Economia global em transição: reflexões de Davos 2026 – 31/01/2026 – Roberto Campos Neto

Globo terrestre estilizado em preto e rosa com linhas de latitude e longitude. Ao redor, ícones representam fenômenos como tempestade com raio, tornado, chuva, vento forte, granizo, queda econômica e aumento de preços.

No final de janeiro, participei do Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2026, realizado em Davos, na Suíça. O encontro reuniu cerca de 3.000 líderes de mais de 130 países, incluindo mais de 60 chefes de Estado, sob o tema “A Spirit of Dialogue” (Um Espírito de Diálogo). Nesta coluna, destaco alguns dos principais debates e delineio algumas conclusões do evento, realizado em um contexto marcado por elevada incerteza global.

O primeiro aspecto central discutido no WEF 2026 foi a transição para um mundo mais fragmentado. Trata-se de um processo em curso há algum tempo, com múltiplas dimensões. A ordem global tornou-se claramente multipolar, com a ascensão de novas regiões ao protagonismo econômico e geopolítico.

Ao mesmo tempo, a economia global passou a conviver com maior frequência de choques —geopolíticos, climáticos, tecnológicos e sanitários—, o que colocou a resiliência no centro das estratégias nacionais.

Nesse ambiente, ganhou força a percepção de que a ordem internacional baseada em regras, que moldou o período pós-Guerra Fria, está se esgotando. Essa avaliação foi sintetizada pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney.

Alguns participantes também compartilhavam a percepção de que o presidente Trump busca reforçar as Américas como uma área de influência prioritária dos Estados Unidos. Ainda assim, o tom predominante em Davos não foi de ruptura, mas de adaptação.

A maioria dos líderes defendeu a construção de coalizões flexíveis, ancoradas em legitimidade, integridade e regras compartilhadas, reconhecendo a profunda interdependência que caracteriza a economia global.

Esse ambiente mais fragmentado e volátil tem reflexos diretos sobre o funcionamento das instituições econômicas. Em particular, os bancos centrais têm enfrentado pressões crescentes e veem sua autonomia cada vez mais contestada. Se, em um primeiro momento, essas pressões derivavam do descontentamento com níveis elevados de juros, mais recentemente elas passaram a se estender também aos campos regulatório e prudencial.

O debate em Davos enfatizou a importância de preservar a independência dos bancos centrais como pilar da estabilidade macroeconômica em um ambiente global mais politizado e volátil. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, destacou que essa autonomia não é um privilégio, mas uma condição essencial para garantir a estabilidade de preços no longo prazo.

Sem ela, decisões de política monetária ficam excessivamente expostas a ciclos políticos de curto prazo —uma preocupação que também motivou a recente carta aberta assinada por diversos banqueiros centrais em defesa da independência institucional.

Apesar desse cenário de tensões e incertezas, outro ponto amplamente discutido foi a surpreendente resiliência da economia global. Os dados mostram economias mais robustas do que se antecipava. Ainda que de forma desigual entre regiões, o crescimento tem superado as expectativas. O consenso aponta para uma expansão da economia global em torno de 3% a 3,5% ao ano nos próximos anos, ritmo moderado, mas consistente diante dos choques recentes.

Destacou-se, também, a importância de distinguir dados econômicos concretos do ruído político. Parte dessa resiliência decorre da manutenção de impulsos fiscais no período pós-Covid, que sustentaram a demanda e amorteceram choques, mas que também elevaram significativamente o nível de endividamento público e mantiveram pressão sobre os juros de longo prazo.

Esse arranjo, contudo, tem limites claros. A combinação de crescimento moderado, juros elevados e alto endividamento público restringe o espaço de manobra das políticas econômicas e amplia a vulnerabilidade a choques futuros.

Como alertou Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, a resiliência observada até aqui não deve ser confundida com imunidade. Sustentá-la no médio prazo exigirá ajustes fiscais, restauração de credibilidade e o fortalecimento dos fundamentos das economias.

A inovação tecnológica foi outro eixo central dos debates, com destaque para a inteligência artificial. Há consenso de que a IA é o desenvolvimento mais impactante desta geração, com efeitos profundos sobre produtividade, mercado de trabalho e desigualdade. Todos reconhecem a importância de sua regulação.

Também ficou evidente que, em um contexto de elevado endividamento público, soluções duradouras para inclusão social e ganhos de produtividade dependerão cada vez mais de inovação e de mecanismos privados, e não apenas da expansão do gasto estatal.

Esse diagnóstico sobre inovação tecnológica recoloca o tema da regulação financeira no centro do debate. Destaca-se a necessidade de os reguladores compreenderem mais profundamente a digitalização financeira, a programabilidade do dinheiro e seus impactos sobre a economia.

É preciso também avançar no entendimento do modelo de um banco digital global. Nesse novo ambiente, centralização não é sinônimo de maior risco; ao contrário, pode significar mais eficiência, melhores serviços e maior capacidade de gestão de riscos.

Por fim, o debate sobre economias emergentes revelou um forte apetite por diversificação fora dos Estados Unidos. No entanto, poucos mercados são vistos como destinos claros. A Ásia tem avançado mais rapidamente, enquanto a América Latina permanece aquém do seu potencial.

O Brasil, entretanto, foi frequentemente citado como um candidato natural a captar fluxos relevantes de capital, dadas sua escala e profundidade financeira. Caso o país consiga garantir melhores fundamentos —com disciplina fiscal, reformas estruturais, segurança jurídica e menor burocracia— poderá aproveitar uma oportunidade rara de reposicionamento no cenário global.

Em síntese, o WEF 2026 deixou uma mensagem clara e, ao mesmo tempo, exigente. O mundo atravessa uma fase de transição profunda, marcada por mais riscos, mas também por novas possibilidades. A resiliência demonstrada até aqui é um ativo importante, mas não substitui reformas, instituições sólidas e políticas bem calibradas. Inovação, credibilidade macroeconômica e cooperação internacional serão determinantes para transformar incerteza em oportunidade.

Para países como o Brasil, o momento é particularmente decisivo: o espaço para avançar existe, mas será ocupado apenas por quem conseguir combinar estabilidade, eficiência e visão de longo prazo.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *