Androides sonham com leitores de carne e osso? – 07/02/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Um robô surge entre as colunas da página do jornal

Ao se queixar do texto de uma colunista, um assinante alertou que 66% do conteúdo vinha de inteligência artificial, segundo um detector de IA. Como ouvidora dos leitores, procedi à checagem e fui atrás dessas versões hoje tão prosaicas do Blade Runner.

Usei o Pangram e o WinstonAI, dois bem cotados caçadores de textos de androides, para testar outras colunas da autora. Todas apitavam para IA, a maioria com taxas de 100% ou quase isso. Repeti os testes e obtive os mesmos resultados. Já outros textos do jornal, inclusive aqueles traduzidos com IA, davam resultado 100% humano.

Por melhores que os detectores sejam, porém, não dá para julgar o trabalho de alguém apenas por esse diagnóstico, mas é mau sinal que haja colunas do jornal com 100% de IA no teste. Veio a questão seguinte: qual é o problema? O jornal não proíbe texto de IA. Mas também nunca informou que publicava texto de IA.

Enviei o questionamento e os prints dos testes à colunista e ao comando do jornal. Ressalto aqui que entendo a questão como algo delicado, mas não antiético, já que a própria Folha não tem políticas restritivas a respeito do uso da IA, pelo contrário. Tive dúvidas sobre expor a autora, o que poderia desviar o foco da questão, ou expor o diagnóstico sem dar nomes e colocar todo o elenco do jornal na berlinda.

Mas a colunista, Natalia Beauty, confirmou e defendeu o uso de IA nos textos que publica na Folha. “Utilizo, sim, ferramentas de inteligência artificial como apoio operacional no meu trabalho, assim como utilizo outras tecnologias no dia a dia profissional.”

“O processo é objetivo. Parto sempre de um tema que considero relevante, seja um fato, seja uma reflexão baseada em experiências pessoais e profissionais. A partir daí, desenvolvo minha argumentação verbalmente, expondo de forma clara minha visão, meus argumentos e minhas conclusões (sim, é possível conversar com a IA pelo microfone). A ferramenta apenas organiza esse material, respeitando rigorosamente o que foi dito, sem acrescentar dados, interpretações ou opiniões que não sejam minhas.”

Para concluir, a colunista informa que até a resposta à ombudsman veio da IA. “Defini o conteúdo, dei os comandos por voz e a tecnologia apenas estruturou o texto para otimizar meu tempo, sem interferir em absolutamente nenhuma linha do que penso ou afirmo.”

Em setembro de 2023, a Folha incluiu o verbete “inteligência artificial” no seu Manual da Redação, autorizando os profissionais a “utilizar aplicações de inteligência artificial (IA) em seu trabalho”. Havia ressalvas: “A ferramenta não substitui o julgamento humano nem exime o jornalista de responsabilidade pelo resultado final” e a revisão humana “é obrigatória nos conteúdos voltados à publicação”. Até aí, não há nada nas publicações de Natalia Beauty que sugira descompasso com os princípios da Folha.

Dos grandes jornais de circulação nacional, O Globo é o que tem restrição mais clara em relação a textos de IA. “A inteligência artificial não deve ser usada para redigir textos opinativos ou editoriais.” É também o que afirma o The New York Times: “Não usamos IA para escrever artigos”.

Tanto o NYT quanto O Globo, o Estado e outras grandes Redações determinam que o conteúdo gerado por IA seja identificado como tal. A Folha não tem regra nesse sentido e considera a IA uma tecnologia como outra qualquer. No ano passado, questionei o jornal sobre a falta de indicação de uso de IA em traduções: “A responsabilidade é sempre dos nossos jornalistas”.

Uma pesquisa recente da Universidade de Maryland, nos EUA, pintou um quadro complicado ao avaliar 45 mil artigos de opinião no The Washington Post, The New York Times e The Wall Street Journal. A conclusão é que esses artigos têm seis vezes mais chances de ter dedo de robô do que textos noticiosos. E muitos deles são assinados por figuras públicas importantes.

Muitas vezes, o que a IA substitui não é um texto de próprio punho, mas um artigo que até outro dia era redigido sob medida por assessor e/ou ghost writer. A prioridade é publicar pela assinatura, não exatamente pelo conteúdo. Os jornais têm sido, historicamente, repositórios/arquivões de opiniões, e a IA teria apenas encurtado essa linha de produção. Nesse sentido, a novidade seria mais para o assessor do que para o jornal.

Mas e o leitor com isso? Cabe a ele arbitrar se o resultado é bom ou não, se está otimizado demais ou de menos. Mas ninguém quer se sentir enganado. É um erro do jornal não indicar com clareza o uso de uma tecnologia que ainda está sendo desdobrada, assim como é um erro não distinguir o uso da IA como instrumento do seu uso como produto final.

O assinante de carne e osso se vê entre dois extremos no cardápio do jornal. De um lado, textos demasiado humanos cheios de burocratês e erros; do outro, composições gepetaicas de formas corretas, mas genéricas e vazias.

Se tudo vai se perder feito lágrimas na chuva, como anunciou o replicante de Rutger Hauer, que ao menos seja editado com cuidado e sinalizado com transparência enquanto ainda estivermos por aqui.



Fonte ==> Folha SP

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