É possível esquecer a pessoa perfeita? – 04/03/2026 – Amor Crônico

É possível esquecer a pessoa perfeita? - 04/03/2026 - Amor Crônico

Será que o difícil é esquecer “a pessoa perfeita que coincide com tudo o que você sempre sonhou” ou o difícil mesmo é abrir mão da fantasia de que existe alguém capaz de se encaixar perfeitamente em nossas projeções?

Por que, ainda que você tenha se envolvido profundamente com essa pessoa real e identificado traços que compõem sua lista de qualidades —seu mapa dos sonhos, sua versão 2026 do príncipe ou princesa “meio intelectuais meio de esquerda”— algo na história concreta de vocês fez furo nos contos de fadas pós-moderno. Furo que deixou a luz entrar nas sombras do outro e, sobretudo, nas suas —que desta vez inviabilizaram a continuação do romance.

Ficamos tão seduzidos pela possibilidade de finalmente encontrar alguém que nos poupe dos incômodos da castração —essa experiência estrutural presente em todos os vínculos— que resistimos a aceitar os contornos que o outro, a vida e a própria dinâmica da relação inevitavelmente impõem.

“Conheci o homem dos meus sonhos, e convenhamos: hoje isso tem se tornado cada vez mais raro. Ele é incrivelmente parecido comigo, dos gostos literários às aventuras na natureza. Ele tem tantas qualidades que seus defeitos pareciam irrelevantes”, confessa a leitora. Você já se sentiu assim?

Se sim, provavelmente como ela, assim que algo da realidade se impôs como furo na fantasia, você tentou tamponá-lo orgulhosa de seu movimento romântico sem perceber que esse gesto era altamente autodestrutivo. Questionou seus próprios limites para não limitar aquela que parecia ser sua grande chance de plenitude e redenção.

Evitamos validar nossos contornos, como se reconhecê-los fosse trair o amor. Na mesma toada, nos esquivamos de encarar os limites do outro como possíveis diferenças intransponíveis e preferimos crer que, com flexibilidade, resiliência e amor suficientes, contornaremos o incontornável e ainda seremos plenamente felizes.

Como se desrespeitar e ignorar nossos desejos, necessidades e projetos não deixasse marcas. Como se toda renúncia desmedida não cobrasse mais cedo ou mais tarde, sua conta em forma de ressentimento ou exaustão emocional. O que forçamos a caber no ideal não desaparece: recalca. E o que se recalca retorna como sintoma, explosão ou um vazio ao lado de alguém que parecia perfeito demais para gerar tanto desassossego.

“Como pode um amor tão sublime ser interrompido por questões tão concretas?”, perguntamo-nos ainda entorpecidos pelo encantamento. No caso da leitora a concretude foi clara: Ele, avesso à monogamia. Eu, patologicamente monogâmica. Ele, com uma mudança de cidade iminente. Eu convicta de que minha vida é aqui. Ele deu o término como inevitável…” Mas o ponto final chegou pra ela como ponto de interrogação: valeria flexibilizar valores e projetos para sustentar o sonho de ser feliz com ele?

Será mesmo que essa felicidade seria possível nos arranjos corriqueiros? Ou apenas parecia sedutora demais por apresentar um transbordamento de similaridades rapidamente organizadas como provas de que compartilhavam o mesmo ideal de amor e, ao fazê-lo magicamente, transformavam o ideal em realidade?

Na clínica e nas conversas de amigos recém-náufragos do barco “era perfeito mas…” vejo roteiros bem similares: um quer filhos o outro não; um deseja estabilidade e o outro liberdade constante; um adota uma ética 100% religiosa e o outro é ateu e tantos outros desencontros que insistimos em tratar como ruídos ajustáveis quando, de fato, são diferenças estruturais.

Diferenças que nos devolvem à castração que julgávamos ter suplantado e nos obrigam a investigar: O que é e o que não é negociável? Quais furos me ferem e quais podem ser respiros? Do que não posso abrir mão?

No caso da leitora, se nenhum dos dois está disposto a renunciar ao formato de relação que sustenta sua integridade, abrir mão da fantasia de que um mudará “por amor” é o gesto mais honesto. Forçar a conversão de valores em nome do romance não é prova de maturidade, é semente de mágoa.

“Sigo apaixonada. Cada vez mais convencida que não encontrarei alguém como ele novamente. Talvez nem queira esquecer.” reconhece a leitora.

Percebo que, na suposta declaração de amor ao homem perfeito, há uma confissão ao apego à fantasia de que haverá alguém ideal. É aqui que se dá o ponto nevrálgico dessa dor de amor: dizemos que a causa do sofrimento é a distância do outro quando, na verdade, a dor vem do colapso da esperança de que fantasia e realidade coincidiriam sem restos. O difícil não é só perder alguém. É perder a ilusão de que este amor nos pouparia do limite. Talvez por isso esquecer pareça impossível, porque queremos preservar a sensação rara de ter nos sentido completos.

No entanto, enquanto não tivermos coragem de amar amores incompletos, sendo nós mesmos falhos e faltos, nos esquivaremos sempre da responsabilidade das escolhas, do diálogo e da negociação. Continuaremos esperando fusões mágicas. Continuaremos passando por cima do que dói na busca de alívio para o desamparo. E continuaremos nos ferindo na tentativa de não sentir falta.

E se você tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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