Quando a mulher brilhante se convence de que não é suficiente

Arquivo pessoal

Por Samantha Vieira

Psicóloga, Psicanalista e professora da SME do RJ, atuante na Gerência de Educação da 7ª CRE, a autora é doutora em Educação pela PUC-Rio e especialista em análise cognitivo-comportamental.

Você não sofre da síndrome do impostor porque não é capaz.
Você sofre porque seu cérebro aprendeu a interpretar sua própria competência de forma distorcida.

Durante décadas, milhares de mulheres altamente qualificadas ocuparam salas de aula, laboratórios, consultórios, empresas e posições de liderança carregando um segredo silencioso: o medo constante de serem “descobertas”. Não porque lhes faltasse competência, mas porque lhes faltava a capacidade de reconhecer a própria competência como legítima.

Esse é o paradoxo da síndrome do impostor.

Quanto mais realizações acumulam, mais algumas mulheres acreditam que tiveram sorte. Quanto mais responsabilidades assumem, mais atribuem seus resultados ao acaso, ao esforço excessivo ou à benevolência de outras pessoas. O reconhecimento externo cresce, mas a convicção interna permanece frágil.

A ciência começou a investigar esse fenômeno em 1978, quando as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram um padrão recorrente entre mulheres bem-sucedidas que, apesar de evidências objetivas de competência, viviam com a sensação persistente de fraude. Desde então, centenas de estudos ampliaram esse entendimento, demonstrando que o fenômeno também ocorre em homens, embora fatores sociais, culturais e organizacionais possam intensificar sua manifestação entre mulheres em diferentes contextos.

A descoberta mais importante dessas pesquisas talvez seja também a mais libertadora: o problema não está, necessariamente, na competência da pessoa, mas na forma como ela interpreta as evidências da própria competência.

O cérebro não registra apenas fatos. Ele interpreta fatos.

A Psicologia Cognitiva demonstra que nossa percepção da realidade é mediada por esquemas cognitivos — estruturas mentais construídas ao longo do desenvolvimento por meio das experiências familiares, escolares, sociais e profissionais. Esses esquemas funcionam como filtros que organizam a maneira como percebemos a nós mesmos e o mundo.

Quando esses filtros são marcados por perfeccionismo, medo da avaliação, necessidade intensa de aprovação ou crenças rígidas sobre desempenho, até mesmo sucessos consistentes podem ser reinterpretados como acidentes.

Em outras palavras, duas pessoas podem viver exatamente a mesma experiência e chegar a conclusões completamente diferentes.

Uma pensa:

“Consegui porque estudei, me preparei e executei bem.”

A outra conclui:

“Desta vez deu certo. Da próxima vão perceber que não sou tão boa assim.”

O acontecimento é o mesmo.

A interpretação é completamente diferente.

É justamente nessa interpretação que a síndrome do impostor se fortalece.

As três distorções que alimentam o ciclo

Embora cada história seja única, a literatura com base na Psicologia cognitiva identifica padrões recorrentes de pensamento.

O primeiro é a desqualificação das evidências positivas. A mulher conclui um projeto complexo, recebe elogios, alcança resultados expressivos e, imediatamente, encontra uma explicação para invalidar o próprio mérito: “qualquer pessoa faria”, “foi sorte”, “não foi tão difícil”.

O segundo padrão é a superestimação da competência alheia. Ela observa colegas, professores ou líderes e presume que todos possuem mais preparo, mais segurança e menos dúvidas do que ela própria. Compara sua experiência interna — repleta de inseguranças — com a aparência externa de confiança dos outros.

O terceiro padrão é a atribuição externa do sucesso. Em vez de reconhecer a própria participação nos resultados, atribui conquistas ao acaso, às circunstâncias ou ao apoio recebido. Curiosamente, quando enfrenta um fracasso, faz o movimento inverso: assume toda a responsabilidade. O sucesso pertence ao ambiente; o erro pertence a ela.

Essas distorções criam um ciclo silencioso.

Competência gera desempenho.

O desempenho gera resultados.

Os resultados são desqualificados.

Sem reconhecer as próprias evidências, a autoconfiança não se consolida.

E a pessoa volta a duvidar da própria competência.

Não porque lhe faltem resultados, mas porque eles nunca são incorporados à sua identidade.

Por que tantas mulheres vivem esse conflito?

Responder a essa pergunta exige olhar para além do indivíduo.

Desde cedo, muitas meninas são incentivadas a serem corretas, cuidadosas, colaborativas e discretas. Errar pode ser interpretado como sinal de incapacidade; destacar-se pode ser confundido com arrogância; reconhecer os próprios talentos pode parecer inadequado.

Ao longo da vida acadêmica e profissional, essas mensagens podem se combinar com ambientes altamente competitivos, estereótipos de gênero, avaliações constantes e exigências de desempenho cada vez maiores. O resultado é uma combinação perigosa: excelência acompanhada de autocrítica crônica.

Além disso, em torno de 30% das mulheres afirmam ter que deixar o emprego para cuidar dos filhos ou de pessoas idosas, enquanto entre os homens o número é três vezes menor. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2022, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens utilizam 11,7 horas para as mesmas tarefas. Este acúmulo de tarefas tem o potencial para aumentar a ansiedade, e gerar a sensação de ser “insuficiente”.

Isso não significa que toda mulher desenvolverá a síndrome do impostor, ou ainda que seja exclusividade do sexo feminino, muito menos que seja consequência exclusiva de fatores sociais. A experiência resulta da interação entre história de vida, características individuais e contexto. Compreender essa complexidade evita conclusões simplistas e abre espaço para intervenções mais eficazes.

Humildade não é negar a própria competência

Existe uma diferença fundamental entre humildade e autodesvalorização.

A humildade permite reconhecer limites sem apagar capacidades. Ela convive com a disposição para aprender.

Já a autodesvalorização transforma qualquer conquista em exceção e qualquer erro em confirmação de incompetência.

Enquanto a humildade favorece o crescimento, a autodesvalorização paralisa.

Reconhecer o próprio valor não é vaidade.

É precisão psicológica.

O caminho para uma percepção mais fiel da realidade

A boa notícia é que aquilo que foi aprendido pode ser revisado.

A Terapia Cognitivo-Comportamental e outras abordagens baseadas em evidências demonstram que pensamentos automáticos não são fatos; são hipóteses sobre a realidade. Quando submetidos à análise crítica, muitos deles perdem força.

Modificar esse padrão não significa eliminar dúvidas ou cultivar um otimismo ingênuo. Significa aprender a avaliar a própria trajetória com critérios mais objetivos, reconhecendo tanto limitações quanto competências.

Esse processo começa com uma mudança aparentemente simples, mas profundamente transformadora: substituir a pergunta “Será que sou boa o suficiente?” por “Quais evidências sustentam essa conclusão?”

Poucas perguntas têm tanto poder.

Porque obrigam o cérebro a sair do território das suposições e entrar no território dos fatos.

A competência que você procura talvez já esteja presente

Talvez o maior prejuízo da síndrome do impostor não seja o sofrimento emocional.

Seja o desperdício de potencial.

Quantas pesquisas deixam de ser publicadas?

Quantos projetos deixam de ser apresentados?

Quantas lideranças deixam de surgir porque mulheres extraordinariamente competentes acreditam precisar de mais um curso, mais uma certificação ou mais uma validação antes de ocuparem o espaço que já conquistaram?

A verdadeira transformação não acontece quando você se torna competente.

Ela acontece quando sua percepção finalmente alcança a competência que você já desenvolveu.

Esse não é um convite para abandonar a humildade.

É um convite para abandonar a distorção.

A educação como território de equidade e confiança

Mas essa transformação não pode ser atribuída apenas ao esforço individual de cada mulher. Se muitas aprendem a duvidar de si mesmas, é porque também foram formadas em ambientes que, direta ou indiretamente, limitaram sua voz, corrigiram sua ousadia e naturalizaram desigualdades.

Por isso, o enfrentamento da síndrome do impostor começa muito antes da vida profissional. Começa na educação.

Uma educação de qualidade, comprometida com a equidade, não se limita à transmissão de conteúdos. Ela cria condições para que meninas reconheçam suas capacidades, desenvolvam pensamento crítico, expressem suas ideias, ocupem espaços de liderança e compreendam que errar faz parte do processo de aprendizagem — não é uma prova de incapacidade.

Equidade não significa oferecer exatamente o mesmo a todos, mas compreender que histórias, oportunidades e obstáculos são diferentes. Significa garantir que cada estudante encontre condições reais para aprender, participar e desenvolver plenamente seu potencial, sem que gênero, origem social, raça ou qualquer outra condição determine antecipadamente os lugares que poderá ocupar.

Quando a escola valoriza a diversidade, apresenta referências femininas, combate estereótipos e reconhece talentos sem reproduzir preconceitos, contribui para formar mulheres mais seguras, autônomas e conscientes de seu valor. Mulheres capazes de compreender que competência não é privilégio, liderança não é arrogância e ambição não é uma inadequação.

Educar com equidade é interromper, ainda na infância, o ciclo que ensina meninas brilhantes a diminuírem a própria luz para serem aceitas.

Uma sociedade que deseja mulheres verdadeiramente confiantes precisa oferecer-lhes mais do que discursos de incentivo. Precisa assegurar uma educação pública e privada de qualidade, inclusiva, acolhedora e comprometida com a construção de oportunidades reais.

Porque mulheres seguras não surgem apenas quando aprendem a confiar em si mesmas. Elas também são formadas quando famílias, escolas e instituições decidem confiar em seu potencial, reconhecer sua inteligência e permitir que cresçam sem pedir desculpas por ocupar o lugar que lhes pertence.

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