Amor destrutivo: por que insistimos em salvar? – 20/05/2026 – Amor Crônico

Homem de camisa azul clara sentado em sofá olhando para baixo com expressão séria. Mulher ao fundo, desfocada, sentada em outro sofá, com mão no rosto, observando o homem.

O que exatamente queremos salvar quando nos perguntamos “como salvar um amor que nos faz mal”? Queremos mesmo manter a relação com a mesma pessoa, apostando numa mudança completa de dinâmica, ou esta é apenas uma verbalização que justifica tudo a partir da força do atravessamento do outro em nós quando, provavelmente, “não é ele, é você”?

Muitas vezes, não tentamos salvar o outro, mas a fantasia de que o amor pode transformá-lo; de que amar muito basta; e de que só faz sentido partir quando o amor acaba —mesmo que a relação já esteja acabando com vocês há tempos.

Talvez por não estarmos apegados apenas ao outro, mas também viciados no efeito químico desse amor-pathos (o amor intenso). E, ao identificarmos o outro como fonte desse “barato” afetivo, resistimos em abrir mão dele. “Narcisismo se alia a décadas de deseducação afetiva sustentada pela religião do amor romântico”, e lá vamos nós confundir abstinência afetiva com amor avassalador.

Como se sofrer muito demonstrasse amar muito. Como se relações emocionalmente caóticas fossem mais verdadeiras. E como se cada tentativa de controle, cada movimento de puxar o outro para baixo, cada explosão destrutiva pudesse ser interpretada como prova de profundidade, não como incapacidade de amar sem transformar dor em linguagem afetiva.

Em “Tudo Sobre o Amor“, bell hooks cita Diane Ackerman para lembrar que “usamos a palavra amor de um jeito tão desleixado que ela pode significar quase nada ou absolutamente tudo.” Percebo que, propositalmente —ainda que de forma inconsciente— nos mantemos nessa espécie de “confusão de línguas”, conceito do psicanalista Sándor Ferenczi.

Ao falar sobre traumas infantis, Ferenczi mostra como a criança busca amor e ternura, mas muitas vezes encontra agressividade e desamparo. Sem conseguir elaborar essa contradição, aprende a traduzir sofrimento como amor, identifica-se com o agressor e passa a reproduzir, na vida adulta, vínculos nos quais machucar e ser machucado parecem formas legítimas de intimidade.

Compreender a destrutividade do outro —e a nossa— como reflexo desta nossa confusão de línguas não justifica violências. Mas ajuda a entender que duas pessoas que se fazem muito mal não são necessariamente duas pessoas más. São apenas duas crianças grandes reagindo de forma disfuncional ante a dinâmicas que reativam medos profundos de desamparo e abandono. Há quem silencie porque aprendeu que conflito leva à perda. Há quem transforme vulnerabilidade em agressividade para atacar antes de ser atacado. Há quem controle porque morre de medo de perder.

Nem nós mesmos temos total clareza do porquê temos comportamentos destrutivos com quem amamos. Talvez porque amar também convoque nossas partes mais infantis, inseguras, impotentes e regressivas.

E aqui existe uma pegadinha perigosa das relações destrutivas: como outra ferramenta para conter a própria impotência e desamparo, mergulhamos numa tentativa infinita de analisar o outro para entender as raízes dos comportamentos disfuncionais e, assim, iluminar seu caminho para que sua postura mude. Como se o amor tivesse poderes mágicos sobre a estrutura psíquica do outro.

Algumas relações pertencem mesmo à ordem do impossível. Não porque faltou amor. Porque amor, sozinho, não sustenta vínculo saudável.

Em tempos de diagnósticos de TikToknarcisista, tóxico, borderline —, talvez seja importante lembrar que o problema nem sempre é apenas o outro, mas o vínculo construído entre vocês. Ou seja, a forma como inseguranças, defesas e feridas se encaixam. Assim como romantizamos a química do encontro, talvez precisemos reconhecer também a química dos desencontros.

As pessoas e as dinâmicas podem mudar? Claro. Mas para que essa seja uma tentativa menos fantasiosa e mais madura é preciso haver honestidade concreta. Nomear o que machuca. Reconhecer padrões. Sustentar conversas difíceis. Entender o que é transformável e o que não é. Ser fiel aos próprios limites antes que eles sejam completamente corroídos pela esperança produzida a cada reaproximação romântica. Porque nenhum amor é totalmente ruim. Assim como nenhuma pessoa é totalmente ruim.

Reside aí uma das maiores armadilhas das relações destrutivas: elas raramente se sustentam apenas no sofrimento. Existem afeto, desejo, intimidade, reconexão, promessa. É justamente isso que dificulta partir.

Por isso, muitas relações vão se deteriorando lentamente enquanto os dois esperam um grande incidente que finalmente legitime o término. Mas a maior parte delas não acaba numa explosão. Acaba como o sapo que permanece na água enquanto ela ferve aos poucos: pela adaptação progressiva ao desconforto, pela relativização cotidiana do sofrimento e pelo excesso de esperança depositado em pequenos momentos de reencontro.

Sou uma mulher que acredita no amor e na potência transformadora do afeto. Mas talvez amadurecer amorosamente exija deslocar a pergunta de “o quanto eu amo essa pessoa” para “como essa relação me faz sentir”. Enquanto justificamos tudo pela força do sentimento, deixamos de encarar uma pergunta fundamental: quem eu me torno do vínculo? Que possamos refinar nossa linguagem para parar de automaticamente rimar apenas amor com dor.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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