‘Três Graças’ foi sopro de fé no país contra bolsonarismo – 20/05/2026 – Ilustríssima

Cinco pessoas, três mulheres e dois homens, estão reunidas em torno de uma escultura branca. O homem no centro, de camiseta regata cinza, examina a peça com atenção, enquanto os demais observam próximos, em ambiente interno com iluminação suave.

[RESUMO] “Três Graças”, novela de Aguinaldo Silva que terminou na semana passada, exibiu um país cheio de potencialidades e otimismo, no qual a vitória contra a corrupção e a canalhice se dá por meio de um novo e amplo pacto social, fruto das relações afetuosas. Para filósofo, trama conjulgou entretenimento e política, mas sem recorrer a discursos moralizantes, e rompeu abismos culturais e religiosos que separam os brasileiros. O final feliz espelha a força da população pobre contra a degeneração da vida social que se pode chamar de “bolsonarismo anticultural”.

Já comentei aqui as duas versões de “Vale Tudo”: ambas criticavam as falhas de nosso país, mas a novela original (1988), no ano da Constituinte, enquanto nos desafiava a consertar seus defeitos, em especial a corrupção, punha esperança em nossas ações, em nosso futuro, ao passo que o remake (2025), embora o país tenha prosperado materialmente nesses 37 anos, terminou em baixo astral, parecendo não restarem mais esperanças no Brasil ou em nós.

“Três Graças”, novela que acabou na última sexta (15), foi o contrário. Representou uma lufada de fé no Brasil: novas formas de vida, novas formas de amor, que desenham um futuro otimista. A vitória sobre a corrupção, a canalhice, a miséria aparece ligada a um novo pacto, digamos assim, que nasce amoroso. O país pode se salvar, pela ação de seu povo.

Para Aguinaldo Silva, autor da novela, o Brasil não vive um estado terminal, mas está pleno de potencialidades. A novela terminou de maneira otimista, mas com um otimismo que se situa politicamente.

Embora não cite governantes ou políticos, opõe-se formalmente à falta de valores civilizacionais que se chama bolsonarismo. Isso aparece na vida das personagens, numa obra que é mais enredo do que fala: ela é singularmente isenta de lacrações verbais.

Podemos dizer que a novela efetua uma crítica em regra ao que chamarei, ironizando Olavo de Carvalho, de bolsonarismo cultural (ou será anticultural?), na valorização de novas formas de amor.

É de baixo para cima que se conserta o país: é o povo da favela que se insurge contra a falsificação de remédios que a Fundação Ferette lhes fornece, desviando um dinheiro que deve ser público. As duas figuras do mal, Ferette (Murilo Benício) e Arminda (Grazi Massafera), só querem luxo e riqueza; odeiam pobres e os humilham sempre que podem; subornam policiais, juízes, políticos.

Contra eles, as personagens que encarnam a decência são pobres, os moradores da comunidade Chacrinha, com apoio sim de um rico que chega tardiamente quase como um “deus ex machina”, Rogério (Eduardo Moscovis), que ressurge dos mortos para os ajudar em sua luta —embora, a rigor, ele não seja tão necessário. Dos ricos, o papel decisivo é o da ex-mulher do bandidão Ferette, Zenilda (Andréia Horta), ótima advogada.

É significativo que aquelas que seriam as últimas palavras de Gerluce (Sophie Charlotte), a heroína, quase assassinada pelos vilões, tenham sido “A verdade cura”. Obviamente ela cita, e altera, a menção bíblica do bolsonarismo “A verdade vos libertará”.

Sim, a verdade cura —e o bandido tornado arte-educador, Bagdá (Xamã), multiplicará essa frase nas aulas que dá às crianças da favela, para lhes oferecer um futuro fora do crime e da miséria. Arte não é escapismo, “serve para tirar esta confusão que a gente tem dentro do peito”, dar nome e vazão aos sentimentos de ódio e amor, de revolta e de utopia, que jazem em cada um de nós. Arte é catarse, porque é criação.

São dois os eixos principais da libertação. Primeiro, o bem se manifesta em várias formas de liberdade no amor. Duas mulheres maduras, Ligia (Dira Paes) e Consuelo (Viviane Araújo), reencontram os amados do passado, dizem a eles que tudo foi ótimo, porém hoje é só memória, ótima memória, sim, mas agora é hora de pensar no futuro —de fazer o futuro.

Os filhos do bandidão com a boa advogada assumem dois amores não usuais: a filha, o amor com outra mulher; o filho, o amor por uma mulher trans.

O empenho em novas formas de amor inclui até mesmo a geração em nome alheio, porque o casal Lorena

(Alanis Guillen), filha de Ferette, e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) terminará esperando um bebê que será delas, outro que será do par Leo (Pedro Novaes), o outro filho do vilão, e Viviane (Gabriela Loran). Tudo isso é natural, é ético, é amor.

Temos, por trás disso, a ideia de que quando alguém entra em contato com seu íntimo, com seu coração, construirá relações humanas mais decentes.

Conclui este primeiro eixo a denúncia de um flagelo brasileiro, a maternidade solo: as três Graças (Lígia, Gerluce e Joélly) engravidaram cedo de seus namorados, que as largaram —mesmo caso de milhões de brasileiras que criam seus filhos sozinhas. Mais da metade dos lares brasileiros (52%) é chefiada por mulheres, aponta estudo da FGV.

Graças a Joélly (Alana Cabral) —jovem mãe solteira, assim como também foram sua mãe, Gerluce, e sua avó, Lígia—, os homens omissos (pai, avô e namorado) corrigirão seus erros.

O segundo eixo da libertação é a revolta. Para salvar as pessoas ameaçadas pelos remédios falsos, a comunidade organiza uma expropriação (a palavra é usada de propósito, a evocar a luta contra a ditadura militar) da escultura que simboliza toda a epopeia, pois porta o nome da novela e também o das três gerações de mães solo.

Expropriar (e não roubar) as Três Graças é tomar o nome da novela e, portanto, o destino nas mãos. No julgamento dos expropriadores, a juíza reconhecerá o caráter ético da causa e imporá uma pena simbólica aos rebeldes.

A adolescente Joélly quebra a maldição da maternidade solo que grassa desde a avó: tem a filha, a quarta Graça, mas junto do pai da criança; e ao longo de oito anos estuda para ser médica.

Ela aqui une dois grandes temas do Brasil do século 21: a saúde como vocação que permita curar, no sentido literal e no figurado, nossas doenças (“a verdade cura”, disse sua mãe), e a educação, caminho que a jovem trilhou para chegar lá.

Aliás, eu me emocionei ao ouvi-la, no incrível discurso de sua formatura, evocar grandes “mulheres históricas”, entre elas a psiquiatra Nise da Silveira, a pediatra Zilda Arns, a combatente da vacina Margareth Dalcolmo, a cientista Tatiana Coelho de Sampaio.

Joélly será a primeira da família a cursar ensino superior, itinerário que, no Brasil, centenas de milhares de jovens pobres tomaram desde o começo deste século.

Ela se formou numa fictícia Escola de Medicina de São Paulo —que parece aludir à Escola Paulista de Medicina, da Unifesp, uma de nossas melhores faculdades na área.

A novela não fala em expansão da universidade pública nem em cotas, mas certamente a moça cursou uma universidade federal, graças à política de inclusão social que começou há duas décadas e mudou a cara do ensino superior brasileiro. (O reitor que entregou o diploma à agora doutora Joélly é o autor da novela, Aguinaldo Silva, numa breve aparição similar ao que Hitchcock fazia em seus filmes).

E ainda, a novela, construída sobre uma base progressista, estende a mão aos evangélicos, rompendo o abismo que separa esquerda e direita, católicos e evangélicos. A única figura religiosa na trama é um pastor, Albérico (Enrique Diaz), mas as Graças são devotas, católicas, de Santa Rita de Cássia —e isso não impediu que a relação delas com ele fosse ótima.

No combate ao “bolsonarismo anticultural”, abre-se lugar para uma grande aliança dos brasileiros, de qualquer fé, que queiram enfrentar a corrupção e a opressão —inclusive os possíveis ateus ou agnósticos, já que os filhos de Ferette se casam com suas mulheres numa cerimônia sem padre nem pastor, oficiada por Luiz Fernando Guimarães numa ponta extraordinária.

A música-tema proclama “Maior é Deus!”: um sincretismo bem brasileiro, com as duas vertentes do cristianismo, mais ateus ou agnósticos.

Finalmente, o entretenimento dá uma volta por cima. Afirmei, nesta Folha, no auge do retrocesso político que vivemos, que as fake news devem sua força a se apresentarem como entretenimento. Elas dão prazer, divertem —mentindo.

Foi o que deu força a Tiririca, com seu célebre bordão (vote nele, “pior do que está não fica” —mas ficou!), a Trump e a Bolsonaro, mais intensos no extremismo de direita do que a maior parte dos congêneres europeus, tais como Le Pen, Meloni, Orbán, justamente porque nas Américas eles são histriônicos.

Mas hoje o que temos visto na telinha são grandes nomes do entretenimento defendendo os valores éticos —no amor, na educação, na ciência, na saúde. Por exemplo, Grazi Massafera ao criticar a escala 6×1 em encontro com Ana Maria Braga no término do folhetim, Ana Paula Renault com seu discurso iluminista no BBB26.

A arte, eu dizia, é catarse mas também criação. E é também libertação.



Fonte ==> Folha SP

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