Existe uma diferença significativa, ainda que parcialmente apagada, entre moral e ética. Permitam-me tentar torná-la mais nítida. A moral é composta por um conjunto de regras e normas para o comportamento adequado; a ética é um modo de vida, uma maneira de existir.
Enquanto a moral é reguladora e prescritiva, a ética é um texto vivo que não pode ser escrito ou roteirizado de antemão, exceto como uma projeção de hábitos de ação mais ou menos previsíveis, ligados, como estão, a modos de habitação —de habitar o mundo. Por texto vivo, refiro-me à necessidade de estar atento ao contexto e às circunstâncias singulares da ação ética, algo que escapa à formalização e, portanto, à moral.
Mas é preciso ir além disso: a moral não é apenas um código de conduta positivo, pois seu formalismo é moldado pela negatividade em toda a sua extensão. É por isso que ela pode ser tão destrutiva, desde a degeneração —demasiado fácil— do preceito moral em um moralismo hipócrita dos autoproclamados “donos da verdade” até o princípio transcendental kantiano que prefere seguir a lei moral à sobrevivência contínua do mundo. (Em “A Paz Perpétua,” Kant endossa entusiasticamente a máxima fiat iustitia et pereat mundus — que se faça justiça, ainda que o mundo pereça).
Como sistema de regras, qualquer economia moral emula e complementa sistemas científicos de classificação. A moral alimentar não é exceção: ela categoriza o que pode e o que não pode ser comido em sã consciência, onde começa e onde termina a senciência, o que é ou não respeitável nesta ou naquela criatura… Há sempre algum tipo de cálculo envolvido em considerações que dependem do congelamento e, de fato, do sepultamento de seres categorizados dentro dos limites mais ou menos arbitrários dessas categorias. Em suma, a moral é incompatível com a vida em si, com a vivacidade da vida.
Dito isso, a moral torna uma ordem social, econômica ou política violenta e injusta minimamente tolerável e, portanto, habitável, na medida em que cria pequenos nichos privados onde se pode buscar refúgio contra a barbárie vigente. O que a moral produz, por sua vez, são pronunciamentos de validade geral incrivelmente vácuos. Assim, a moral é um sistema de regras sem vida que sustenta uma aparência de vida no meio da devastação bárbara e massificada.
Tipicamente formais e ineficazes, os preceitos morais nos fazem sentir bem conosco mesmos ao mesmo tempo que mantêm intacto —ou até reforçam— o status quo, oferecendo uma válvula de escape controlada para nossa insatisfação com o estado de coisas vigente. Códigos morais progressistas podem prescrever respeito por humanos, animais, plantas, ecossistemas, etc., mas tal noção soará como palavra vazia: na melhor das hipóteses, um ideal inalcançável; na pior, uma lamentação teórica inútil. (Na verdade, “respeito” é um exemplo perfeito de vacuidade moral em relação a qualquer destinatário dessa atitude.)
Em grande parte, as recomendações morais são recebidas com indiferença e desdém; afinal, elas não emergem do nível visceral da existência, mas são impostas à vida a partir de um espaço fictício exterior a ela, como uma série de desejos abstratos.
A ética, em contrapartida, é amoral —o que não é o mesmo que imoral. Intrinsecamente ligada a uma existência baseada no hábito e na habitação, ela não é uma questão de aplicação que parte de princípios imutáveis para depois avançar às suas ramificações práticas. Enquanto a moralidade é uma forma de julgamento que se propõe a moldar a existência bruta, a ética é uma forma dinâmica e material (que chamei de “maneira” ou “modo”) inseparável da vida. Uma ética só pode surgir no decorrer do viver, vivdendo, é claro, consigo mesmo e com os outros, sejam eles humanos ou não.
Considere o seguinte exemplo. Se viver à custa das plantas é inevitável, viver com elas também o é, inclusive nos momentos em que delas fazemos uso. Uma ética das plantas não exige que os humanos deixem de utilizar plantas e produtos vegetais para seus próprios fins; ironicamente, tal exigência seria antiética se tentasse eliminar, mais uma vez, o caráter de socialidade básica, de uma associação sinérgica inerente ao viver.
Também não pede que nossos objetivos sejam ponderados em relação aos das plantas, deixando tais cálculos para exercícios teóricos de moralidade. Consciente de que estamos fadados a viver à custa das plantas, um adepto da ética vegetal insistiria que estamos igualmente destinados a viver com elas, transformando esse fado pouco considerado em destino. Poderíamos definir a ética —de modo talvez um tanto abstruso, mas, creio eu, promissor— como o lugar onde o fado se torna destino?
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Fonte ==> Folha SP