A ECONOMIA CIRCULAR E A EXCELÊNCIA OPERACIONAL: QUANDO “ESG” VIRA MARGEM, RESILIÊNCIA E VANTAGEM COMPETITIVA(1)

A economia circular deixou de ser conceito aspiracional e uma agenda de ESG, e tornou‑se alavanca estratégica e tema de performance: redução de custos estruturais, aumento de produtividade, reforço da consistência do sistema de qualidade, disponibilidade de insumos, velocidade de resposta ao mercado, proteção da marca, além do cumprimento de metas climáticas. Empresas que adotam modelos circulares já colhem benefícios mensuráveis em competitividade, eficiência operacional e uso de recursos. Mas só existe circularidade de verdade quando ela é conectada com excelência operacional, saindo do discurso e indo para o dia a dia da agenda, com metas claras, processo estabelecidos e implementados, padrões, KPIs, governança e rastreabilidade.

Na minha coluna anterior, falamos sobre a integração entre ESG e Qualidade nas rotinas das empresas. Em continuidade com a agenda ESG, para este artigo venho compartilhar com vocês fundamentos, barreiras e caminhos práticos para líderes e empresas que buscam integrar sustentabilidade e excelência operacional em suas organizações.

A pergunta que deixo é simples: sua operação está desenhada para extrair valor ou para transformá-lo em resíduo com eficiência?

O que é, afinal, Economia Circular em conceitos básicos?

A Economia Circular não é um projeto de sustentabilidade. É um modelo de gestão e um modelo econômico regenerativo por design de produção e consumo, que redefine como a empresa projeta, compra, produz, distribui e recupera valor, buscando reduzir desperdício ao mínimo e manter produtos, materiais e recursos em uso pelo maior tempo possível, extraindo valor contínuo em ciclos sucessivos de reuso, reparo, remanufatura e reciclagem. Diferente do paradigma linear “extrair–produzir–descartar”, a circularidade se apoia em pilares como: eliminar resíduos na origem, eliminar desperdícios, manter produtos e materiais de alto valor em ciclos, estendendo suas vidas úteis, e regenerar ecossistemas naturais. É a migração para projetar–usar–reusar–recuperar–repetir, com qualidade e rastreabilidade.  Enfim, é um modelo que redefine como sua empresa projeta, compra, produz, distribui e recupera valor.

Se circularidade está restrita ao capítulo ESG, ela tende a virar narrativa. Porém, quando ela entra na agenda das diversas áreas das empresas, ela vira sistema, faz parte da cultura, e começa a entregar resultado.

Por que unir Economia Circular e Excelência Operacional?

Economia Circular falha quando vira um conjunto de iniciativas desconectadas (um piloto aqui, um relatório ali, um “projeto paralelo” acolá). Ela funciona quando é tratada como sistema operacional de gestão, dentro do o território natural da excelência operacional.

E a circularidade não falha por falta de boas intenções, mas sim por falta de mecanismo de execução, que tem nome e sobrenome: excelência operacional. A excelência operacional nasceu para resolver um problema principal: variabilidade. E revisitando o conceito acima trazido sobre circularidade, ela nos leva a automaticamente pensar que aumenta a complexidade do sistema e um risco de maior impacto na variabilidade. E de fato, existe esta possibilidade, pois quando a circularidade sai do PowerPoint e passa a entrar na rotina dos processos, ela trará exatamente isso: mais variabilidade que exigirá maturidade para um novo tipo de cultura. E o reflexo disto é mais disciplina porque a circularidade terá:

  • mais interfaces (cadeia reversa, parceiros, cooperativas, recicladores, logística);
  • mais variabilidade (materiais secundários com dispersão maior);
  • mais exigência de compliance e segurança;
  • mais trade-offs (custo x especificação x risco x performance).

Se a empresa não tiver uma rotina de gestão consistente e contínua, a circularidade vira “piloto eterno”. Porém se possuir, e bem implementada, vira vantagem!

A integração entre princípios de circularidade e metodologias de excelência operacional (como por exemplo, Lean, Six Sigma, gestão da qualidade, Total Preventive Maintenance, entre outras ferramentas e metodologias) cria uma combinação poderosa que na prática, significa uma cultura de circularidade que funciona e um DNA de excelência operacional com:

  • padronização (processos repetíveis, definidos, treináveis e auditáveis);
  • qualidade assegurada e qualidade por projeto (controle de variabilidade e especificações e não “inspeção heroica” no fim);
  • capabilidade (processos capazes com matéria-prima “não perfeita”, ou seja, processo robusto para lidar com variação);
  • gestão de risco, gestão da mudança e gestão à vista com rituais (fornecimento, compliance, segurança do produto, rotina que segura o sistema);
  • melhoria contínua (kaizens orientados a valor e não só a volume e tempo, por exemplo).

O processo que só funciona com matéria-prima “perfeita” não é excelência operacional; é dependência disfarçada de eficiência. Atualmente, as empresas medem eficiência como saída por hora ou como valor por unidade de recurso consumido? Além disso, você quer ser excelente apenas em produzir muito ou em produzir valor com menos recurso e menos risco? Afinal, a segunda forma é a que tende a sobreviver nos próximos ciclos.

Algumas das Barreira Reais para Implementar Circularidade

A circularidade trava menos por falta de intenção e mais por arquitetura de sistema. E as barreiras mais frequentes aparecem com força justamente nos setores que você quer endereçar:

Variabilidade do material secundário, o desafio número 1 da qualidade!   Insumos reciclados/recuperados tendem a ter dispersão maior de composição, contaminantes, umidade, entre outras propriedades. Ou seja, mais pressão em PPM, reclamações, auditorias e homologação. O recado é simples: circularidade exige processos mais robustos do que o modelo linear exige atualmente. Se a sua matéria-prima variar mais, sua fábrica fica mais robusta… ou mais frágil? Como estão integrando estas entradas da circularidade à sua gestão de risco e gestão de mudança?  
Design e Engenharia lineares, o “pecado original” que impede escala pois o produto não nasce circular! Se o produto e/ou a embalagem foram desenhados para o descarte, tentar circularizar depois vira uma corrida cara: baixa taxa de aproveitamento, triagem complexa, perda de rastreabilidade, custo operacional alto, e conflitos com requisitos de qualidade e regulatórios. A maior parte do impacto é definida na fase de design, ou seja, circularidade “depois” geralmente é circularidade cara. Muita empresa tenta circularidade “no fim” (reciclagem) porque é mais fácil do que atacar o que realmente decide o resultado: projeto do produto e do processo. Se a sua circularidade começa no “fim do tubo” (no descarte), você está escolhendo o loop de menor valor e chamando isso de transformação. Quando o produto não foi desenhado para desmontagem, reparo, reuso ou remanufatura: o retorno vira custo (triagem cara, baixa taxa de aproveitamento), a operação vira retrabalho (sem padrão, sem roteiros), a qualidade vira exceção contínua (cada lote é um caso).  
Cadeia reversa subdimensionada e tratada como “logística do resto”! A cadeia reversa é frequentemente tratada como custo inevitável. Muitas vezes ela é evitada por complexidade sanitária e regulatória. Só que circularidade exige uma “segunda cadeia” com disciplina de primeira tão séria quanto a direta: coleta e triagem (misturado), inspeção (retrabalhos), requalificação, rastreabilidade por lote (sem especificação), a previsibilidade some (e a operação odeia imprevisibilidade), critérios de descarte e compliance (o risco regulatório aumenta especialmente em setores regulados). Sem isso, o retorno vira variabilidade, urgência e risco, que são os três inimigos da excelência.  
Incentivos desalinhados (o cemitério dos pilotos) e Economia de Curto Prazo Compras otimiza preço unitário. Operações otimiza throughput (ou seja, produção otimiza volume). ESG otimiza metas ambientais. Qualidade otimiza conformidade. Finanças otimiza previsibilidade. E ninguém otimiza o valor por ciclo de vida.   Resultado: circularidade fica sem dono no P&L, o ganho vira soft, e o custo vira hard, pilotos não escalam porque não entram na rotina de gestão. Se circularidade não tiver um “lugar” no modelo de metas, ela vira: piloto eterno, projeto de reputação, ou “custo do bem” que ninguém quer carregar.   Onde a circularidade aparece no P&L e quem responde por ela quando piora algum indicador local no curto prazo? Qual indicador seu time é promovido por melhorar e qual indicador a circularidade piora temporariamente até o sistema estabilizar?  
Dados, rastreabilidade e auditoria (sem evidência, não escala) Circularidade industrial exige evidência e sem dados confiáveis, circularidade vira discussão de narrativa que requer: origem, qualificação de fornecedores, composição, lote, mistura, gestão das mudanças, gestão de risco, conformidade, qualificação de materiais secundários. Se o seu sistema não “enxerga” o material ao longo do ciclo, você não tem circularidade, você tem exposição. Sem rastreabilidade, circularidade não é estratégia; é risco operacional embrulhado em boa intenção.  

Afinal, o que se pode medir através de KPIs Operacional para Circularidade e inserir na sua Rotina?

Comece por “onde dói”: material, energia, água, devoluções e sucata, mapeando as perdas com uma lógica simples: onde está o custo recorrente que você normalizou? Sucata, retrabalho, refugo, devolução, obsolescência, embalagem, perdas no transporte, ociosidade por falta de insumo.

Se circularidade é gestão, ela precisa de números auditáveis e “de operação”. É traduzir em KPIs operacionais para que sua Estratégia e Gestão em Circularidade seja assertiva e competitiva, como:

  • PPM/Reclamações de Consumidores em materiais secundários versus virgens (qualidade comparada);
  • Porcentagem de conteúdo reciclado/recuperado por família de produto que mede quanto do produto vem de material circular qualificado;
  • Lead time reverso que mede tempo de transformar retorno do material liberado para uso (tempo para recuperar, requalificar e reinserir);
  • Porcentagem doYield do Fluxo Reverso ou Yeald Total que mede quanto do retorno vira insumo reinserido com aprovação da Qualidade (reinserção efetiva – do berço ao reuso).

Se amanhã o volume de retorno dobrar, seu processo de inspeção e liberação aguenta com segurança e conformidade? Seu processo continua seguro, conforme e previsível ou vira exceção permanente?

Quem adota versus quem não adota! O recado dos países e das empresas…

Circularidade não é teoria. É capacidade instalada com política pública e execução industrial. Em 2024, a distância entre a Holanda (32,7%) e países na faixa de 2% é um indicador indireto de maturidade de cadeias reversas, disponibilidade de secundários, integração entre indústria e gestão de resíduos, e, principalmente, disciplina operacional para fazer o ciclo girar.

Para não confundir opinião com evidência, o dado mais direto de circularidade entre países da União Europeia (UE) é a Circular Material Use Rate (CMU / circularity rate), que mede a participação de materiais reciclados no uso total de materiais. E o retrato (UE, 2024) é: Média UE(2) é 12,2% enquanto que os líderes estão entre Países Baixos(2) 32,7%, Bélgica(2) 22,7%, Itália(2) 21,6%.

Em países com CMU alto, o que tende a estar mais bem resolvido e vira vantagem competitiva para a indústria são: infraestrutura e mercado de materiais secundários (mais volume, mais padronização, mais previsibilidade de fornecimento), menor dependência relativa de extração/insumos primários (o que reduz exposição a volatilidade e risco de abastecimento, destacando que as diferenças dependem do balanço entre novos recursos extraídos e materiais reintroduzidos na economia), disciplina de sistema (regulação, metas, coleta, triagem, reciclagem e demanda industrial funcionando como cadeia).

Quer enxergar alguns exemplos práticos?

Em indústrias de alimentos e bens de consumo, circularidade tende a aparecer com mais força em iniciativas como redução de perdas e desperdícios (matéria-prima, processe, distribuição), valorização de subprodutos (ingredientes, ração, energia, compostagem, conforme viabilidade e compliance), embalagens (design para reciclabilidade, refil, reuso em nichos, conteúdo reciclado, monomateriais), pós-consumo (reinserção por especificação), eficiência de materiais (redução de gramatura, otimização sem perder performance percebida).

Quando um país consegue operar com mais “materiais em loop”, ele compra menos risco junto com cada tonelada. Sua empresa está construindo essa mesma imunidade ou ainda depende do cenário perfeito? Sua empresa está planejando competir contra isso cm que preço, marketing ou sistema operacional?

Circularidade é estratégia de excelência e a provocação que separa pauta de transformação

Circularidade vai continuar sendo chamada de ESG por quem prefere que ela fique em um só lugar. Só que a realidade está empurrando o tema para o centro: custo, disponibilidade, risco, regulação, reputação e competitividade.

A economia circular não é mais uma tendência, é infraestrutura estratégica para competitividade, resiliência e ambições climáticas, quando conectada à excelência operacional, vira um sistema de redução de custo estrutural, resiliência de suprimentos, inovação de produto, compliance e reputação, sem depender de heroísmo ou de um time isolado. Constroem cadeias mais seguras em um mundo de recursos escassos. Em um mundo com 6,9% de circularidade global e consumo material recorde, quem fechar loops primeiro capturará valor superior e licença social para operar.

À medida que a força competitiva das operações passar a nascer menos da compra de insumos virgens e mais da habilidade de manter o valor vivo dentro do próprio sistema, ficará claro que iniciar a jornada agora é um ato de visão e que deixar para depois é renunciar ao protagonismo em uma transformação que já está em movimento.

(1)Jullyanna Sobrinho Executiva Global de Qualidade

(1)As opiniões apresentadas neste artigo são pessoais e não refletem necessariamente a posição do meu empregador. (2) (FONTES: Eurostat — Over 12% of materials in the EU come from recycling e Eurostat — Circular material use rate (cei_srm030))

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