Relacionamento à distância pode dar certo? – 22/04/2026 – Amor Crônico

Vida de Alcoólatra

“O amor é a experiência do impossível. É quando dois seres se expõem à ferida de se conhecerem como descontinuidade e ainda assim ousam dizer sim”, diz Georges Bataille.

Entendo que um amor que começa e persevera a distância é a concretização dessa angústia da descontinuidade, mas discordo do “impossível”: para além dos anos de estudo, testemunhei de perto amores que se fazem possíveis, especiais e profundos por lidarem com cuidado com algo que é estrutural em toda relação: a distância.

Este texto é um convite ao otimismo e também uma homenagem a Clara e Arthur, amigos queridos que me deram a honra de celebrar seu casamento. Parte das palavras desta coluna nasceu ali, num ritual em que o amor se afirma possível pela delicadeza e pelo comprometimento necessários para sustentar um vínculo que se alonga, se atravessa de faltas, se tensiona e, ainda assim (ou exatamente por ser assim, flexivelmente carinhoso), se sustenta.

Toda relação é, em alguma medida, uma relação a distância. Há sempre um abismo entre o eu e o outro, um desencontro de tempos, um “fuso horário” emocional. A distância geográfica apenas escancara o que é estrutural: o vínculo não se sustenta pela fusão, mas pelo investimento no risco e na beleza que é entender que o amor é maré: às vezes próxima, às vezes distante, mas sempre viva.

Em tempos de conveniência —compras chegando em dez minutos e entretenimento on demand—, sustentar a ausência do outro e a impossibilidade de chamá-lo para perto, seguindo nosso desejo imediato, parece quase um contrassenso. Mas o amor pode tensionar essa lógica e se tornar mais sólido do que histórias construídas na ilusão da presença contínua, desde que haja coragem de navegar na dúvida e nos percalços que a distância física impõe, com menos hiperfoco nos obstáculos e mais cuidado e respeito à descontinuidade.

Para que o amor a distância funcione, precisamos nos distanciar da ideia de que colocar o amor num Excel é matar o encanto. Logística, tabelas, previsibilidade e organização para comprar passagens em promoção podem ser afrodisíacas: são formas concretas de sustentar o que sentimos e de criar condições para que o amor exista e resista. Programar e planilhar não sufoca o afeto, dá a ele espaço e condições para ele crescer. Não há nada mais romântico do que o compromisso.

A organização dos encontros, no entanto, não pode se estender à tentativa de controlar o estado emocional. Um erro comum é esperar que todo encontro seja “um acontecimento”: conexão plena, tesão nas alturas, energia constante. Afinal, no fim de semana anterior ela viajou com as amigas para o Rio de Janeiro, dançou, saiu, andou 20 km de bike —e agora, no seu, está angustiada e exausta. E você, frustrado, tentado a puni-la por essa oscilação de maré de energia, como se fosse intencional. Não é.

É natural sermos um pouco Marina Lima —”Eu espero acontecimentos…”—, ainda mais com encontros espaçados. O desafio é criar espaço para sermos mais companhias, testemunhas e amantes com qualidade de presença e menos “love entertainers” performando versões sempre libidinosas e cheias de programas. Às vezes é só sofá, silêncio, cansaço. Às vezes, conversas difíceis ao vivo (sempre melhores do que DRs por mensagens) sem medo de estragar o único fim de semana juntos. Estraga-se quando se interditam os atritos. Abrir mão da exigência de leveza constante é condição para que o vínculo não sucumba a um peso corrosivo.

Clara e Arthur também me ensinaram que não é a quantidade de horas no mesmo CEP que sustenta o amor, mas a qualidade da presença, a capacidade de encontrar encanto nos “enquantos”: enquanto o tempo parece incerto, enquanto a espera se alonga, enquanto estar junto é bom e também estranho, e, sobretudo, quando esta estranheza pode ser acolhida. Para isso há que se cuidar da manutenção com especial atenção: não basta compartilhar rotinas ou cumprir protocolos diários de conversa, é preciso criar rituais —ver a mesma série e conversar sobre ela, marcar um vinho por vídeo, inventar pequenas formas de presença.

O que não pode caber é o controle disfarçado de cuidado. A angústia da distância, quando não elaborada, vira vigilância: querer saber onde o outro está, com quem, por que demorou a responder. Não se alimenta a saudade com paranoia. Alimenta-se com confiança e espaço para que outros vínculos também existam.

Sei que não é fácil… Relações a distância são uma pós-graduação em maturidade emocional. Um convite radical a repactuar com a falta, com a parcialidade, com o fato de que não seremos tudo para o outro.

Faltas e distâncias não serão eliminadas, mas, se em vez de ficar tentando diminuí-las pudermos nos convidar a navegar as marés, honrar a alteridade e fazer do intervalo morada, talvez estejamos menos distantes de amores possíveis, ainda que em fusos, línguas ou DDDs diferentes.Talvez seja isso que Clara e Arthur tenham me ensinado sem precisar dizer: que amar não é eliminar a distância, é aprender a habitá-la com intencionalidade.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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