A escalada dos conflitos no Oriente Médio desde sábado (28) colocou o agro brasileiro em alerta. Fortemente internacionalizado, o setor deve ser um dos mais afetados pela instabilidade geopolítica, que já provoca reflexos em rotas do comércio internacional e em custos de insumos essenciais para logística e produção.
Uma das maiores preocupações é com relação ao mercado de ureia, principal fertilizante à base de nitrogênio utilizado na agricultura e do qual o Irã é um dos mais importantes fornecedores globais. O composto é muito utilizado em importantes culturas como milho, café, cana-de-açúcar, trigo e pastagens.
No ano passado, o Irã foi o décimo principal exportador de ureia para o Brasil. “Mas uma grande parte dos fertilizantes nitrogenados que a gente compra vem do Catar, de Omã e da Nigéria, que usam o gás natural do Irã para ser produzido”, explica Daniel Vargas, professor de Direito e Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
No ano passado, o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Desse total, 51,7% vieram desses três países: 1,8 milhão de toneladas da Nigéria, 1,2 milhão de toneladas de Omã e 991 mil toneladas do Catar.
“O fertilizante nitrogenado é basicamente gás natural industrializado. Quase 90% do custo da produção [do fertilizante] é energia, ou seja, o gás”, explica Vargas.
Nesta segunda-feira (2), os preços de fertilizantes nitrogenados já subiram no Brasil, acompanhando a alta registrada em outros mercados globais produtores e consumidores, segundo a consultoria Argus.
“Produtores de ureia do Oriente Médio retiraram ofertas de venda do mercado, em meio à escalada das tensões na região, avaliando a disponibilidade do nitrogenado nos estoques e mais clareza sobre a logística”, diz trecho de análise de João Petrini, responsável por precificação de fertilizantes da Argus.
A depender da duração dos conflitos, as restrições ao comércio do insumo podem, além de elevar os preços, dificultar o abastecimento total de ureia para todo o país.
“Neste momento, estamos com a safrinha de milho em torno de três quartos já plantada. Em regra, já aconteceu ou está acontecendo a primeira aplicação de nitrogenados, o que significa que uma parte dos nossos produtores já antecipou a compra desses fertilizantes.”
Apesar disso, neste momento do ciclo da cultura, entre 30% e 50% dos produtores devem estar com custos do insumo ainda em aberto, expostos ao que pode ocorrer no mercado internacional, avalia o professor.
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Alta no petróleo eleva ainda mais os custos para o agro brasileiro
Com quase toda a produção interna transportada por via rodoviária, o agro brasileiro está diretamente exposto ao preço do petróleo, que nesta terça-feira (3) acumulava alta de 15% desde os ataques coordenados entre Israel e Estados Unidos que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã.
Cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo circulam pelo Estreito de Ormuz, que foi fechado pela Guarda Revolucionária do Irã, segundo anúncio feito nesta terça, aumentando a pressão sobre os preços de combustíveis fósseis.
“Mesmo sem uma interrupção imediata da produção, o aumento da incerteza adiciona um prêmio de risco ao barril. O mercado reage rapidamente a qualquer sinal de ameaça às rotas estratégicas de exportação”, diz Cristian Bazaga, CEO da Excel, especializada em gerenciamento de combustível e gestão de frotas.
Com isso, os efeitos sobre os preços de alimentos e consequentemente sobre a inflação de modo geral seriam inevitáveis, também em razão do transporte logístico marinho para a importação de insumos.
A XP Investimentos calcula que um aumento de 10% no preço do barril Brent, utilizado como referência no mercado global, resultaria em um impacto de 0,25 ponto percentual (p.p.) da inflação oficial.
“Assim, sob o cenário de câmbio constante, preços do petróleo Brent ao redor de US$ 70 por barril ao longo do ano implicariam um risco altista de até 0,4 p.p. para o IPCA”, diz relatório da corretora.
Dólar em alta eleva custo de insumos, mas também favorece exportações
Outra fonte de preocupação para o agro é a cotação do dólar, que alcançava R$ 5,28 no pregão desta terça, acumulando alta de 3% em relação à última sexta-feira (27), quando estava cotado a R$ 5,13.
Guerras e conflitos de repercussão global geralmente levam investidores a buscarem posições em dólar americano, considerado mais seguro. “Em regra, o preço das moedas de países em desenvolvimento tende a se desvalorizar diante de uma crise”, diz Vargas, da FGV.
“Isso significa que, por um lado, vamos importar as coisas de fora mais caro, mas, por outro lado, eventualmente podemos exportar e ganhar um pouco mais na venda aqui também.”
Milho é principal produto exportado pelo Brasil para o Irã
Em termos de comércio exterior, o Irã é um importante importador de produtos do agro brasileiro. Em 2025, segundo o MDIC, o país persa comprou do Brasil US$ 1,98 bilhão em cereais, farinhas e preparações; US$ 745,8 milhões em soja; e US$ 189,1 milhões do complexo sucroalcooleiro (açúcar e etanol).
Entre os grãos, o milho é o principal produto exportado pelo Brasil para a região. Em 2025, o Irã foi o principal destino do cereal brasileiro, com cerca de 9 milhões de toneladas importadas, o equivalente a 23% das vendas externas do Brasil.
Vargas, da FGV, explica que, apesar da crise no país do Oriente Médio, o volume de compra de milho não deve ser afetado de maneira significativa. Ele avalia, no entanto, que o aumento nos custos de produção do milho, devido ao encarecimento de fertilizantes e transportes, deva afetar outras cadeias, como a da carne.
“O milho é o principal insumo da ração para frangos e também é essencial para os 20% a 30% do gado de corte brasileiro que passa por períodos de confinamento. Portanto, a alta dos custos no campo acaba sendo repassada para a produção de proteína animal.”
Exportações de carne bovina ficam expostas a riscos
No setor de carne bovina, a grande preocupação é o fechamento do Estreito de Ormuz, diz Frederico Favacho, sócio do Santos Neto Advogados e especialista em contratos internacionais do agro.
O Brasil lidera a produção global de carne halal – abatida e preparada segundo os princípios da lei islâmica – e depende da rota para escoar mais de 28 mil toneladas mensais do produto.
“Os contratos não ficam imediatamente suspensos por conta de força maior ou outra condição, na medida em que os exportadores brasileiros possam ter outras rotas, como, por exemplo, o Mediterrâneo. Só que são rotas mais caras e mais complicadas”, afirma.
Segundo ele, os portos da região permanecem em alerta devido ao cenário de conflito entre os países. “A expectativa é que o Brasil tenha impacto não só nas carnes, mas também na soja e no açúcar que exportamos para a região. Precisaremos observar como os fatos vão se desenvolver nos próximos dias para desenhar decisões estratégicas”, diz Favacho.
O alerta se justifica: as exportações brasileiras de carne bovina para os países árabes fecharam 2025 com alta de 1,91% em relação ao ano anterior, somando US$ 1,79 bilhão, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, que acompanha o comércio com as 22 nações da Liga dos Estados Árabes, abrangendo o Norte da África e o Oriente Médio. Com o resultado, o Brasil registrou o segundo recorde consecutivo de receitas com o bloco.
Ele lembra ainda que o Brasil sempre manteve posição privilegiada no fornecimento de commodities agrícolas ao Irã, mesmo com embargos sobre o país. “Como exportamos alimentos, ficamos fora das restrições comerciais, o que nos colocou em vantagem no mercado internacional. Então, de fato, poderemos sofrer algum impacto nos contratos de exportação, mas é importante observar que este não é o nosso maior mercado. O principal continua sendo a China, seguida pela União Europeia.”
Setor de biocombustíveis pode se beneficiar em meio à crise
Apesar do aumento de custos e da dificuldade logística no transporte de mercadorias, o setor de biocombustíveis brasileiro pode sair beneficiado em meio à crise provocada pelos conflitos no Oriente Médio.
Com a disparada nos preços do petróleo, a competitividade dos biocombustíveis tende a aumentar, elevando os preços do biodiesel, produzido a partir da soja, e do etanol, produzido no Brasil principalmente a partir da cana-de-açúcar, mas cada vez mais também do milho.
“Quem sabe isso pode também ser um fator que alivie em parte a elevação do custo do fertilizante?”, pondera Vargas.
Fonte ==> Gazeta do Povo.com.br

