O empresário e investidor Nelson Tanure foi alvo, nesta quarta-feira (14), da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para investigar um esquema de fraudes contábeis e financeiras envolvendo o Banco Master. Embora discreto, Tanure é um nome bastante conhecido no mercado financeiro.
Ele figura como o principal ou entre os maiores investidores por trás de grandes empresas como a petroleira privada Prio, a Light (principal distribuidora de energia da região metropolitana do Rio de Janeiro), a Gafisa (uma das mais tradicionais incorporadoras imobiliárias do país) e a Alliança Saúde.
PF aborda empresário no Galeão antes de embarque
Na recente operação da PF, agentes federais cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e comerciais ligados ao dono do Master, Daniel Vorcaro, seus familiares e apoiadores. Tanure foi abordado nesta quarta (14) no aeroporto do Galeão antes de embarcar em voo doméstico para Curitiba. Primeiramente, os agentes da PF foram até a casa do investidor. Segundo a defesa do empresário, somente seu celular foi apreendido.
Em nota à imprensa, a defesa de Tanure afirmou que ele jamais enfrentou qualquer processo criminal no contexto das empresas em que é ou foi acionista. A defesa ainda negou que Tanure tenha qualquer relação de natureza societária com o Banco Master e afirmou que ele é cliente do banco, nas mesmas condições em que é atendido por outras instituições financeiras do mercado.
A nota ainda traz que o empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação.
Investigação apura se Tanure seria controlador do Master de fato
Em 2024, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou abertura de um inquérito pela Polícia Federal para investigar se Tanure seria o controlador de fato do Banco Master. O inquérito foi iniciado por denúncias da Esh Capital, companhia que tem linha de ação semelhante à do empresário: investe em empresas com ativos depreciados para realizar mudanças e, deste modo, valorizar suas ações obtendo lucro.
As suspeitas são de que Tanure teria se valido da Aventti, do fundo Estocolmo e da Banvox (holding que controla investimentos financeiros feitos em outras empresas) para deter o controle do Master sem ser identificado como tal. Controlador de fato significa ter poder de decisão efetivo sobre uma empresa sem aparecer formalmente como dono majoritário, burlando regras de transparência do mercado.
Vladimir Timerman, sócio da Esh Capital, tem disputas públicas com Tanure há anos. Em 2022, Tanure bloqueou as ações da Esh na Gafisa, além de conseguir que Timerman fosse condenado por perseguição na Justiça.
Agora, na segunda fase da operação Compliance Zero, a Polícia Federal apura se estruturas de fundos geridos ou influenciados por Tanure foram utilizadas para capitalizar o banco ou para absorver créditos de difícil recuperação, ocultando a real saúde financeira da instituição. A ação policial busca esclarecer se houve gestão fraudulenta e indução de investidores a erro.
Tanure vende ações da Prio para pagar credores
Desde o ano passado, Tanure tem se desfeito de ativos para pagar credores. Em uma dessas movimentações, ele vendeu ações da Prio, tida como a joia da coroa de seus investimentos. Segundo a Bloomberg, Tanure detinha cerca de 20% das ações da Prio. Desse total, 17% foram utilizados como garantia em empréstimo junto ao Credit Suisse. Ao ser assumido pelo UBS, a posição foi desfeita. Além disso, Tanure já teria vendido praticamente todas as suas ações na Prio para pagar outras dívidas.
Tanure foi responsável por tornar a petroleira privada em uma das principais do país. Ele começou a investir na empresa em 2013, quando ainda era chamada de HRT. Em 2015, passou a se chamar Petro Rio, para somente depois assumir o nome atual. O crescimento do valor da companhia é expressivo: saiu de R$ 200 milhões, quando Tanure iniciou seus investimentos, para R$ 38 bilhões.
Outros ativos do investidor perdem valor
Nos últimos meses, outros negócios de Tanure sofreram desvalorização. As ações da Alliança Saúde, na qual possui elevada participação, caíram mais de 80% desde que atingiram seu pico de valor em agosto de 2023. Da mesma forma, as ações da Gafisa operam próximas de suas mínimas históricas. A Ligga, outra empresa em que Tanure tem participação, registra déficits sucessivos, as informações são da Bloomberg.
A Light permanece em recuperação judicial desde 2023, quando ingressou com o pedido alegando dívidas superiores a R$ 11 bilhões. Segundo a Investnews, Tanure acumulou cerca de 30% da companhia por meio do fundo WNT e assumiu as negociações com credores e órgãos públicos. O processo continua em andamento.
Esses não são os primeiros revezes na vida do investidor. Nos anos 2000, Tanure assumiu o controle de veículos de comunicação como o Jornal do Brasil e a Gazeta Mercantil, que faliu em 2009. No ano passado, ele tentou assumir uma posição forte na petroquímica Braskem, mas o negócio não seguiu adiante.
Trajetória focada em reestruturações de empresas em crise
Aos 74 anos, Nelson Tanure consolidou-se como um dos nomes mais ativos do mercado corporativo brasileiro, construindo carreira especializada na aquisição e gestão de participações em empresas em dificuldades financeiras ou operacionais. Sua estratégia, historicamente, envolve a entrada no capital de companhias desvalorizadas, seguida por atuação incisiva na gestão, renegociação de passivos e reformulação de conselhos de administração.
O empresário iniciou sua trajetória no setor de engenharia e petróleo, mas ganhou notoriedade nacional ao assumir o controle de marcas icônicas em momentos de crise. Seu portfólio histórico inclui atuação na antiga companhia aérea Varig e na operadora de telecomunicações Oi, onde protagonizou longas disputas judiciais e processos de recuperação judicial.
A teia financeira entre Tanure e o Banco Master
As investigações atuais debruçam-se sobre a complexidade das relações financeiras estabelecidas entre os negócios de Tanure e o Banco Master. Documentos preliminares apontam para a existência de uma rede de fundos onde os limites entre o capital do banco e os investimentos do empresário se tornam difusos.
A apuração indica que fundos ligados a Tanure mantinham exposição significativa a ativos do Master, ao mesmo tempo em que a instituição bancária atuava como financiadora de operações do investidor. Essa interdependência financeira é o cerne da investigação da PF, que busca identificar se houve conflito de interesses ou violação das regras de prudência bancária exigidas pelo Banco Central.
Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br
