Liderar uma equipe multicultural: entre a riqueza da diversidade e os desafios da liderança

Equipe multicultural reunida em ambiente universitário internacional durante reunião de trabalho e liderança.
A liderança multicultural exige escuta, adaptação e inteligência cultural para transformar diferentes experiências, idiomas e formas de enxergar o mundo em aprendizado e propósito comum.

Em ambientes onde diferentes culturas, idiomas e experiências convivem diariamente, liderar exige escuta, adaptação e a capacidade de transformar diferenças em aprendizado, coesão e propósito comum.


Por Giulianna Carbonari Meneghello


Liderar pessoas sempre foi um desafio. Quando se trata de uma equipe multicultural, essa tarefa fica ainda mais complexa, mas também muito mais rica. Eu amo esses desafios! Em uma instituição de ensino superior com atuação internacional, profissionais de vários países, regiões, culturas, experiências e idiomas convivem todos os dias. Essa diversidade amplia as perspectivas, estimula a criatividade e oferece diferentes maneiras de extrais o melhor de cada um. Por outro lado, exige do líder uma escuta constante, adaptação e reflexão sobre suas próprias referências culturais.

O grande valor de uma equipe multicultural está na oportunidade de ver a realidade sob vários ângulos. Pessoas de diferentes culturas podem entender uma mesma situação de formas bem diferentes e, por isso, sugerir soluções que talvez não apareceriam em um grupo mais homogêneo. Quando a diversidade é realmente valorizada, ela deixa de ser só uma característica da instituição e se torna uma fonte de conhecimento, inovação e aprendizado coletivo.

Gareth Morgan reforça essa ideia. Ele analisa as organizações sob a ótica da cultura e afirma que “a organização é em si mesma um fenômeno cultural” (Morgan, 1996, p. 116). Morgan também observa que diferentes grupos adotam estilos de vida próprios. Assim, a organização não está separada da sociedade e das pessoas que a formam. Ela reflete as crenças, comportamentos, experiências e valores de seus membros. Muita comida e muita música estão envolvidas nesse processo!

Em uma universidade multicultural, essa riqueza fica ainda mais florescida. Se o objetivo da educação é ampliar horizontes, questionar certezas e criar novos conhecimentos, uma comunidade acadêmica diversa oferece essas oportunidades todos os dias. O aprendizado acontece não só pelos livros, pesquisas e teorias, mas também pelo convívio com outras pessoas.

Por outro lado, o que é uma das maiores riquezas da multiculturalidade também traz grandes desafios. Uma mensagem de um líder nem sempre será entendida da mesma forma por todos. O que é considerado comunicação objetiva e eficiente em uma cultura pode parecer frio ou agressivo em outra. Uma postura informal pode ser sinal de proximidade para alguns e de falta de autoridade para outros. Silêncio, discordância, pontualidade, como se faz uma crítica e até a forma de falar com a liderança podem ter significados diferentes.

Como brasileira, venho de uma cultura em que conversas podem ser mais espontâneas, com pessoas falando ao mesmo tempo e, por vezes, interrompendo umas às outras antes que o pensamento seja concluído. Em ambientes multiculturais, já vivenciei situações bastante desconfortáveis ao perceber que essa forma de interação pode ser interpretada de maneira muito diferente (desrespeitosa e as vezes inaceitável) por outras culturas. Confesso que continuo em processo de aprendizado. Tenho aprendido que liderar multiculturalmente também significa reconhecer os próprios hábitos culturais, ouvir até o fim, respeitar o tempo de fala do outro e compreender que aquilo que é natural para mim pode não ser natural para quem está diante de mim.

Hofstede (2001, p. 9) define cultura como uma “programação coletiva da mente” que distingue os membros de um grupo ou categoria de pessoas dos demais. Sua teoria ajuda a compreender por que valores relacionados à autoridade, à hierarquia, à individualidade, à coletividade e às relações profissionais podem apresentar diferenças importantes entre sociedades.

O idioma acrescenta outra camada de complexidade. O idioma traz mais um desafio. Em uma organização onde se fala mais de um idioma, comunicar não é só traduzir palavras. Uma tradução correta nem sempre garante que todos a entenderão da mesma forma. Expressões, tons de voz, maneiras de mostrar respeito e certos conceitos podem ter sentidos diferentes. Por isso, liderar em um ambiente multicultural pede uma comunicação mais atenta: ouvir, perguntar, confirmar se todos entenderam e explicar o contexto são habilidades na minha Gestao, pois somos uma universidade americana fundada por brasileiros, com uma comunidade que se comunica em 3 idiomas e reúne pessoas de diferentes nacionalidades e culturas.  Observo também algo aparentemente contraditório: a multiculturalidade, embora aumente a complexidade das relações, pode tornar uma equipe mais tolerante e até mais coesa. E com muito mais paciência e empatia!

Quando alguém entra em um ambiente claramente multicultural, já entende, desde o começo, que vai encontrar diferenças. Sotaques, jeitos de trabalhar, formas de se comunicar, visões sobre hierarquia e referências culturais fazem parte do dia a dia. Essa consciência ajuda as pessoas a tentar entender o outro antes de transformar pequenas diferenças em grandes conflitos.

Na prática, vejo que situações que poderiam causar atritos em ambientes mais homogêneos muitas vezes são vistas de forma diferente. As pessoas passam a entender que uma resposta direta nem sempre é agressiva, que o silêncio nem sempre é indiferença e que discordar não é necessariamente um conflito pessoal. Talvez esse seja um dos paradoxos mais interessantes da multiculturalidade: quanto mais claras são as diferenças, menor é a expectativa de que todos pensem, falem e ajam igual.

Essa perspectiva também se aproxima da liderança transformacional proposta por Bass (1985). Para o autor, a liderança pode elevar a consciência dos indivíduos quanto à importância dos objetivos coletivos e levá-los a transcender interesses exclusivamente individuais em benefício do grupo. Em uma equipe multicultural, essa capacidade torna-se especialmente relevante: o papel do líder não é eliminar as diferenças, mas construir um propósito comum suficientemente forte para uni-las.

Um dos pontos mais delicados dessa experiência é a questão ética. Princípios como respeito, dignidade, justiça, responsabilidade e integridade devem guiar qualquer instituição, mas a forma como cada situação é interpretada pode variar conforme a cultura. O que é adequado, justo ou respeitoso para uma pessoa pode não ser para outra. Isso não quer dizer que tudo é relativo ou que a instituição não deva ter limites. Pelo contrário: quanto maior a diversidade cultural, mais claros precisam ser os valores e princípios éticos que unem a comunidade.

Por essa razão, liderar em um ambiente multicultural é buscar equilíbrio entre respeitar as diferenças e manter princípios institucionais comuns. Também é reconhecer que o líder vê o mundo a partir de sua própria cultura, história e experiências. Liderar pessoas diferentes exige humildade para admitir que nossa visão de uma situação não é a única possível.

Ouvir ativamente é uma habilidade essencial. Antes de julgar um comportamento, é importante tentar entender o contexto. Antes de achar que uma resposta foi agressiva, indiferente ou inadequada, vale perguntar o que a pessoa realmente quis dizer. Isso não afasta a responsabilidade individual nem implica aceitar atitudes que vão contra os valores da instituição. Significa criar um ambiente onde as decisões são tomadas com mais compreensão, equilíbrio e justiça.

Liderar uma equipe multicultural vai além das habilidades administrativas. É preciso ter inteligência cultural, inteligência emocional, empatia, capacidade de adaptação, comunicação consciente e vontade constante de aprender. Uma organização multicultural não deve tentar transformar pessoas diferentes em iguais. O desafio é criar um espaço onde culturas, idiomas e experiências diferentes possam conviver com valores e objetivos em comum.

E talvez seja aí que esteja uma das maiores riquezas da liderança multicultural: entender que as diferenças não precisam ser obstáculos, e sim podem estabelecer união entre as pessoas. Quando são reconhecidas, respeitadas e bem conduzidas, as diferenças podem ser justamente o que fortalece o grupo.

Vamos refletir? E você? Tem praticado a atenção e reconhece o valor das diferenças ao seu redor? Consegue parar um instante, antes de julgar, responder ou decidir, para lembrar que o outro pode ver o mundo a partir de outra cultura, história e valores?

Pare um minuto. Observe. Ouça. Procure entender antes de julgar. Talvez a multiculturalidade não esteja só nos ensinando a conviver com as diferenças, mas também a crescer com elas.

Referências

BASS, B. M. Leadership and performance beyond expectations. New York: Free Press, 1985.

HOFSTEDE, G. Culture’s consequences: comparing values, behaviors, institutions, and organizations across nations. 2. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, 2001.

MORGAN, G. Imagens da organização. Tradução de Cecília Whitaker Bergamini e Roberto Coda. São Paulo: Atlas, 1996.


Sobre a autora

Giulianna Carbonari Meneghello – Cofounder da Anhanguera Educacional S.A., Presidente da MUST University, mestra em Tecnologias Educacionais e doutoranda em Liderança Educacional. Diretora de Relações Institucionais do Instituto Êxito e Conselheira da Câmara de Educação da Associação Comercial de São Paulo.

(Este artigo impacta o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar, o ODS 4 – Educação de Qualidade, o ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico, o ODS 10 – Redução das Desigualdades e o ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes)


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