O marco regulatório da Sociedade Anônima do Futebol que o Brasil tem hoje é inspirado na lei portuguesa. O futebol brasileiro também já se acostumou a importar técnicos portugueses. Agora só falta o que realmente pode mudar o jogo: um modelo de financiamento e governança que trate o clube como empresa de mercado.
A história mostra que esse caminho não é novo. No século XVII, Portugal dominava o comércio marítimo até ser superado pela Holanda, que criou a Companhia das Índias Orientais, a primeira empresa a emitir ações públicas. Ao permitir que milhares de cidadãos se tornassem acionistas, os holandeses democratizaram o investimento, ampliaram a escala do capital e lançaram as bases do mercado financeiro moderno.
O futebol brasileiro vive um momento análogo: tem escala, audiência e potencial de retorno, mas ainda carece do arranjo institucional que destrava valor.
Entre os grandes mercados do futebol, o Brasil é o único que segue sem uma liga profissional plenamente estruturada. A experiência internacional sugere que ligas bem organizadas tendem a reorganizar receitas, elevar previsibilidade, reduzir risco e valorizar ativos. Foi assim na Inglaterra com a Premier League, na Espanha com a LaLiga e em outros centros em que a governança do produto liga virou motor econômico do ecossistema.
Há ainda uma vantagem competitiva singular: o Brasil é historicamente uma potência na formação e exportação de talentos. A matéria-prima de boa parte do futebol global é brasileira, e praticamente todo grande clube do mundo tem ídolos formados aqui.
Com mais capital e governança, os clubes brasileiros podem investir ainda mais na base, capturar melhor o valor dessa cadeia e ampliar sua presença global, seja como protagonistas esportivos, seja como plataformas de desenvolvimento de atletas.
O paradoxo recente ilustra bem: clubes europeus vencendo torneios com protagonismo de jogadores brasileiros, e por vezes superando clubes brasileiros com atletas formados aqui. Um exemplo marcante foi o Mundial de Clubes da FIFA de 2025, quando o Chelsea venceu o Fluminense com gols de João Pedro, atleta brasileiro formado pelo próprio Fluminense.
Nesse contexto, há ainda um caminho estratégico complementar, a internacionalização via participação em clubes europeus como plataforma de desenvolvimento e vitrine.
A ideia não é teórica: entre 2015 e 2019, o Fluminense operou o projeto com o STK Samorin, na Eslováquia, levando dezenas de atletas de Xerém para ganhar rodagem e exposição, em iniciativa que chegou a ser retratada pela Bloomberg como uma vitrine europeia para talentos brasileiros.
A assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, em janeiro de 2026, não cria por ora livre circulação ampla de trabalhadores nem elimina as exigências migratórias e regulatórias aplicáveis a estrangeiros, mas reforça um vetor de integração e previsibilidade para negócios, investimentos e serviços entre os blocos.
Em um ambiente mais favorável a capital e parcerias, estruturas desse tipo tendem a ficar mais viáveis e sofisticadas, e podem ajudar a corrigir o paradoxo central do futebol brasileiro: formar valor aqui e monetizá-lo, em grande parte, lá fora.
“Torcedores-investidores”
É justamente nesse ambiente que vale olhar com atenção para Portugal. Lá, clubes transformaram paixão em capital e levaram suas sociedades do futebol ao mercado, criando disciplina de governança e uma base real de investidores.
O Brasil já conta com mais de 120 SAFs formalmente constituídas, segundo o mapeamento do Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento da Sociedade Anônima do Futebol, o IBESAF. O crescimento é acelerado, o número dobrou em pouco mais de dois anos, mas, do ponto de vista societário, o modelo ainda tem sido aplicado de forma excessivamente fechada.
Na prática, a maioria das SAFs nasce sob controle concentrado de um investidor privado ou do próprio clube associativo, mantendo o torcedor distante da estrutura de capital e limitando o potencial de democratização do financiamento e de disciplina de governança que o mercado poderia impor.
Em Portugal, para fins de comparação, o caminho foi bem diferente. Benfica, Porto, Sporting e Braga abriram suas sociedades equivalentes (SADs) ao mercado de capitais desde a década de noventa. No Benfica, em particular, suas ações são negociadas na Euronext Lisboa desde 2007, com participação relevante de investidores privados e free float significativo, o que criou um mercado secundário de “torcedores-investidores” e ampliou a disciplina de governança corporativa do clube.
Em setembro de 2025, a Benfica SAD atingiu sua maior cotação histórica, alcançando € 6,78 por ação, impulsionada por resultados financeiros positivos e pela sinalização de recompra de ações pela própria companhia, um movimento típico de empresas maduras de capital aberto e ainda inexistente no futebol brasileiro.
Mais do que manter ações negociadas em bolsa, o Benfica demonstra que “ir para o mercado” significa transformar o futebol em um verdadeiro emissor de instrumentos financeiros. A Benfica SAD financia-se de forma recorrente por meio de ofertas públicas de dívida estruturada, substituindo capital bancário caro por funding de mercado pulverizado, com governança, transparência e liquidez.
Em 2025, por exemplo, realizou emissão pública de obrigações listadas na Euronext Lisboa, captando € 55 milhões a uma taxa de 4,5% ao ano, com procura que quase duplicou a oferta disponível, um nível de confiança que apenas companhias abertas com fundamentos sólidos conseguem alcançar.
O diferencial reside na maturidade da governança e do compliance: enquanto o Benfica opera sob o rigoroso escrutínio de reguladores e milhares de acionistas, exigindo transparência de nível global, o Brasil ainda atravessa um estágio de ‘governança de controle’, onde as decisões muitas vezes se restringem ao círculo do investidor majoritário. Para avançarmos rumo à abertura de capital, é imperativo que as SAFs brasileiras transcendam a gestão profissionalizada básica e adotem padrões de transparência de companhias abertas (CVM), estabelecendo conselhos independentes e auditorias severas.
O caminho exige a criação de uma cultura de Relações com Investidores (RI) que garanta ao torcedor a segurança de que seu aporte é tratado como patrimônio, e não apenas como uma doação emocional.
Essas emissões permitem financiar infraestrutura, capital de giro e reforço de plantel sem diluição excessiva do controle, preservando a identidade do clube e disciplinando sua gestão por meio do escrutínio permanente do mercado. No Brasil, embora a SAF tenha criado o “envelope jurídico”, ainda não se construiu esse ecossistema financeiro: elas permanecem fechadas, dependentes de investidores concentrados e alheias ao mercado de dívida estruturada, que é justamente o instrumento que viabilizou a sustentabilidade de longo prazo dos grandes clubes portugueses.
E para atrair investidores de longo prazo, a implementação de um fair play financeiro robusto é um pilar de compliance indispensável, garantindo a saúde financeira e a previsibilidade dos clubes. Esse dado não é apenas simbólico: demonstra que o futebol pode operar como empresa de mercado, com transparência, governança e accountability, e que o torcedor pode participar como investidor legítimo, não apenas como consumidor.
Disposição brasileira
No Brasil, o potencial é incomparavelmente maior. Pesquisa da CBF Academy com a AtlasIntel indica que 23,5% dos torcedores brasileiros, algo perto de 50 milhões de pessoas, estariam dispostos a investir em ações de clubes caso elas fossem ofertadas no mercado de capitais. Isso representa quase dez vezes o número atual de investidores pessoa física da B3.
Nenhum outro país reúne, ao mesmo tempo, escala econômica, base de fãs, centralidade cultural do futebol e espaço de crescimento. Entre os principais mercados do futebol mundial, o Brasil segue sem uma liga profissional plenamente estruturada, o que aumenta a incerteza e reduz a previsibilidade de receitas.
Em todos os lugares onde a liga foi organizada com governança, regras e disciplina comercial, houve expansão econômica do setor e valorização dos ativos. O potencial de retorno do futebol brasileiro é expressivo e ainda está subprecificado, como um ativo de primeira linha vendido com desconto, em clima de Black Friday.
A própria Lei da SAF já oferece os instrumentos jurídicos necessários. Ela permite IPOs, debêntures, fundos estruturados e outras formas de financiamento sofisticado. O que falta é decisão estratégica e, sobretudo, disposição para submeter o futebol ao padrão de transparência e accountability de uma companhia aberta. Sem isso, as SAFs continuarão dependentes de controladores concentrados e de capital caro, vulneráveis a ciclos curtos e a riscos de descontinuidade.
Os sinais de demanda estão dados. A tokenização de direitos ligados a mecanismos de solidariedade e a venda de atletas já mostrou que existe apetite do público por exposição financeira ao futebol, inclusive com casos associados a clubes como Vasco e Santos na plataforma do Mercado Bitcoin. E, também, a mobilização popular em campanhas como a vaquinha da Arena do Corinthians, que ultrapassou a marca de R$ 40 milhões, confirma que o torcedor quer participar. A diferença entre doação e investimento, porém, é governança: investimento pede informação, proteção, regras e liquidez.
Se a SAF foi o primeiro passo, o decisivo agora é abrir o capital com governança de companhia aberta. Liga é decisão coletiva e exige coordenação entre clubes e CBF. Já o acesso ao mercado de capitais depende de cada clube, com padrões de companhia aberta sob supervisão da CVM, conselhos independentes, auditorias rigorosas e uma cultura real de Relações com Investidores.
E há um efeito virtuoso: capital e governança facilitam o consenso para a liga, destravando o potencial de crescimento do futebol brasileiro como um todo. Só assim o Brasil deixará de exportar apenas talento e passará a capturar, no balanço dos clubes, o valor que já produz todos os dias, com mais investimento, emprego e renda no país.
Enfim, transformar paixão em patrimônio não é figura de linguagem. É estratégia.
José Roberto Afonso é economista, professor do IDP e diretor do Fórum de Integração Brasil Europa – FIBE.
Pedro Trengrouse é advogado e presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ.
Sebastian Pereira é atleta olímpico e gerente executivo de Educação e Fomento do Comitê Olímpico do Brasil – COB.
Fonte ==> NEOFEED
