A Manhã Seguinte: farsa disseca afetos modernos – 15/01/2026 – Mise-en-scène

A Manhã Seguinte: farsa disseca afetos modernos - 15/01/2026 - Mise-en-scène

O despertar após um encontro casual é um recurso narrativo exaurido pela dramaturgia, mas sob a ótica de Peter Quilter — fenômeno global do teatro britânico — a “ressaca moral” transmuta-se em laboratório social. Em “A Manhã Seguinte”, sob a direção precisa de Thereza Falcão e Bel Kutner, a privacidade é subvertida para dissecar a vulnerabilidade dos afetos contemporâneos através da lente da farsa.

O trunfo da montagem reside na simbiose de seu quarteto central. A peça opera na colisão de dois mundos: a vaidade hesitante de Tomás, o “macho alfa” desconstruído pela atuação meticulosa de Bruno Fagundes, e a invasão de uma família caótica, liderada pelo magnetismo de Gustavo Mendes. Com um timing que evoca a anarquia de clássicos como “Sai de Baixo”, Mendes atua como o motor de ignição do absurdo.

Nesse cenário, Angela Rebello (Bárbara) surge como a força desestabilizadora. Sua personagem despeja verdades sexuais com uma naturalidade libertária, personificando a inconveniência em estado puro. No contrafluxo do nonsense, Carol Castro (Kátia) ancora a narrativa. Sua contenção é estratégica: através de seu olhar de cansaço e incredulidade, o público encontra a bússola emocional necessária para não se perder no riso puramente gratuito.

Vale ainda destacar as impagáveis aparições de Daniel Pax como o contrarregra dançarino e o mariachi Sanchez, no último ato.

Em conclusão, “A Manhã Seguinte” é uma orquestra de disfuncionalidades. Enquanto Fagundes e Mendes entregam o embate físico, Rebello e Castro conferem profundidade ao riso. O espetáculo nos conquista porque, sob a máscara do ridículo, reconhecemos a verdade universal das famílias: somos todos estranhamente absurdos.

Três perguntas para…

… Bruno Fagundes

O Tomás original da peça britânica era gay. Na adaptação para um homem heterossexual e dentro dos arquétipos da masculinidade brasileira, o que você e a direção consideraram essencial manter e o que foi fundamental transformar?

Originalmente, o texto de Peter Quilter focava em um casal gay. Mas foi ele mesmo que depois adaptou a peça para a dinâmica heteronormativa, e foi essa versão que abraçamos. Para mim, essa mudança altera tudo: a espinha dorsal da história, os códigos culturais e a forma como os personagens se enxergam.

Como ator gay, habitar esse território da comédia romântica hétero foi um exercício de pluralidade e um desafio artístico que eu buscava. Minha carreira é movida pelo desejo de fazer o que ainda não experimentei, buscando estados físicos e mentais opostos aos meus.

Construí um Tomás que fala, se move e pensa de maneira completamente distinta da minha própria natureza. Nesse processo, contei com uma direção extremamente generosa e permissiva; nada foi imposto. Pude usar todas as minhas ferramentas criativas para dar vida a esse personagem que é, em essência, o meu avesso.

Como foi construir a dinâmica específica com cada um dos atores: a relação de constrangimento com a Kátia, o cerco da mãe e, principalmente, o choque com o irmão Márcio, que traz uma energia de comédia muito física?

Essa dinâmica foi justamente a parte mais gostosa do texto, uma comédia farsesca em espiral de absurdo e constrangimento.

O Tomás é o único com uma curva real: começa deslocado e, ao final, não só se torna parte da família como inverte os papéis. No final é ele quem serve o café à mãe no quarto. Essa transformação foi meu material principal. O desafio era fazer o público acompanhar essa jornada, o que exigiu estudar como ele se relaciona de modo distinto com cada personagem. Construímos isso juntos, com muita generosidade da parte deles.

A física foi imperativa. Desde o início quis um corpo diferente do meu, quase cartunesco, exagerado. Peguei até a clássica gag do “machão” que não segura uma mala pesada e fiz desse limão uma limonada. Sou ator de minúcias: penso em cada movimento, até do dedo mindinho, para que todo o corpo expresse a vida interna do personagem. Foi uma busca intencional e estou muito satisfeito com o que construí.

Trabalhar com uma comédia de situações tão precisa exige um ritmo impecável. Como foi o trabalho com a direção (Thereza Falcão e Bel Kutner) para afinar esse timing, especialmente nas réplicas rápidas e nas reações silenciosas ao caos?

Foi uma delícia trabalhar com a Bel e a Thereza, são profissionais incríveis e muito generosas. Mas essa peça foi, acima de tudo, um trabalho de conjunto. É uma peça de grupo, e batalhamos muito para chegar nessa dinâmica.

Tenho uma visão própria: acho que 70% da direção é escalação. Elas foram muito felizes em reunir esse elenco, que já traz muita experiência. Desde as primeiras leituras, estávamos certos do que queríamos fazer. O trabalho da direção foi mais uma orquestração. Nós, atores, chegamos com muitas ferramentas, e elas atuaram como o “espectador zero”, com um humor muito afinado para arquitetar tudo.

A direção parte sempre do que o ator entrega. E esse texto é muito claro: é uma peça quase episódica, que gira em torno de uma cama. Nosso grande desafio foi fazer com que essa estrutura não se tornasse cansativa, então desde o início buscamos ritmo e força dramatúrgica no trabalho dos atores, no humor e na fisicalidade. Foi, sem dúvida, um esforço 100% conjunto.

Teatro Villa Lobos – av. Dra. Ruth Cardoso, 4.777, Shopping Villa Lobos, região oeste. Sex. e sáb., 20h. Dom., 18h. Até 1º/3. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 21 (meia-entrada balcão) em sympla.com.br





Fonte ==> Folha SP

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