O futuro do capital no agronegócio: como tecnologia aproxima investidor, mercado de capitais e produtor rural

Open Finance, inteligência artificial, securitização e tokenização redesenham o financiamento do setor. O desafio deixou de ser só produzir alimento e passou a ser construir a infraestrutura capaz de conectar capital e economia real.

O agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB brasileiro e segue como o principal gerador de superávit comercial do país. Apesar do peso econômico, o financiamento do setor ainda depende, em boa parte, de crédito bancário tradicional e de linha subsidiada pelo Plano Safra, um modelo que dá sinal de esgotamento diante do custo de capital mais alto, da volatilidade climática e da necessidade crescente de investimento em logística e tecnologia.

A resposta a esse esgotamento vem de instrumento como securitização de recebível, Fiagro, CRA, tokenização de ativo, Open Finance, Embedded Finance e plataforma digital capaz de conectar investidor, produtor e empresa em tempo real, o que especialistas do setor já chamam de maior transformação da infraestrutura financeira do agro desde a criação do crédito rural.

Capital deixa de ser produto e passa a ser infraestrutura

O debate sobre inovação no agro concentrou-se, nos últimos anos, em máquina inteligente, agricultura de precisão e biotecnologia. Uma segunda revolução, porém, corre nos bastidores: em vez de depender só de intermediação bancária, empresas passam a integrar pagamento, crédito, investimento, gestão de risco e mercado de capitais em uma única infraestrutura tecnológica.

É nesse movimento que atua o empresário Caio Vinícius Gachet de Almeida. Administrador com atuação em tecnologia financeira, mercado de capitais e agronegócio. Ele estruturou um ecossistema voltado ao desenvolvimento de infraestrutura financeira para empresa, instituição financeira e cadeia produtiva reunindo Banking as a Service (BaaS), Embedded Finance, Open Finance, API financeira, pagamento digital, securitização e solução de crédito.

“Nunca pensamos em construir só mais uma fintech”, diz Gachet. “A ideia sempre foi virar infraestrutura para que outras empresas consigam captar recurso, administrar risco e se conectar ao mercado de capitais sem depender só de banco.”

A aproximação entre agro e investidor

Essa infraestrutura encontra no agronegócio um terreno especialmente favorável. O crescimento dos instrumentos privados de financiamento mostra que o setor já não depende só do crédito oficial: segundo dados de Anbima e CVM, o financiamento privado do agro passou por um ciclo de forte expansão desde a criação do Fiagro em 2021, seguido por um período de ajuste em 2024, puxado por evento climático e por uma crise de crédito no setor, e por uma retomada consistente em 2025 quando as emissões de CRA voltaram a bater recorde e o patrimônio dos Fiagros voltou a crescer.

Esse ciclo muda o perfil de quem participa da cadeia: além do banco, passam a atuar investidor institucional, fundo, family office, securitizadora e plataforma digital especializada. Sem integração entre dado financeiro, documentação, compliance e monitoramento operacional, essa conexão entre capital e produção simplesmente não escala.

Dado passa a valer tanto quanto garantia

Historicamente, boa parte da operação de crédito rural foi construída sobre garantia patrimonial. A digitalização altera essa lógica: com Open Finance, inteligência artificial e modelo avançado de análise de dado, a instituição passa a avaliar risco cruzando informação financeira, histórico operacional, fluxo de caixa, comportamento de pagamento, logística, preço futuro, exposição climática e indicador produtivo.

O resultado tende a ser uma alocação de capital mais eficiente, não necessariamente mais crédito, mas crédito melhor precificado. É essa camada de inteligência que orienta o desenvolvimento das soluções lideradas por Gachet, que incorporam também análise de risco, compliance, prevenção a fraude, governança corporativa e automação de processo financeiro.

Construindo uma infraestrutura escalável

A estratégia do grupo prioriza infraestrutura em vez de aplicação isolada. Segundo Gachet, mais de 30 projetos tecnológicos já foram desenvolvidos para segmentos como agronegócio, mercado imobiliário, indústria, varejo, atacado e setor público, somando mais de 30 mil contas abertas, mais de 200 mil transações financeiras processadas e mais de R$ 100 milhões movimentados pelas soluções.

No agronegócio, a Trading Santa Catarina, braço voltado à comercialização de commodities e à estruturação financeira, já movimentou mais de R$ 30 milhões em operações de compra e venda de soja e milho, além de estruturar mais de R$ 10 milhões em operações de crédito e antecipação de recebíveis. Mais do que desenvolver software, o grupo passou a atuar como provedor de infraestrutura financeira para diferentes cadeias produtivas.

O próximo ciclo

Para Gachet, o maior desafio do agronegócio nas próximas décadas não será produzir mais alimento. Será financiar esse crescimento de forma sustentável, em um ambiente marcado por mudança climática, exigência regulatória maior, expansão do comércio internacional e investidor cada vez mais sofisticado.

“A próxima geração do agronegócio vai ser financiada por plataforma capaz de integrar mercado de capitais, inteligência artificial, gestão de risco e dado em tempo real”, resume o executivo.

Se por décadas o desafio foi levar tecnologia para dentro da fazenda, agora a disputa se move para fora dela, para a infraestrutura invisível onde capital e produção se encontram. E é justamente aí, onde circula recurso, informação e confiança, que deve estar um dos principais fatores de competitividade do agronegócio brasileiro nos próximos anos.

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