Com sua retórica extremista e ameaças de rei louco, Donald Trump faz toda crise parecer um momento de fim de império, um ponto de ruptura para o poder americano no mundo. A guerra no Irã é o exemplo mais recente, onde a sombra do apocalipse imperial paira sobre suas tentativas desajeitadas de resolver a crise criada por sua aposta militar.
Talvez os Estados Unidos de Trump sejam o Reino Unido na crise de Suez de 1956, descobrindo sua própria impotência, percebendo que o sol se pôs sobre seu império. Talvez o próprio Trump seja o rei Creso da Lídia, invadindo a Pérsia encorajado por um oráculo e descobrindo tarde demais que o império profetizado a ser destruído pela invasão era o seu próprio.
Mas também é possível que a guerra no Irã seja, na verdade, menos uma ruptura final do que um retorno, de um jeito trumpiano caótico, a padrões familiares da política externa americana.
Afinal, é realmente uma experiência tão inédita para os EUA tentar e fracassar em impor sua vontade ao Oriente Médio ou ao mundo islâmico em geral? Ver nossa busca por algum grande acordo dar lugar a conflitos entre sunitas e xiitas, israelenses e árabes? Ver o poder militar americano ter sucesso tático mesmo enquanto o cenário estratégico se deteriora?
É claro que não: essa é a história familiar do século 21, um longo histórico de fracassos americanos que remonta ao colapso das negociações de Camp David entre Ehud Barak e Yasser Arafat em 2000.
A lista de fracassos inclui os esforços malogrados de múltiplos presidentes para reviver o processo de paz israelo-palestino; o desastre da invasão do Iraque por George W. Bush e a ascensão do Estado Islâmico; a decisão imprudente de Barack Obama de derrubar o ditador da Líbia durante a Primavera Árabe; e o fracasso consistente de nossa política iraniana, tanto linha-dura quanto conciliatória, em domar ou derrubar o regime teocrático. Ampliando o foco para a Ásia Central, isso inclui também nossas duas décadas de guerra no Afeganistão.
Em meio a esse legado de cinzas, o primeiro mandato de Trump se destacou como um período em que ambições mais modestas renderam algum sucesso —a derrota do Estado Islâmico, golpes duros contra o Irã que nunca escalaram para guerra e as ambições baixas, mas sólidas, dos Acordos de Abraão.
Já sua aventura iraniana é um retorno às grandes ambições de seus antecessores presidenciais. No passado, essas ambições fracassaram em remodelar a região, mas Trump aparentemente esperava que desta vez fosse diferente —que seus antecessores não tiveram a crueldade necessária, e que uma união do poder militar americano e israelense pudesse alcançar uma transformação rápida vinda de cima.
Até agora, infelizmente, desta vez não parece ser diferente. Mas então a questão é se este episódio de fracasso realmente se provará muito mais debilitante do que os anteriores —pior do que nossas intervenções militares no Iraque, na Líbia ou no Afeganistão, ruim o suficiente para justificar comparações com o Reino Unido em Suez ou para falar em colapso imperial.
Não é impossível defender esse argumento. Pode-se dizer que o desastre da Guerra do Iraque foi recuperável porque a América não enfrentava desafiantes sérios entre as grandes potências, enquanto um fiasco agora poderia entregar o futuro à China e à Rússia.
Pode-se argumentar que a encenação de homem louco de Trump está destruindo a credibilidade americana de uma forma que excede em muito os custos do unilateralismo de Bush ou da senilidade de Joe Biden. E pode-se notar que esta crise ainda não acabou, e a marca particular de decadência imperial de Trump ainda tem anos para piorar as coisas.
Ao mesmo tempo, algumas ressalvas importantes são necessárias. Uma guerra na qual destruímos com sucesso grande parte do poderio militar iraniano dificilmente se assemelha, digamos, ao fiasco francês em Dien Bien Phu ou a uma catástrofe de Napoleão em retirada de Moscou. Tampouco é realmente uma situação como a crise de Suez, na qual a nova superpotência americana puxou o tapete e revelou a impotência britânica.
Lá Fora
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Nenhuma superpotência sucessora está impedindo Trump de escalar: em vez disso, a maior restrição à capacidade de guerra americana é simplesmente a opinião pública americana, que compreensivelmente prefere não sofrer baixas ou ver os preços da gasolina dispararem por retornos duvidosos.
Enquanto isso, nossos vários aliados, europeus e árabes, podem se distanciar ainda mais de nossa influência, mas é improvável que comecem a se alinhar com um Irã cujo exército acabou de ser destroçado (mesmo que o regime permaneça resiliente) ou com uma Rússia afundada em seu próprio atoleiro interminável na Ucrânia.
E apesar de toda a potência da ameaça iraniana aos mercados globais, nossa economia está muito mais protegida contra interrupções energéticas do que estava uma década atrás, quanto mais nos anos 1970.
Claramente, uma guerra malsucedida entrega novas oportunidades à China, deixa o Irã com uma arma econômica e um caminho para a nuclearização e distrai nossos líderes do grande desafio da inteligência artificial.
Mas se uma trégua insatisfatória esmagar certos tipos de arrogância, se nos forçar a voltar à postura do Trump 1.0 de abordar o Oriente Médio como um reino de problemas a serem administrados, mas não resolvidos permanentemente —bem, então podemos esperar nos sair um pouco melhor do que o rei Creso e ver a queda de nosso império adiada.
Fonte ==> Folha SP

