Marcella Muniz em monólogo sobre luto e cura – 18/04/2026 – Mise-en-scène

Marcella Muniz em monólogo sobre luto e cura - 18/04/2026 - Mise-en-scène

O teatro, em sua essência, é um convite ao encontro, mas o que Marcella Muniz propõe nesta transposição da obra de Valérie Perrin é uma reunião de natureza distinta: um mergulho no silêncio que habita o luto e, surpreendentemente, na luminosidade que dele pode brotar. A montagem brasileira de “Água Fresca Para as Flores” não se limita a transpor um fenômeno editorial para o palco; ela estabelece um ritual de cura que humaniza a perda através de uma estética de extrema delicadeza.

A premissa, embora ambientada em um cemitério na Borgonha, leste da França, subverte o que se espera do fúnebre. Violette Toussaint, a zeladora interpretada por Marcella, transforma o campo santo em um jardim de reticências. Ela não cuida apenas de lápides; faz a curadoria das saudades alheias enquanto preserva, no recôndito da alma, suas próprias feridas. É no gesto cotidiano de oferecer um café quente ao desconhecido ou de registrar meticulosamente as histórias de quem já partiu que a personagem revela sua resistência. Violette nos ensina que a dor não precisa ser um grito; ela pode ser a água mansa que rega as flores todas as manhãs.

Há uma generosidade rara na atuação de Marcella Muniz. Em seu primeiro monólogo após décadas de carreira, a atriz habita Violette com uma dignidade sóbria, fugindo do melodrama óbvio. Sua atuação é feita de sutilezas: o peso de um olhar, a precisão de um silêncio, a economia dos movimentos. Em vez de expor a dor como espetáculo, Marcella convida o público a senti-la nos intervalos, permitindo que cada espectador preencha as lacunas da cena com suas próprias vivências e memórias.

A direção de Bruno Costa compreende que certas narrativas exigem o respeito ao tempo interno do amadurecimento. O ritmo do espetáculo, meditativo e propositalmente moroso, funciona como um contraponto necessário ao ruído e à pressa do mundo contemporâneo. A visualidade da peça, onde o doméstico e o fúnebre se fundem em uma cenografia simbólica, reforça essa sensação de tempo suspenso.

Ao transitar por temas como o abandono, a violência silenciosa de um casamento tóxico e a perda irreparável, a montagem evita o cinismo. O que se vê em cena é o elogio à resiliência e a investigação de uma felicidade que, embora obstinada, teima em florescer mesmo nos terrenos mais áridos.

Três perguntas para…

… Marcella Muniz

Violette Toussaint vive cercada pela morte, mas transborda vida e cuidado. Como foi para você, como atriz, encontrar o equilíbrio para que essa luminosidade da personagem não se perdesse diante do cenário fúnebre?

Meu encontro com a Violette foi quase imediato. Quando estava na metade da leitura do livro eu já visualizava aquela história, que tem mais de 20 personagens, apenas com ela no palco. O que me fascinou foi justamente o fato de ela passar pelas dores mais pesadas e conseguir me convencer a seguir em frente com a leveza que ela escolheu ter. Porque é exatamente sobre isso: são escolhas.

Violette faz a escolha consciente pela delicadeza. Para levar isso ao palco, contei com o Bruno Costa, que fez a adaptação e a direção com maestria, captando exatamente o que eu visualizei: uma mulher que não ignora as dores, mas as acolhe com flores, fazendo dessa atitude uma analogia para a própria vida. Eu me tornei fã da Violette antes de interpretá-la. Idealizei o espetáculo porque senti a necessidade de propagar essa mensagem de que é possível conduzir nossos lutos e términos com mais suavidade. A luminosidade dela não se perde no cenário fúnebre porque ela é o próprio jardim que cultiva.

A peça toca em feridas profundas, como a perda de um filho e relacionamentos tóxicos. De que forma dar vida a essa jornada de libertação da Violette ressoa na sua própria visão sobre a resiliência feminina?

A jornada da Violette é um espelho de muitas realidades que, às vezes, preferimos não olhar. Para mim, a resiliência feminina aqui não é sobre ‘aguentar tudo’, mas sobre a capacidade de transmutar. Dar vida a essa libertação me faz reafirmar que a nossa força reside na reconstrução.

A Violette vive o luto mais insuportável que existe, a perda de um filho, e sobrevive a um relacionamento tóxico que a anulava, mas ela não se torna amarga. O que me move nessa história, além da resiliência, são os temas tão pertinentes. Falamos da maternidade em suas faces mais cruas, do abandono, e de algo que me toca profundamente: a profissão invisível. A Violette é uma zeladora de cemitério; ela representa milhares de mulheres que mantêm o mundo funcionando nos bastidores, sem serem vistas, mas com uma dignidade inabalável.

E tem também a causa animal, que aparece na peça de forma tão orgânica e afetuosa, mostrando que o cuidado dela se estende a todos os seres. Para mim, interpretar essa jornada é entender que a libertação feminina acontece quando validamos todas essas nossas camadas: a dor, o trabalho, o luto e, finalmente, o nosso direito à alegria.

A peça exige uma “disponibilidade afetiva” de quem assiste, já que o ritmo é meditativo e não busca catarses fáceis. Como tem sido a troca com o público ao final de cada sessão? Você sente que as pessoas saem do teatro diferentes do que entraram?

Não tem um dia sequer em que alguém não venha me contar algo após a sessão. As pessoas sentem uma necessidade genuína de compartilhar como a peça as fez enxergar o luto de outra forma, ou como as ajudou a processar uma separação dolorosa. Eu já ouvi de tudo; se eu fosse anotar cada relato, precisaria escrever um livro só com esses depoimentos.

É exatamente onde eu queria chegar. Ver que toda a minha garra, e também a do Bruno Costa na produção, está alcançando o coração das pessoas é a maior recompensa. O objetivo sempre foi plantar um pouco da Violette em cada um que assiste. Sinto, sim, que o público sai diferente, porque o espetáculo não oferece respostas prontas, ele oferece companhia para a dor. Ninguém sai ileso, nem o público, nem eu, que vivo essa história todos os dias no palco.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *