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O Fórum Econômico Mundial enfrenta uma crise de governança em um contexto de ruptura da ordem mundial, marcada por unilateralismo e protecionismo. As tarifas, antes vistas como instrumentos técnicos, agora são utilizadas como ferramentas políticas, tornando o comércio internacional imprevisível. A erosão da confiança nas instituições multilaterais, como a OMC, reflete a dificuldade em conter o poder unilateral das grandes potências.
O debate em Davos se concentra na definição da próxima fase da economia global, questionando se será regida por normas ou pela força. A fragilização da governança expõe países como o Brasil a choques externos e pressiona economias médias a buscar acordos bilaterais.
O discurso do primeiro‑ministro do Canadá, Mark Carney, destaca a importância da governança como um ideal normativo, buscando evitar que a transição atual resulte em desordem e na erosão de instituições essenciais para o multilateralismo.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Suíça – Quando o primeiro ministro do Canadá, Mark Carney, ganhou os holofotes e ocupou manchetes ao redor do mundo ao afirmar, em alto e bom som, que o Fórum de Davos de 2026 ocorre não apenas diante de uma mudança na ordem mundial, mas sobretudo diante de uma ruptura profunda da ordem vigente, seu discurso ultrapassou as fronteiras suíças e reverberou intensamente entre mercados, governos, chefes de Estado e até mesmo nas redes sociais das mais diversas regiões do planeta.
Davos acontece em um momento em que o Fórum Econômico Mundial deixa de ser apenas um espaço de coordenação e definição das bases da economia global e passa a refletir, de forma explícita, as fraturas da ordem internacional. O ambiente atual do encontro é marcado por retórica de poder, ameaças tarifárias e discursos territoriais, em contraste com a narrativa histórica de cooperação, previsibilidade e respeito às organizações como ONU, OMC, OMS e à soberania de territórios e nações.
Nesse contexto, a governança do Fórum Econômico de Davos se encontra em xeque, pois deveria ser uma reação a um mundo em que decisões unilaterais estão substituindo regras multilaterais. Governança surge no debate como linguagem mínima comum em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.
As ameaças tarifárias discutidas em Davos ilustram uma mudança relevante: tarifas deixam de ser instrumento técnico e passam a operar como ferramenta política. Quando tarifas se tornam mecanismo de pressão geopolítica, o comércio internacional deixa de ser previsível e passa a incorporar risco estratégico.
A insistência no tema da governança remete a um aprendizado histórico: o sistema do comércio internacional foi criado para evitar o retorno do protecionismo que alimentou instabilidade e as duas grandes guerras mundiais. As medidas protecionistas extrapolam o campo econômico, atuando também como catalisadores de desestruturação política internacional.
Atributos que o Fórum Econômico de Davos sempre buscou preservar, recorrendo aos seus inúmeros espaços de debate para conter a polarização e, com base no direito internacional, encaminhar questões que ultrapassassem o escopo direto de atuação do próprio fórum.
A ordem econômica do pós-guerra buscou justamente conter esse risco ao substituir a lógica do poder pela lógica das regras e por priorizar o fortalecimento de organizações capazes de intermediar e equilibrar a influência entre grandes potências, atores médios e forças emergentes.
A teoria da vantagem comparativa, base da Organização Mundial do Comércio, pressupõe previsibilidade e confiança institucional para funcionar, no entanto, o que se observa hoje, e que aparece de forma recorrente em Davos, é a erosão dessas condições sem que uma nova ordem internacional estável tenha sido construída.
O enfraquecimento prático de instituições multilaterais é percebido em Davos como sintoma de um problema maior: a dificuldade de conter o exercício unilateral do poder. O direito internacional continua a existir, mas sua capacidade de dissuasão é limitada quando grandes potências optam por testar seus limites.
Dessa forma, a governança aparece, assim, menos como ideal normativo e mais como tentativa de evitar que a transição atual resulte em desordem. A normalização de discursos sobre territórios estratégicos mostra que as regras seguem válidas, mas sua aplicação se tornou seletiva. Nesse contexto, a governança global corre o risco de se reduzir a um mecanismo de gestão de volatilidade econômica, sem enfrentar as assimetrias subjacentes.
Para países como o Brasil, o debate em Davos é relevante, pois a fragilização da governança aumenta exposição a choques externos e reduz a proteção oferecida por regras multilaterais. A transição em curso pressiona economias médias a operar cada vez mais por meio de acordos bilaterais e alinhamentos estratégicos. A insistência no tema da governança impede que uma mudança de paradigma se normalize.
O debate em Davos hoje vai além de crescimento econômico ou investimento, assistimos a definição da próxima fase da economia global, ou seja, se será regida por princípios institucionais (por normas) ou pela força, e sem governança, a transição tende a trazer menos ordem econômica internacional e favorecer a política de poder.
Não podemos assistir em silêncio ao desmonte de mais uma organização poderosa e historicamente defensora do multilateralismo — como ocorreu com a OMC em 2025, na esteira do tarifaço implementado pelos Estados Unidos, que chegou a relativizar até mesmo considerações econômicas para se impor ao restante do mundo.
Mas os ecos do discurso do primeiro‑ministro do Canadá, Mark Carney, em 21 de janeiro, representam um alento e evidenciam que a governança e a presença política do Fórum de Davos continuam a funcionar como um ideal normativo – além de expressarem um esforço explícito para impedir que aquilo que Carney descreveu como uma ruptura se converta em desordem e na erosão de mais essa instituição.
*Ligia Maura Costa é integrante do Conselho Global do futuro sobre Boa Governança do Fórum Econômico Mundial e professora titular na FGV-EAESP
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