A estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, publicada em dezembro, aponta falhas de seus aliados europeus. O texto é brutal.
Afirma que o “declínio econômico” da Europa é ofuscado pela perspectiva real e ainda mais contundente de um “apagamento civilizacional”. Segundo o documento, os principais problemas do continente incluem “atividades da União Europeia e de outros organismos transnacionais que minam a liberdade política e a soberania, políticas migratórias que estão transformando o continente e criando conflitos, censura à liberdade de expressão e repressão da oposição política, taxas de natalidade em colapso e perda de identidades nacionais e de autoconfiança”. Diz também que os EUA “se oporão a restrições antidemocráticas, impostas por elites, a liberdades fundamentais na Europa, na anglosfera e no restante do mundo democrático, especialmente entre nossos aliados”.
Em suma: “Nosso objetivo deve ser ajudar a Europa a corrigir sua trajetória atual.”
A principal forma pela qual os EUA pretendem fazê-lo é ajudar “partidos europeus patrióticos”. Nenhum líder desse tipo de partido é mais admirado pelo Maga do que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Mas como ele se saiu na promoção da liberdade de expressão e da democracia liberal, de modo mais amplo?
Segundo o respeitado banco de dados V-Dem (Varieties of Democracy), a resposta é: muito mal. O índice de “democracia liberal geral” do país caiu de 0,77 (numa escala até 1) em 2009 para 0,32 em 2024. A Hungria querida pelo Maga é um Estado corrupto e autoritário. Ainda assim, não chega nem perto da Rússia, cujo líder, Vladimir Putin, figura entre os heróis de Donald Trump. Isso não surpreende. Um homem que tentou derrubar uma eleição não pode se dizer, de forma convincente, preocupado com a democracia.
Considere-se então a liberdade de expressão de maneira mais específica. Novamente segundo o V-Dem, muitos países europeus, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, protegem a liberdade de expressão e o que o estudo chama de “fontes alternativas de informação” melhor do que os EUA. Isso em 2024. Alguém imagina que a situação tenha melhorado em 2025, sobretudo diante dos ataques do governo a universidades e à imprensa?
Isso não significa dizer que esteja tudo bem na Europa. Há uma série de preocupações relevantes, incluindo o estado da liberdade de expressão até mesmo no Reino Unido —embora as comparações de Nigel Farage com a Coreia do Norte sejam grotescas. Ainda assim, os medos em relação a esses partidos “patrióticos” também são razoáveis.
A Europa, afinal, tem uma história. Ela mostra com clareza brutal que partidos “patrióticos” —e, de modo mais amplo, o nacionalismo— podem facilmente se transformar em caminhos para a ruína. As duas guerras mundiais ensinaram isso. Ao não conter o “direito” de Adolf Hitler à liberdade de expressão, a Alemanha acabou perdendo 5,5 milhões de soldados e entre 1,1 milhão e 3 milhões de civis na Segunda Guerra Mundial. No mundo todo, as perdas nas duas guerras chegaram a 75 milhões de pessoas.
Hitler também foi um desses “patriotas” aterrorizados pelo que a estratégia americana chama de “apagamento civilizacional”. Em maio de 2025, a Alternativa para a Alemanha (AfD) foi classificada como “extremista de direita” pelo órgão federal alemão de proteção da Constituição. Evidentemente, não é um partido nazista. Mas abriga neonazistas em suas fileiras. Alemães que conhecem sua história deveriam apenas sorrir e dizer: “Por que não? Afinal, a liberdade de expressão é sagrada”? É preciso muita arrogância americana para propagar tamanho disparate. Infelizmente, origens e ideias semelhantes podem ser vistas em outros partidos de direita em ascensão na Europa.
Igualmente insensato é o ataque à UE. Também aqui há muitas confusões. Estados nacionais não são características políticas naturais da Europa. Foram criados, muitos deles há pouco tempo (assim como os próprios EUA foram criados). E, em grande medida, surgiram por meio de derramamento de sangue. Essas identidades imaginadas levaram depois a mais desastres.
A UE foi criada justamente para administrar e, idealmente, eliminar qualquer chance de repetição. A ideia era que cooperação e mercados abertos seriam melhores do que a guerra. Para a estratégia americana, isso é uma tolice.
Há, porém, outra razão poderosa para preservar a UE. Como disse há muito tempo o belga Paul-Henri Spaak, um dos pais fundadores do bloco: “Há apenas dois tipos de países na Europa: os pequenos países… e os países que são pequenos, mas ainda não sabem que são”. Em um mundo dominado por superpotências e com um continente ameaçado por uma Rússia armada nuclearmente, a escolha é unir-se ou tornar-se vítima. Não há dúvida do que Trump deseja. Mas por que os europeus deveriam querer o mesmo?
Chegamos, assim, ao medo de um iminente “apagamento civilizacional”. Ele está enraizado em uma política identitária mais extrema do que a da esquerda. As identidades em questão são nacionais, raciais e chauvinistas. O temor se liga à ideia da “Grande Substituição”, abraçada por muitos no Maga. Ser “apagado”, nesse sentido, é tornar-se menos “branco”, menos “cristão” e menos numeroso. O vice-presidente J.D. Vance, embora casado com uma mulher indiana, parece compartilhar essa visão em uma versão intelectualizada. É também, infelizmente, o rumo possível do futuro do Partido Republicano.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
Se for assim, o que a estratégia de segurança nacional faz é projetar sobre a Europa aquilo que move a própria administração: um ódio ardente à forma como os EUA vêm mudando, demográfica e culturalmente.
Concordo que os Estados precisam exercer controle sobre suas fronteiras: seus valores podem ser universais, mas a cidadania não pode estar aberta a todos no mundo. Ainda assim, democracias liberais podem ser faróis. O que emergiu de maneira dolorosa (e muitas vezes hipócrita) ao longo de séculos é, de fato, uma grande civilização. Ela se baseia nos ideais de liberdade individual, igualdade de direitos dos cidadãos, Estado de direito, busca do conhecimento e governos eleitos de forma justa. Nada disso se enraíza em raça ou religião. Mas todo cidadão de uma democracia liberal precisa aceitar esses valores.
Em suma, esta administração deseja apagar a própria república, em seu 250º ano. É por isso que a Europa é sua inimiga. E é também por isso que a Europa precisa se defender.
Fonte ==> Folha SP

