Ave Lola leva Shakespeare ao Sesc Santo Amaro – 26/03/2026 – Mise-en-scène

Ave Lola leva Shakespeare ao Sesc Santo Amaro - 26/03/2026 - Mise-en-scène

Esqueça Atenas. A Trupe Ave Lola não está interessada em cenários de papelão ou ilusões geográficas. No Sesc Santo Amaro, a diretora Ana Rosa Genari Tezza subverte o óbvio em “Sonho de uma Noite de Verão”: aqui, a floresta de William Shakespeare não é um lugar, mas um delírio. É um território de feitiçaria que brota do chão onde quer que o jogo teatral decida fincar bandeira, transformando o palco em um estado de espírito bruto e vivo.

A aposta é no artifício escancarado. Teatro de pavilhão, circo-teatro, farsa. Os atores não se fundem aos personagens; há um prazer evidente em mostrar o “fingimento”, e isso transforma a plateia em cúmplice de um banquete coletivo. Há simplicidade sofisticada nessa escolha, e ela exige preparo. A companhia passou cinco anos gestando essa montagem, com leituras públicas e oficinas, para digerir a poesia de Shakespeare, na tradução poética e certeira de Bárbara Heliodora, sem perder a comunicação popular.

A energia é coral. Todos os nove atores estão inteiros o tempo todo, mesmo em silêncio. É uma organicidade conquistada no músculo, não no acaso.

O espetáculo organiza três mundos: os amantes enredados em afetos trocados, as fadas em disputa de poder e os artesãos que ensaiam uma peça dentro da peça. O núcleo dos trabalhadores é o coração metateatral da noite. Nos ensaios de “Píramo e Tisbe”, eles discutem justamente a impossibilidade de se fundir ao personagem, num gesto que escancara a própria ética da trupe. A precariedade daqueles artesãos espelha a luta de um grupo independente brasileiro que insiste em fazer arte com artesania manual.

A cenografia de Daniel Pinha trabalha por síntese; o espaço se ressignifica com luz e movimento. E mesmo dentro de um teatro convencional, mantém-se o espírito de tenda — espaço democrático, lúdico, sem distância. Os figurinos (Ana Rosa e Helena Tezza) buscam contemporaneidade sem negar a origem, e a belíssima e inventiva trilha ao vivo (Arthur Jaime e Breno Monte Serrat) é dramaturgia sonora, ditando o batismo de cada cena, fundindo nota e palavra.

A diretora sublinha a compulsão erótica e a insubordinação feminina como forças irracionais. Hérmia (Helena de Jorge Portela) em fuga para a floresta é lida como ato de resistência num universo onde o pai detém o destino de seu corpo, decidindo com quem ela deve se casar.

É um teatro que recusa clichês comercializados. E nessa recusa, lembra o essencial: o teatro como encontro amoroso, como entrega coletiva. Num tempo de afetos efêmeros, essa trupe sulista te puxa para dentro da floresta sem tentar imitar folhagem nenhuma, apenas com a matéria viva do jogo. O resultado é um deleite que não se prende a floreios: apenas respira.

Três perguntas para…

… Ana Rosa Genari Tezza

A montagem de “Sonho de uma Noite de Verão” foi gestada por pelo menos cinco anos, envolvendo leituras públicas e treinamentos rítmicos. Como esse longo período de maturação influenciou a “vitalicidade” que você exige do elenco, onde todos os personagens devem estar plenamente “vivos” mesmo quando não estão falando?

O fato de termos um tempo longo de maturação e a possibilidade de improvisar, realizando estudos de cenas que não partem apenas do texto, mas de situações diferentes das que a obra proporciona, permite ao ator imaginar o universo da personagem para além da peça. Isso confere profundidade e camadas no momento em que eles estão em cena sem falas.

Eles estão vivendo a vida que criaram: uma vida complexa, profunda e cheia de camadas, que os permite estar em cena por muito tempo sem precisar falar. Na nossa vida também é assim: conseguimos viver plenamente mesmo que não sejamos os protagonistas de algum momento do dia. É bonito pensar que o tempo dá aos atores a chance de se aprofundar na personagem e criar uma existência ficcional verdadeira para aquele ser fictício.

A Ave Lola completa 15 anos consolidada como uma companhia liderada por mulheres. De que maneira essa liderança feminina moldou o olhar da trupe para a insubordinação de Hérmia contra o patriarcado representado pelo pai e pelo rei na obra original?

Estar aglutinado em torno de uma companhia liderada por mulheres nos leva a discussões profundas sobre o papel da mulher hoje e como o patriarcado ainda nos coloca em situações de invisibilidade. Isso gera uma cultura interna de pessoas que refletem sobre a condição feminina — incluindo atores, atrizes, produtores e produtoras. Todos estão imbuídos desse discurso. É impossível imaginar uma improvisação ou investida em cena onde, consciente ou inconscientemente, não estejamos defendendo questões tão ativadas em nossos corpos, como o feminino no protagonismo.

No nosso Shakespeare, não é só Hérmia que é insubordinada. Helena também é quando diz a Demétrio, que a alerta sobre os riscos na floresta: “Eu vou ficar aqui nem que seja para fazer o inferno da vida dele”. Ela não se submete ao papel que ele acredita ser o dela. As personagens de Shakespeare abrem espaço para atravessarmos nelas o nosso tempo histórico e a nossa forma de enxergar a realidade. Na Ave Lola, as mulheres são protagonistas, e não seria diferente em nossas obras.

O núcleo dos artesãos na peça discute abertamente a distância entre ator e personagem. Como você utilizou esse metateatro para reforçar a ideia de que o teatro é um “fingimento poético” onde a interpretação deve ser intencionalmente visível?

A obra de Shakespeare cria uma situação onde as personagens deixam evidente para o público que o teatro é um jogo. Em momento nenhum ele quer ser um lugar de enganação para distrair o espectador da realidade; pelo contrário, o público deve estar atento ao fato de que tudo ali é uma construção ficcional, simbólica e poética das situações humanas. É bonito ver como Shakespeare já se preocupava em evidenciar esse jogo e como ele é pedagógico ao ensinar o público a pensar sobre isso.

Sempre digo aos atores que a espontaneidade e a atuação são vetores opostos. Tudo em cena deve ser construído, proposital e desenhado para que o público acompanhe. A espontaneidade é aquilo que você faz automaticamente, sem consciência; já a construção de uma personagem passa pela intencionalidade. Shakespeare mostra isso na cena dos trabalhadores: como eles, ingenuamente, descobrem que precisam mostrar ao público a intenção de contar uma história, sem o desejo de enganá-los fingindo que são de fato aquelas figuras. Shakespeare, gênio como sempre, nos ensina sobre teatro. O resultado é de regozijo, pois vemos o espectador engajado e convidado ao jogo de uma obra que não é simples, mas que o contempla.

Sesc Santo Amaro - rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro, região sul. Sexta e sábado, 19h30; domingo, 18h. Até 5/4. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 15,00 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *