Pega no laço: violência contra mulheres indígenas – 22/04/2026 – Tv Folha

A imagem mostra o interior de um barco, onde várias redes estão penduradas. As redes são de diferentes cores e padrões, incluindo flores e tons sólidos. Ao fundo, é possível ver janelas que dão para o exterior, onde há vegetação e água visíveis. A iluminação é suave, sugerindo um ambiente tranquilo.

“Minha bisavó foi pega no laço.” Você já deve ter ouvido alguém dizendo isso. Essa história geralmente é repassada por brasileiros que possuem uma ancestral indígena. E é um mito que ilustra como ao longo de séculos mulheres indígenas foram submetidas a relacionamentos forçados.

“‘Minha avó foi pega no laço’ é uma resposta da história de colonização que aconteceu e ainda acontece nesse lugar chamado Brasil, que os povos indígenas chamam de Abya Yala ou Pindorama”, afirma Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em arte e cultura visual pela UFSB.

“Essa expressão, na verdade, sintetiza uma série de questões da nossa história e uma série de construções do que é uma identidade brasileira, do que é a história do Brasil. Ela é um dos aspectos do que a gente pode chamar de mito de origem nacional ou mito de origem do povo brasileiro”, diz Suelen Siqueira Julio, especialista em história do Brasil Colonial e das relações de gênero.

Apesar de a palavra “mito” ser hoje interpretada como mentira, ela se refere a uma narrativa para explicar a origem de algo. Segundo Suelen, essa história do laço se propagou principalmente nas regiões Sul e Sudeste. No Norte e no Nordeste existem outras versões, como a de que a bisavó foi pega a “dente de cachorro” ou “casco de cavalo”.

“As mulheres indígenas viveram muitas histórias, ser laçada é uma delas. Precisa ser contada com multiplicidade, precisa ser contada com crítica, de uma forma crítica”, afirma Suelen.

Essa realidade deixou marcas no DNA do brasileiro. Foi o que indicou o estudo mais completo já feito sobre o genoma nacional, publicado na revista “Science”. Ele diz que a linhagem paterna dos brasileiros, expressa no cromossomo Y, é predominantemente europeia. Já a linhagem materna, registrada no DNA mitocondrial, que é transmitido apenas da mãe para os filhos, é predominantemente africana e indígena.

Para pesquisadores, esses dados genéticos são um indício do que já havia sido documentado historicamente, sobre como homens brancos abusaram de mulheres negras e indígenas. Que até hoje são vítimas de violência sexual no Brasil.

Um levantamento recente revelou que os registros de violência sexual contra mulheres indígenas aumentaram 297% entre 2014 e 2023. Enquanto entre as brasileiras em geral, o aumento foi de 188%. “Se muitas foram pegas no laço, a gente tem desatado esse nó. Se essa história foi silenciada, eu vou erguer minha voz e vou criar outras narrativas além dessas de violências e de desgraça”, afirma Mirna.



Fonte ==> Folha SP

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