Desafiando a hegemonia de ultraprocessados – 29/01/2026 – Priscilla Bacalhau

Bandeja com pipoca em saco branco, duas unidades de bolo de chocolate, copo com suco vermelho, tigela com pedaços de frutas variadas e biscoitos quebrados.

Para o bem ou para o mal, a alimentação das famílias brasileiras não é a mesma de décadas atrás.

A disseminação de produtos ultraprocessados vem mudando continuamente a forma como comemos e nos relacionamos com a comida. É em casa que as crianças aprendem primeiro o que faz parte da rotina alimentar e o que não faz. Mas, quando a escola se estabelece como importante espaço de convivência, em que os jovens passam boa parte de seu tempo e onde muitas vezes fazem suas principais refeições, a comida consumida lá contribui para definir hábitos alimentares que podem persistir por toda a vida.

Um estudo de pesquisadoras da USP, publicado neste mês na revista Cadernos de Saúde Pública, traz indícios de associação entre o tipo de alimento ofertado nas escolas e o consumo de ultraprocessados por adolescentes no dia a dia. As autoras mapearam as restrições à venda de ultraprocessados nas escolas das capitais brasileiras e analisaram o consumo alimentar dos jovens por meio da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE.

Apesar de a metodologia usada não permitir concluir que a introdução de normas proibitivas apresentou um efeito causal no padrão alimentar dos adolescentes, o estudo aponta que há uma associação entre o que está sendo comercializado na escola e os hábitos alimentares dos jovens.

As autoras encontraram mais de 50 normas em capitais regulamentando a venda de alimentos e bebidas em cantinas escolares, podendo valer para a rede pública, para a privada ou para ambas.

Os resultados indicam que alunos de escolas cobertas por normativas que restringem a venda de alimentos nas cantinas apresentam redução significativa no consumo de ultraprocessados. Já os de escolas com maior disponibilidade de ultraprocessados apresentam um leve aumento no consumo desses produtos. Portanto, o que os adolescentes veem disponível na escola pode ter influência também no que eles consomem fora da escola.

Desde 2019, data de corte do estudo e da última PeNSE disponível, mais entidades públicas e privadas passaram a promover projetos de lei e normativas locais para regulamentar a venda e a publicidade de alimentos ultraprocessados no ambiente escolar.

Em 2023, o governo federal publicou decreto com orientações para a alimentação saudável nas escolas, tanto das redes públicas como das privadas. Posteriormente, alterou as regras do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), estabelecendo restrições de produtos processados e ultraprocessados no cardápio das escolas públicas. Em 2025, o limite ficou em 15%; neste ano, passa para 10%. O PNAE, contudo, enfrenta desafios no reajuste de valor por aluno, o que dificulta o provimento efetivo de alimentos de qualidade.

As evidências seguem se acumulando sobre a necessidade de avançar em legislações e políticas que promovam alimentação escolar nutritiva e restrinjam a publicidade de ultraprocessados direcionada aos jovens. Já está bem documentado o impacto negativo dos alimentos ultraprocessados na saúde infanto-juvenil, incluindo problemas de desenvolvimento, desnutrição e doenças crônicas.

Quanto antes os hábitos alimentares melhorarem, maior a chance de um futuro saudável.


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Fonte ==> Folha SP

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