Caso Pedro e Jordana BBB: É importunação sexual – 21/01/2026 – Amor Crônico

Pedro Henrique Espindola no confessionário do BBB 26

Um homem conhecido oferece ajuda para uma tarefa simples e, ao se aproximar, ultrapassa seus limites: encurrala seu corpo, segura seu pescoço e tenta te beijar sem consentimento. Você se afasta, pergunta o que ele está fazendo e escuta: “estou fazendo o que estou com vontade de fazer… achei que tinha me dado moral, entendi errado”.

A cena flagrada no BBB 26 —a casa mais vigiada do país— retrata um crime de importunação sexual cometido por Pedro contra Jordana e, infelizmente, funciona como espelho de inúmeras situações de violência vividas por mulheres fora das câmeras. Situações que, não raro, assim como Jordana, hesitamos em nomear como violência e que nos levam a inverter a lógica da responsabilidade: antes de interrogar o gesto do outro, interrogamos a nós mesmas: será que fui simpática demais? Será que dei sinais confusos? Será que estou exagerando? Afinal, ele não chegou a… será?

Essa dúvida não se dá apenas porque não temos testemunhas, mas porque fomos socializados para relativizar e naturalizar violências masculinas na mesma medida em que fomos educadas a flexibilizar o próprio desconforto, a preservar o vínculo mesmo quando algo em nós se contrai, a compreender o outro antes de sustentar a própria experiência. Aprendemos cedo a desconfiar daquilo que sentimos para proteger a imagem alheia e, muitas vezes, para também evitar a vergonha, o julgamento ou a incredulidade.

Não por acaso, a subnotificação da violência sexual no Brasil segue alarmante. Segundo a pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização Mulheres no Brasil realizada pelo Fórum de segurança pública em 2025 quase metade das vítimas —47,4% delas ( cerca de 11 milhões de mulheres brasileiras)— não denunciam nem procuram ajuda de amigos, familiares ou de órgãos oficiais por medo de não serem acreditadas ou de serem responsabilizadas pelo ocorrido. Medo que se confirma quando, diante de cenas como a do BBB, somos atravessadas por análises que contemporizam o agressor antes de acolher a vítima: “ele não estava bem emocionalmente”, “estava confuso”, “talvez tenha entendido errado”. “Coitado…” Coitado?! Quem?

Essa dificuldade coletiva de nomear a violência aparece sobretudo quando ela se apresenta sem fantasias extremas, becos escuros ou monstros evidentes. Quando ela surge no cotidiano, na convivência, no “quase”, no “cara legal”, no amigo, no colega de trabalho. Quando o agressor não corresponde ao estereótipo do vilão, a cena tende a se dissolver em ambiguidades —e a responsabilidade desliza silenciosamente para a mulher, agora convocada a explicar melhor seus limites, seu tom, seu corpo.

Perceber que o agressor não tem um perfil claro e caricato de vilão e responsabilizá-lo por seus atos é imprescindível para que não corramos o risco de reduzir todas as mulheres no perfil caricato e machista de mulheres boazinhas e sedutoras, que se atrapalharam na medida do afeto e na leitura dos fatos.

Não se trata de mal-entendido, sedução ou carência. Trata-se de importunação sexual —a mesma que ocorre quando, num jantar entre colegas, uma mão repousa na perna sem convite e se justifica como “clima”; quando um amigo insiste em avançar após um “não”, interpretando o limite como jogo; quando, numa festa, alguém segura sua cintura para impedir que você saia e, confrontado, chama isso de brincadeira. E tantas outras situações que hesitamos em nomear porque fomos educadas numa pedagogia do afeto que nos treina a absolver o outro com o benefício da dúvida e a temer que, ao nos nomearmos vítimas, sejamos atacadas como culpadas: “vítima nada… ela está se se vitimizando…”

O efeito disso é conhecido na clínica: quando a experiência não encontra reconhecimento externo, o sujeito começa a se desautorizar internamente. A violência não termina no ato, ela se prolonga na dúvida, na culpa, no silêncio. O psicanalista Sandor Ferenczi chamou este mecanismo de “desmentido”: o trauma não se constitui apenas pelo acontecimento violento, mas pelo momento seguinte, quando ao tentar nomear o vivido, o sujeito encontra no outro a negação ou relativização: “não foi bem assim”, “você entendeu errado”, “não foi para tanto”. O perigo é que o desmentido corrói a confiança não só no agressor mas também nas possibilidades de amparo e em sua própria percepção. Aos poucos compreendemos que se o que sentimos não é validado, talvez nós estejamos erradas em sentir ou interpretar os gestos desta maneira. Aprendemos, assim, que sobreviver implica duvidar de si.

Mas vale dizer que essa pedagogia do afeto não oferece as mesmas cartilhas para homens e mulheres. Ao passo em que somos ensinadas a conter, refletir, relativizar e duvidar de si, homens seguem autorizados a agir e depois explicar o gesto como erro de cálculo, excesso momentâneo e até mesmo como uma “simples” exteriorização do impulso, do instinto, da virilidade. Penso aqui num outro conceito psicanalítico que precisa ser urgentemente revisto de forma a ser desnaturalizado como algo da “natureza dos homens”: o acting out.

Na psicanálise, trata-se de um gesto que irrompe no real quando o sujeito não consegue sustentar a mediação simbólica do desejo —isto é, quando não tolera o limite, a frustração, a espera ou a castração implicadas no encontro com o outro. Em vez de elaborar, o sujeito age. “Fiz o que estava com vontade” a frase dita por Pedro no BBB é expressão cristalina dessa lógica. Quando o acting out é naturalizado, o limite deixa de ser estruturante e passa a ser vivido como obstáculo ilegítimo. O outro deixa de ser um sujeito com desejo e consentimento próprios e passa a ocupar o lugar de objeto disponível à ação, de suporte para a descarga do próprio impulso.

Espero que o ocorrido no BBB traga para nós a urgência de um novo B de “basta”. Não dá mais para que nós mulheres fiquemos confinadas na dúvida, na objetificação, no desmentido. Não é possível que sigamos perpetuando nas casas vigiadas e nas vulneráveis um jogo em que pra ganhar é preciso relativizar o ultrapassar dos limites do outro e nomear a resiliência e o silenciamento como provas de resistência enquanto legítima (e por vezes até premia) nos homens a passagem ao ato como traço de virilidade.

Nomear corretamente não é rigor semântico. É condição ética e clínica. Enquanto insistirmos em suavizar a violência com narrativas conciliatórias, continuaremos produzindo mulheres que aprendem a duvidar do próprio sentir. Nomear não apaga o que aconteceu, mas impede que ele se repita em silêncio.

Se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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