A montagem “O Papel de Parede Amarelo e Eu”, protagonizada por Gabriela Duarte em seu audacioso primeiro solo teatral, reinventa o conto clássico de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) escrito em 1892 como uma experiência cênica visceral que funde teatro físico, performance e instalação. A atriz, conhecida por sua trajetória na televisão, mergulha no papel da protagonista com uma entrega que vai além da interpretação: seu corpo torna-se o território onde se desenrola a batalha entre sanidade e opressão, ecoando a própria jornada da artista ao se reinventar no palco.
O texto original, marco do feminismo do século 19, ganha nova potência nessa adaptação. A narrativa da mulher confinada e diagnosticada como “histérica” transforma-se em um mergulho sensorial na mente em colapso. O cenário minimalista – dominado pelo papel de parede que dá título à peça – não é pano de fundo, mas personagem ativo: o papel ganha vida e invade o espaço cênico praticamente submergindo e sufocando aos poucos a mulher em cena.
Luzes oscilantes e estroboscópicas criam uma atmosfera de labirinto psicológico formando sombras que se multiplicam como vozes internas. Não há trilha sonora, por decisão das diretoras Alessandra Maestrini e Denise Stoklos, apenas a própria voz da personagem em off que fala com ela mesma, ampliando a sensação de claustrofobia, enquanto Gabriela se contorce e se dissolve nesse espaço, alternando entre a fragilidade e fúria contida. Falas são interrompidas por silêncios eloquentes e gestos repetitivos tornam-se rituais de loucura.
A genialidade da adaptação está em como ela traduz a escrita introspectiva do diário original para uma linguagem cênica que privilegia a subjetividade radical e ainda traz uma boa dose de humor, elemento um tanto inesperado mas que funciona perfeitamente no palco.
No clímax, quando a protagonista finalmente “liberta” a mulher imaginária presa no papel de parede, a cena ressoa como metáfora contemporânea: um ato simultaneamente de desespero e libertação que questiona quantas mulheres ainda hoje vivem oprimidas por desafiar uma cultura patriarcal que se deteriora, mas não morre, persistindo em formas absurdas e hediondas.
Mais que uma transposição, “O Papel de Parede Amarelo e Eu” é um diálogo urgente entre séculos. Gabriela Duarte não apenas honra o texto de Gilman, mas o expande, usando seu corpo como medium para falar de confinamentos antigos e modernos. A peça confirma que o grito sufocado da protagonista de 1892 ainda ecoa – e que arrancar o papel de parede, camada por camada, segue sendo ato político necessário.
Três perguntas para …
…Gabriela Duarte
O conto original de Charlotte Perkins Gilman aborda a opressão à mulher de forma intensa e dramática, já a peça tem um boa dose de humor. Como chegaram à essa escolha cênica para a montagem do espetáculo?
A peça começou a ser construída do zero, do zero mesmo. Ela saiu do livro, desse conto literário que a gente conhece, da Charlotte Perkins Gilman, para começar a ser construída na casa da Denise [Stoklos]. E já nesse momento o conceito do espetáculo era de que fosse algo leve. Não queríamos enveredar pelo caminho trágico, pelo caminho do pessimismo, que não tem saída. Isso nunca foi uma opção. O certo é que essa coisa do humor e da leveza é uma concepção da Alessandra [Maestrini], porém me surpreendeu perceber que a Denise também tem essa visão. Claro que nas peças da Denise, a gente já vê que o Teatro Essencial passa a mensagem sempre sem rigidez. O ator não é rígido, ele está meio que rindo sempre. De alguma forma, debochando, não no mau sentido, mas rindo da situação. Acho que essa é a melhor forma da mensagem chegar ao espectador. Para mim também é um alívio fazer uma peça falando de um tema denso, porém de uma forma mais leve e divertida, mais física e mais atual, com certeza.
Observando a jornada da mulher em ‘O Papel de Parede Amarelo’, você vê algum paralelo entre a opressão enfrentada por ela, confinada e desvalorizada, e as pressões enfrentadas por Maria Eduarda, da novela “Por Amor”, mesmo em contextos diferentes?
Olha, eu identifico a personagem do “Papel de Parede Amarelo” com tantas mulheres que eu já vivi na ficção e na mulher que eu sou hoje. A Gabriela mesmo, sabe? Com 50 anos, já vivi bastante e tenho muita coisa para viver ainda. Vou citar alguns exemplos. Eduarda, com certeza. Chiquinha Gonzaga, não tem nem o que falar, né. A última personagem que eu fiz na televisão, a Julieta Bittencourt de “Orgulho e Paixão”, que também era uma mulher do século passado oprimida pelo marido, e quando ele morre, pensam que que ela recebeu tudo como herança do marido. Mas aos poucos descobre-se que aquele império foi construído por ela, por isso ficou conhecida como a “rainha do café”. O marido era um alcoólatra incompetente que batia nela e no filho.
Então são muitas as mulheres e eu acho que por isso o público feminino tem uma identificação tão imediata com a peça. Porém, eu espero, de verdade, que os homens não se sintam excluídos dessa conversa, pelo contrário. Eu desejo que eles se sintam convidados a olhar para essa realidade das mulheres de uma forma carinhosa e sem prejulgamentos. Não quero polêmicas, quero que todo mundo seja feliz e se divirta assistindo a essa peça maravilhosa que eu estou super feliz de fazer.
O monólogo exige uma entrega física e emocional muito grande. Como você lida com a intensidade da personagem a cada apresentação?
É uma coisa nova na minha vida isso de se expressar pelo corpo. O desafio é enorme, mas tem sido tão maravilhoso e tão divertido. É uma etapa muito interessante da minha vida. Acabamos de estrear – no dia 28 de março – e o fim de semana tá aí, eu já tô louca para voltar para o palco e colocar essa peça para o público se divertir e curtir. Estou numa fase muito leve e muito agradecida às meninas, a Denise e a Ale, e toda essa equipe muito incrível que faz parte desse projeto.
Teatro Estúdio – r. Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Sex., 21h. Sáb., 20h. Dom., 18h. Até 1º/6. Duração: 60 minutos. A partir de R$ 20 em sympla.com.br
Fonte ==> Folha SP