A fortaleza persa – 11/04/2026 – Opinião

Multidão de mulheres vestindo roupas pretas e crianças na frente seguram bandeiras do Irã em rua urbana. Cartazes e faixas com imagens cobrem paredes ao fundo.

A geografa do Irã não pode ser dissociada de sua história milenar; ao contrário, constitui o eixo explicativo da formação, continuidade e resiliência de uma das civilizações mais antigas do mundo —bem como de seu regime político contemporâneo.

Situado entre a Ásia Central, o Oriente Médio e o sul da Ásia, o território iraniano opera, há milênios, como uma encruzilhada de povos, impérios e rotas comerciais.

As cadeias montanhosas, como os Montes Zagros e os Montes Elburz, historicamente atuaram como barreiras defensivas naturais, enquanto o controle de rotas comerciais consolidou o Irã como pivô regional. Essa lógica de controle territorial e de fluxos permanece central na contemporaneidade.

O ponto de inflexão decisivo ocorre com a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a monarquia e instaurou a República Islâmica sob a liderança de Ruhollah Khomeini. Trata-se de um regime singular, que combina instituições republicanas com uma estrutura teocrática, na qual a autoridade suprema é exercida por um líder religioso.

Nesse arranjo, destaca-se o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, criado para proteger o regime. Com forte inserção política, econômica e militar, atua tanto internamente quanto na projeção externa de poder, especialmente no Oriente Médio, conectando-se à geografia estratégica do país —incluindo o Estreito de Ormuz, o principal “ponto de estrangulamento” energético do mundo, por onde circula cerca de um quinto do consumo global de petróleo.

Sob sanções e tensões com potências ocidentais, o Irã desenvolveu expressivo poderio bélico com base em autonomia tecnológica, incluindo mísseis balísticos, hipersônicos, drones e estratégias assimétricas.

Esse avanço se apoia também em uma base técnico-científica robusta: o país investiu na formação de engenheiros e cientistas e consolidou uma ampla rede de universidades e centros de pesquisa, articulados a um modelo desenvolvimentista com forte presença estatal, voltado à autonomia produtiva em setores estratégicos.

Paralelamente, o país estruturou um padrão de desenvolvimento que busca reduzir dependências externas e fortalecer capacidades endógenas. A formação de quadros altamente qualificados tornou-se elemento central da estratégia nacional, conectando educação, indústria e defesa.

O Irã também consolidou um eixo de resistência, com influência em países como Iraque, Iêmen, Síria e Líbano. Essa atuação está diretamente ligada à sua ideologia política e à sua posição geográfica, ampliando sua capacidade de intervenção indireta em diferentes cenários de conflito.

Assim, geografia, história milenar, regime político e base técnico-científica formam um conjunto indissociável. O Irã contemporâneo herda não apenas um território estratégico, mas uma cultura política de centralidade regional, hoje reinterpretada sob a forma de uma república islâmica com elevada capacidade de mobilização interna, autonomia tecnológica e projeção externa de poder.

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Fonte ==> Folha SP

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