Crises econômicas, inteligência artificial e mudanças no mercado desafiam profissionais, mas especialistas defendem foco no que está sob controle individual
Crises econômicas, avanços da inteligência artificial, mudanças nas empresas, juros, concorrência e transformações no cenário global fazem parte de um ambiente que está cada vez mais difícil de prever. Para profissionais que precisam manter o desempenho em meio a tantas mudanças, uma das estratégias pode estar em recuperar a capacidade de agir sobre aquilo que ainda está sob seu controle.
Segundo Ronan Mairesse, palestrante especializado em performance humana, liderança e vendas, momentos de instabilidade podem provocar medo e sensação de impotência. No entanto, a forma como cada pessoa reage diante dessas situações pode fazer diferença.
Em períodos de crise, enquanto algumas pessoas concentram energia em reclamar de fatores que não conseguem modificar, outras utilizam o mesmo cenário para buscar conhecimento, desenvolver competências, procurar oportunidades e mudar a maneira como trabalham.
“O medo estava presente nos dois casos. O comportamento depois do medo era diferente”, destaca Mairesse.
Para o especialista, coragem não significa ausência de medo, mas a capacidade de produzir uma resposta adequada mesmo diante da insegurança.
Transformar preocupação em ação
A evolução da inteligência artificial é um exemplo de mudança que pode gerar incerteza entre profissionais de diferentes áreas. Em vez de permanecer em uma preocupação genérica sobre o futuro do trabalho, a recomendação é transformar o receio em ações concretas.
Isso pode significar aprender a utilizar novas ferramentas, desenvolver competências complementares, acompanhar as transformações do próprio setor e ampliar a rede de relacionamentos com pessoas que estão estudando as mudanças.
A diferença está em transformar uma preocupação ampla em um problema específico.
O pensamento “tenho medo da inteligência artificial”, por exemplo, pode gerar uma sensação de impotência. Já identificar a necessidade de aprender a utilizar ferramentas de IA na própria profissão e desenvolver habilidades que continuem gerando valor pode representar o início de um plano de ação.

Alta performance não significa ignorar o medo
A ideia de que profissionais de alta performance precisam permanecer sempre seguros e produtivos também é questionada pelo especialista.
Sentir medo, insegurança ou cansaço não significa necessariamente falta de competência. Uma pessoa pode estar preocupada com a economia, com o futuro da profissão ou com as mudanças tecnológicas e, ainda assim, continuar tomando boas decisões.
O problema surge quando as emoções passam a determinar completamente o comportamento.
Em momentos de instabilidade, preservar a clareza pode ser mais importante do que simplesmente aumentar a velocidade. A ansiedade pode levar ao excesso de informação, à tentativa de responder rapidamente a tudo e à transformação de qualquer novidade em uma urgência.
Nesse cenário, algumas perguntas podem ajudar a organizar as decisões: o que realmente mudou? O que ainda funciona? Qual competência precisa ser desenvolvida? Onde está sendo desperdiçada energia? E qual decisão pode ser tomada neste momento?
A partir dessas reflexões, torna-se possível diferenciar uma ameaça concreta de uma preocupação antecipatória.
A importância de continuar aprendendo
Outro desafio está relacionado à experiência profissional. Quanto mais tempo uma pessoa trabalha de determinada maneira, maior pode ser a dificuldade de abandonar modelos que ajudaram a construir sua carreira.
O surgimento de uma nova tecnologia pode ser interpretado não apenas como uma mudança profissional, mas como uma ameaça à própria identidade. Depois de anos desenvolvendo uma determinada competência, descobrir que uma ferramenta consegue realizar parte daquela atividade em poucos minutos pode gerar a sensação de que o conhecimento acumulado perdeu valor.
É nesse contexto que aparece a chamada “aprendibilidade”: a capacidade de continuar aprendendo mesmo depois de conquistar experiência, reconhecimento, autoridade ou uma posição de destaque.
Essa postura exige humildade para reconhecer mudanças, curiosidade para compreender novas ferramentas e maturidade para não interpretar toda transformação como uma ameaça pessoal.
Para Mairesse, profissionais preparados para cenários de mudança não são aqueles que abandonam tudo diante de cada novidade, nem os que rejeitam qualquer transformação. O diferencial está em identificar o que continua funcionando e modificar aquilo que deixou de produzir resultados.
Quatro capacidades para enfrentar a instabilidade
Manter a performance em um cenário de incerteza pode depender de quatro capacidades principais: regular o estado interno, aprender continuamente, adaptar o comportamento e manter clareza de propósito.
A regulação emocional ajuda a evitar que decisões sejam tomadas exclusivamente pelo medo. O aprendizado contínuo reduz a dependência de competências que podem perder valor. A adaptação permite modificar estratégias sem necessariamente abandonar objetivos. Já o propósito funciona como uma referência para evitar que a carreira se transforme em uma corrida permanente para acompanhar todas as novidades.
Esse último aspecto ganha importância em um ambiente marcado pela comparação constante.
A busca por aprender mais, produzir mais, aparecer mais, ganhar mais e acompanhar cada nova tecnologia pode gerar movimento, mas não necessariamente direção.
Por isso, ter clareza sobre objetivos e propósito pode ser importante justamente nos momentos em que o cenário externo se torna mais confuso.
Adaptabilidade diante de um futuro incerto
A inteligência artificial continuará avançando, enquanto algumas tarefas poderão desaparecer e diferentes profissões serão transformadas. Ao mesmo tempo, a economia continuará passando por ciclos de crescimento e dificuldade, criando novos desafios para empresas e trabalhadores.
Diante desse cenário, saber exatamente o que acontecerá no futuro pode ser menos importante do que desenvolver capacidade de adaptação.
A alta performance em um ambiente de incerteza pode estar justamente na disposição para continuar aprendendo, tomar decisões com clareza, adaptar estratégias e agir mesmo quando não existem todas as respostas.
Ronan Mairesse é palestrante especializado em performance humana, liderança e vendas e realiza mais de 150 palestras por ano.

