a sós com o sonho.” Também toma “dois goles de delírios” e, num ato de contrição, deixa o “golfo de lua”, as “orquestrações da terra”, os “álcoois do mundo.”
Quando cai num pifão metafísico, lembra que “bebemos da solidão elaborada pelo homem”. E se pergunta: “de onde vem tal embriaguez, que aurora terei tomado?” É dessa aurora que talvez surja um coquetel surrealista, feito com “o orvalho dos pianos.”
Fala de um “licorzinho napolitano que parece conter o sol”. Tudo indica que estava se referindo ao limoncello, produzido no sul da Itália.
Italian sun
- 60 ml de vinho branco
- 45 ml de limoncello
- 22,5 ml de licor de avelã (tipo Frangelico)
- 15 ml de suco de limão siciliano
- Bata os ingredientes com gelo e coe para uma taça martíni. Decore com casca de limão siciliano
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Fonte ==> Folha SP


