O que seria exatamente “salvar o casamento” pra você(s)? Começo com esta pergunta pois, na tentativa cheia de amor e boas intenções, talvez não tenhamos clareza do significado desse salvamento para cada um de nós.
O gato de Alice diria que “pra quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve”. Ouso dizer que pra quem não esclarece o que significa salvar, qualquer caminho ruma a um naufrágio emocional.
Porque “salvar” pode significar muitas coisas: salvar a família, a parceria, a rotina, os filhos, o patrimônio, a amizade. Mas nem sempre é salvar o desejo. E, às vezes, o que se chama de salvamento é apenas uma tentativa de postergar uma perda já em curso.
Talvez a perda não seja do amor, mas do erotismo. E isso exige uma investigação honesta: queremos voltar a ser amantes, ainda que com a possibilidade de novos amores? Ou queremos nos assumir como parceiros de vida, mas não de cama? É pouco provável que haja clareza total no início. Mas implicar-se na construção dessas respostas é o único modo de fazer com que a abertura não se transforme, paradoxalmente, no fechamento da possibilidade de reconstrução do vínculo a dois.
Percebo que a conversa sobre abrir a relação costuma surgir como uma tentativa ética de viver com menos mentira, culpa e hipocrisia. Um movimento de reconhecer que o desejo não se encerra naquele que juramos amar pra sempre. A psicanálise nos lembra: o desejo é sempre desejo da falta. Nenhum parceiro dará conta de todas as dimensões do nosso querer e isso não precisa significar crise ou falência do amor.
Quando o casal se depara com o limite do desejo, da fantasia, da excitação, da idealização, abrir a relação pode ser uma elaboração madura do reconhecimento de que nenhum parceiro dará conta de todas as dimensões do desejo e que isso não precisa significar crise ou falência daquele amor.
Mas a questão mais delicada nesta abertura não é apenas quais novas experiências serão vividas. É outra: quais antigas dimensões do desejo queremos e estamos dispostos a reconstruir entre nós?
Esse novo arranjo expande o erotismo e também o reinventa dentro da relação? Ou funciona como uma forma confortável de manter os alicerces da família, enquanto o desejo passa a ser autorizado a morar fora? Este caminho seria quase que uma variação do chamado “quiet divorce” —o divórcio silencioso— nome dado a este fenômeno contemporâneo em que não é uma separação formal, mas de um desligamento afetivo e erótico progressivo. O casal segue junto, cria filhos, organiza a vida prática, mas o vínculo sexual foi esvaziado. Há parceria mas não desejo. Abrir pode ser uma forma honesta de reconhecer e institucionalizar esse esvaziamento —e, se for escolha consciente de ambos, não há certo ou errado nisso.
O problema é quando a energia investida nos novos encontros não encontra equivalente na reinvenção do namoro entre o antigo casal. O novo seduz e o terceiro pode funcionar como uma espécie de analgésico narcísico: devolve vitalidade ao eu ferido, restaura a autoestima abalada e reanima o corpo que já não se sentia visto. Se o novo arranjo não cuidar também da construção de contextos, cenários e fantasias para um novo jogo erótico da antiga relação, mais cedo ou mais tarde a abertura se torna afrouxamento de laços, que se torna ou divórcio silencioso ou litigioso.
Quero deixar claro que abrir a relação não necessariamente é boicotá-la. Pode ser, permitir-se uma vida com mais sobremesas sem culpa. Gosto da metáfora da sobremesa pois trata-se de algo que não é da ordem da necessidade. Precisamos da sobremesa? Não. Precisamos de mais parceiros? Não. Mas podemos querer. E querer e saborear sobremesas não invalida a capacidade de nos deliciarmos com ótimos almoços e jantares. Uma sobremesa prazerosa não invalida o prazer da refeição. Ela pode, inclusive, ampliá-lo, lembrando-nos que ainda temos paladar.
Mas há uma condição fundamental: que a refeição continue sendo escolhida, preparada com desejo. Que o tempero seja revisto e que o encontro não se transforme num bandejão apressado da rotina. Quando a conjugalidade vira apenas praticidade, perde sabor. Fica sem sal, sem textura, sem invenção. E então a sobremesa deixa de ser escolha e vira fuga.
O problema não está na sobremesa. Está em abandonar a cozinha da relação sem que esta seja uma decisão consciente do tal divórcio silencioso.
Talvez a pergunta não seja se abrir é estratégia ou boicote. Mas se estamos dispostos a continuar cozinhando juntos e qual exatamente é esse novo cardápio que queremos criar: um PF bem feito que mantém o básico da parceria e da família sem se propor a ter a pimenta do erotismo? Ou receitas novas, com especiarias capazes de despertar desejo nesse antigo menu?
Na cozinha do amor, como na psicanálise, não existe receita universal; nem certo ou errado moral; existe implicação e responsabilidade pelo que se escolhe temperar, pelo que se deixa esfriar e pelo que ainda se deseja colocar no fogo.
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Fonte ==> Folha SP
