“Adeus ano velho, feliz ano novo” é o que aprendemos a cantar e desejar a cada virada de ciclo e, por mais cético e pouco conectado a rituais que você seja, esta pausa de fim de ano quase sempre carrega consigo a esperança de que possamos também pausar as brigas, os desencontros, as desconexões conjugais.
Existe a expectativa de que essas miniférias sejam também uma possibilidade de tirarmos férias dos conflitos. Afinal, estamos temporariamente minimizando os fatores estressores externos: as ligações do chefe workaholic, o trânsito caótico, a agenda lotada de compromissos que espremem o tempo de qualidade do amor.
Com mais tempo juntos, esperamos finalmente poder desfrutar da companhia um do outro e viver dias de conversas transformadoras, noites de romance sob o luar, carinhos sem moderação. Essa expectativa é genuína e deliciosa, mas é também a chave para abrirmos as portas conhecidas da frustração. Parte dela vem da constatação de que o estresse da relação era menos produzido pelo caos externo e mais sustentado por diferenças internas que, quando ignoradas, tornam-se pontos de atrito.
Nas férias, muito da decepção vem do fato de que o maior tempo de convivência, ao invés de ser fonte de mais prazer, se torna palco de maiores desencontros e maior sensibilidade aos incômodos que, na rotina, somos obrigados a atropelar porque há deveres a serem cumpridos. É mesmo frustrante perceber que o suposto momento de lazer e prazer não suspende aquilo que já nos desgasta: o controle disfarçado de cuidado, a ausência emocional justificada pelo trabalho, a parceria que propõe, mas não sustenta. O incômodo cresce não porque algo novo apareceu, mas porque o que já existia deixou de poder ser negado.
A provocação aqui é: o que existia é da ordem do intransponível —e você está adiando o fim de uma relação que já não faz sentido— ou é apenas a alteridade se apresentando? O que frustra: a pessoa com quem você está ou o fato de toda relação ser, inevitavelmente, uma experiência de falta, limite e castração? O que emerge não é necessariamente o fracasso do vínculo, mas o choque entre o amor possível e o amor idealizado.
Escutar esse mal-estar de forma implicada exige três movimentos que se entrelaçam: revisar os ideais que projetamos sobre a relação; reconhecer as posições que repetimos dentro do casal; e sustentar o desconforto de olhar para as repetições do outro sem transformar tudo imediatamente em acusação ou sentença de falência. Esses movimentos só se tornam possíveis quando ousamos ter conversas difíceis com o outro e conosco.
Escrevendo aqui, me lembro de uma vivência amorosa frustrante e esclarecedora. Aos vinte e poucos anos, fiz minha primeira viagem internacional com um namorado. Paris, o clichê do amor. Planejamos um piquenique aos pés da Torre Eiffel, outro clichê do amor. Poder ser cafona e amar com sobreposição de clichês fazia parte da minha fantasia romântica e do desejo de poder amar, ser cafona e clichê sem moderação. Passamos horas escolhendo as delícias no mercado e, ao sair na rua: dilúvio. Baldes de água fria caindo do céu no meu cenário perfeito clichê.
Propus alternativas: fazer o piquenique sob a marquise de um museu, na cama do hotel, até num café qualquer. Ele recusava todas. Eu queria jogo de cintura; ele, desistência. Nenhum de nós estava exatamente errado, estávamos presos a versões diferentes de Paris, do amor e do vínculo. Seguimos juntos ainda por anos, ambos frustrados. Eu, por estar com alguém pouco propositivo; ele, provavelmente, por estar com alguém que não desiste fácil de piqueniques ou ideais. Hoje entendo: não faltava amor, faltava negociação entre fantasias.
Boas relações não são as que não nos frustram —esse é seu ideal infantil querendo voltar a ser “vossa majestade, o bebê”. Lidar com a castração é crescer e ser apto a se relacionar, você está disposto a isso? Ou quer seguir frustrado com o outro, vítima da falta de atenção, carinho e companheirismo mas, como o tal bebê que perdeu seu trono, incapaz de verbalizar suas necessidades, desejos e limites àqueles que ama, esperando que a prova de amor do outro seja prever seu modus operandi, antecipar suas necessidades e atender a seus desejos e fantasias?
Seria maravilhoso se o outro fosse romântico como nós e fizesse uma carta linda com palavras poéticas e um jantar cheio de símbolos à luz da lua para a virada do ano? Seria. Mas não pode ser igualmente maravilhoso verbalizar para o outro que você é a pessoa dos rituais e que adoraria que vocês juntos criassem os rituais de vocês e, além disso, que lindo poder olhar o outro como outro, e perceber que ele não é das cartas e dos mimos mas é da escuta atenta, das palavras de incentivo, da generosidade do afeto…
Reconhecer como o outro demonstra afeto —ainda que não da forma que idealizamos— e aprender a pedir como adulto, nomeando desejos, limites e necessidades, pode ser mais transformador do que esperar que o amor se reinvente magicamente com a mudança do calendário. Férias não são universos paralelos. Mudanças de ano não operam milagres. Às vezes chove em Paris. E tudo bem. O que não é tão simples é seguir esperando sol sem jamais aprender a falar sobre o que nos frustra quando a chuva chega.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP

