A relação entre Brasil e Estados Unidos é pouco expressiva. No curto prazo, isso funciona como uma proteção, mas, no geral, representa uma oportunidade desperdiçada.
O Brasil tem sido alvo da política externa desajeitada e agressiva do governo Donald Trump: tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras, sobretaxas impostas com base na Seção 301, sanções da Lei Magnitsky contra o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, restrições de visto contra ministros e integrantes do STF e, mais recentemente, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti. Qual foi o impacto acumulado dessas medidas? Na prática, várias autoridades brasileiras não podem mais ir à Disney.
Comecemos pelas tarifas. A alíquota original de 50%, depois de inúmeras exceções e decisões da Justiça americana, hoje é de 17%. Atualizando um estudo de 2025 do Banco de Compensações Internacionais, estimo que o impacto sobre o PIB brasileiro seja de cerca de 0,1 ponto percentual —insignificante.
E a Magnitsky? Depois de apenas quatro meses, o governo Trump retirou as sanções contra Moraes e a empresa de sua mulher, após perceber o que todos no Brasil (e a maioria em Washington) já sabiam: elas nunca funcionariam e ainda estavam ajudando politicamente Lula, a mancha vermelha em uma esfera de influência que rapidamente se torna azul.
Quanto às designações de entidades terroristas, elas duplicam poderes que o Departamento do Tesouro já possuía. Além do mais, a responsabilização criminal de empresas legítimas exige prova de conhecimento prévio. Portanto, o temor amplamente difundido de que alguém pudesse ser processado por abastecer o carro em um posto controlado pelo PCC é infundado.
Por que a relação entre Brasil e EUA é tão superficial a ponto de transformar seu pior momento histórico em algo inconsequente?
As relações bilaterais no século 21 se desenvolvem principalmente por três canais: segurança, cooperação em fóruns multilaterais e economia. A dinâmica entre Brasil e EUA é superficial nos três.
Na área de segurança, a ausência de qualquer ameaça existencial no continente torna a cooperação desejável, mas pouco importante.
Nos fóruns multilaterais, o Brasil quase sempre se alinha ao chamado Sul Global, termo nascido da versão moderna da teoria da dependência. Parte disso decorre de prioridades de desenvolvimento semelhantes, mas uma parcela maior reflete a antiga política brasileira de não alinhamento. O decepcionante crescimento brasileiro nas últimas quatro décadas e sua participação cada vez mais anômala no Brics deveriam provocar uma reconsideração dessa estratégia, mesmo diante da agressividade americana.
Na esfera econômica, a filosofia do não alinhamento também foi um fator importante na decisão brasileira de deixar de lado a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) em favor de uma estratégia centrada no Mercosul. Atrelar-se a vizinhos com políticas econômicas em grande medida malsucedidas permitiu ao Brasil disfarçar o fracasso de sua própria abordagem protecionista. O resultado foi uma quase ausência de integração econômica internacional e menos empregos de alto valor agregado. É por isso que uma tarifa de 17% tem impacto macroeconômico quase nulo.
À medida que nos aproximamos das eleições do próximo mês, um governo americano hostil pode —e muito provavelmente vai— tentar prejudicar Lula. Mas quais são, de fato, os riscos para o Brasil?
Sanções podem ter algum papel, mas seus efeitos seriam reduzidos. Aplicar punições a um banco pequeno é uma coisa; aplicá-las ao Itaú ou ao Banco do Brasil é a diferença entre não haver impacto sistêmico e provocar uma crise financeira. É extremamente improvável que Washington busque a segunda opção —não por qualquer preocupação com o Brasil, mas por causa do papel do dólar. Investidores globais seriam obrigados a repensar sua exposição se Washington passasse a considerar aceitável provocar crises financeiras em economias do G20.
O governo americano também poderia decidir não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Entre as opções efetivamente disponíveis, essa seria a mais disruptiva, mas ainda assim estaria longe de representar uma ameaça existencial para o Brasil. O desfecho provável de uma política tão imprudente seria um recuo discreto diante do isolamento internacional.
Brasil e EUA podem —e devem— construir uma relação baseada em nossa cultura, nossos valores e nossa história compartilhados. Podemos criar o tipo de relação diplomática que se sustenta em confiança genuína e benefícios econômicos. Infelizmente, essa relação não existe hoje.
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Fonte ==> Folha SP
