O mundo está mudando rápido, na esteira de grandes inovações digitais e, especialmente, com o avanço da inteligência artificial. Essas mudanças, no entanto, só têm valor para o cidadão comum quando incorporadas favoravelmente na vida cotidiana. O Brasil está atrasado nessa corrida rumo ao futuro, mas, a despeito disso, tem vasta e proveitosa experiência na absorção de novidades tecnológicas que melhoram a vida de cada um de nós. A digitalização da declaração de Imposto de Renda; a votação eletrônica; e o PIX são apenas três exemplos de tecnologia que melhoraram a vida das pessoas e a confiabilidade de processos cada vez mais digitais. Esses três exemplos também ilustram a importância do governo como idealizador de soluções avançadas para uso amplo.
Para acelerar a transformação digital em curso, existem competências disseminadas em todo o Brasil –e é bom que seja assim. São resultados de esforços persistentes, feitos nacional e regionalmente. O país conta com pesquisadores bem formados por todo território, com centros universitários e empresários desenvolvendo cada vez mais aplicações de inteligência artificial bem específicas para problemas de brasileiros. Sem menosprezar os esforços do governo central em torno das questões nacionais, é essencial a atuação de estados e municípios para modernizar ações e serviços que respondem aos problemas e prioridades e que mudam de uma região e cidade para outra em um país tão diverso. O Brasil é uma federação de ecossistemas digitais.
Vale a pena olhar com mais atenção a experiência do Piauí. O estado tem desenvolvido esforços consistentes em muitos campos, incluindo –com destaque– o digital. A universalização do ensino de IA no ensino médio e, no plano da governança, a criação de uma pioneira secretaria dedicada à inteligência artificial são boas ilustrações desses esforços.
Mais importante do que esforços são os resultados. E o mais emblemático desses resultados foi a solução engenhosa que permitiu obter e mobilizar informações digitais para enfrentar a criminalidade que ameaça a vida de todas as pessoas. O “Meu Celular de Volta”, projeto de recuperação de celulares desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública do Piauí, combina o rastreamento de aparelhos irregulares, por meio da colaboração com operadoras de telefonia, com operações em estabelecimentos de revenda e o envio de notificações diretamente aos dispositivos, determinando sua devolução às autoridades. O resultado é expressivo: mais de 16 mil aparelhos recuperados e uma redução de 80% nos roubos em quatro anos. Tão eficaz que inspirou o Protocolo Nacional de Recuperação de Celulares. É uma solução local, para um problema de todos, adotada em escala nacional.
Essa iniciativa não foi um caso isolado, mas expressão de uma agenda mais ampla de transformação digital que o Piauí vem construindo como política de Estado. O “BO Fácil”, por exemplo, permite que vítimas de violência registrem um boletim de ocorrência pelo WhatsApp, uma mudança simples que reduz as barreiras de acesso à Justiça. O “Assistente SEI” faz o mesmo, mas dentro da administração pública, ajudando servidores em despachos, editais e licitações.
Na saúde, o “Piauí Saúde Digital” chegou a quase 2 milhões de procedimentos em menos de dois anos, em um estado com pouco mais de 3 milhões de habitantes (com a organização estadual operando em torno de microrregionalização). Subjacente a tudo isso está uma aposta na soberania tecnológica por meio do “SoberanIA”, um LLM em português, desenvolvido por pesquisadores brasileiros, treinado com mais de 500 bilhões de tokens e voltado para o domínio do setor público. Um modelo nacional, para problemas nacionais.
A mobilização de múltiplos centros de conhecimento tecnológico comprometidos com o bem-estar e a qualidade de vida dos brasileiros pode ajudar a construir soluções digitais verdadeiramente transformadoras para os cidadãos numa velocidade que nem mesmo os recursos do governo central conseguiriam. É preciso desenhar um pacto federativo em favor deste projeto: construir soluções locais, para problemas comuns, que possam ser disseminadas e utilizadas em âmbito nacional, beneficiando todos os brasileiros.
Um projeto recém-concluído sobre a economia digital do estado do Piauí mostrou que os fluxos de entrada e saída de recursos financeiros associados aos produtos e equipamentos digitais são bastante desequilibrados. O que vale para o Piauí, vale para cada um dos estados brasileiros e para o Brasil todo. Somos um país deficitário em equipamentos e serviços digitais. Esse problema pode agravar-se, não apenas na dimensão financeira, que é importante, mas também na dimensão de autonomia e de soberania, que é decisiva.
Precisamos de uma agenda colaborativa entre os diferentes níveis e unidades da Federação para superar os imensos desafios trazidos pela era digital. Desde a formação de pessoas –profissionais e usuários– para o mundo digital até à construção de soluções para cada um dos problemas que pode ser enfrentado –e resolvido– com recursos digitais, as dimensões brasileiras são um imenso ativo. Se nem todos os entes federativos podem ter um grande protagonismo, certamente todos podem participar dos esforços para produzir e utilizar informações de qualidade, que contribuam para o planejamento e a execução de políticas públicas, da saúde à segurança, passando por todas as demais.
O Brasil pode ganhar muito com a soma de esforços locais e coordenação e apoio nacional. Isso é possível e os resultados aparecem. Precisamos acelerar esse esforço. Porque a mudança em curso no mundo só será boa quando beneficiar as pessoas, em sua totalidade, com uma vida melhor.
TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Fonte ==> Folha SP

