Jackson Hole expõe desafios à frente para bancos centrais – 24/08/2025 – Mercado

A imagem mostra três homens em um ambiente interno, possivelmente um museu ou uma sala de exposições. Um dos homens, com cabelo grisalho e terno escuro, está caminhando em direção a uma vitrine que contém um urso empalhado. Ao fundo, há um homem com uma camisa laranja e outro com um terno azul. As paredes são de pedra e há uma decoração rústica ao redor.

O encontro anual do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) nas Montanhas Rochosas costuma ser um momento em que banqueiros centrais e seus colegas acadêmicos se reúnem para debater alguns temas econômicos complexos e, depois, fazer trilhas à sombra do Grand Teton.

Neste ano, porém, o simpósio de Jackson Hole, encerrado no sábado, foi em vários momentos tenso e deixou claro quão difícil é o caminho à frente para o banco central americano.

Na sexta-feira (22), o presidente do Fed, Jerome Powell, usou seu discurso de abertura para sinalizar que a instituição pode cortar juros já na próxima reunião de política monetária, em setembro. Mas há divisões claras entre os dirigentes sobre se essa é a decisão correta. O próprio Powell reconheceu que a economia colocou os diretores da instituição em uma “situação desafiadora”.

Os dirigentes lidam com uma inflação ainda acima da meta de 2% —e em alta— e um mercado de trabalho que começa a dar sinais de enfraquecimento. Essa combinação, que empurra a política em direções opostas, é agravada pela incerteza sobre a evolução de cada um desses fatores nos próximos meses.

“Estamos enfrentando correntes cruzadas em um ambiente difícil”, disse Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago, em entrevista nos bastidores da conferência. “Sempre digo que o trabalho mais difícil do banco central é acertar o momento certo nas fases de transição.”

Pressões políticas

A conferência também evidenciou as pressões políticas que pesam sobre o Fed —e que devem se intensificar nos próximos meses, à medida que o presidente Donald Trump busca imprimir sua marca na instituição federal mais proeminente que até agora escapou de suas tentativas de remodelação.

Enquanto Powell discursava na manhã de sexta-feira, Trump afirmou que demitiria a diretora do Fed Lisa Cook se ela não renunciasse, após acusações de fraude hipotecária. Foi a mais recente tentativa da Casa Branca de pressionar o banco central em várias frentes, parte da ofensiva de Trump por juros mais baixos.

A segurança do evento estava visivelmente reforçada em relação a anos anteriores. Policiais do Fed, da Polícia do Parque Nacional e do xerife do condado de Teton, alguns em trajes militares e armados, circularam constantemente.

Mais cedo, na sexta-feira, agentes chegaram a retirar James Fishback, apoiador de Trump e crítico recorrente do Fed, após ele confrontar Lisa Cook no saguão do hotel, gritando perguntas sobre as acusações de fraude.

Caminho dos juros

No que provavelmente foi seu último discurso em Jackson Hole como presidente do Fed, Powell detalhou sinais contraditórios da economia.

Segundo ele, já é visível o impacto das tarifas sobre os preços, mas ainda há dúvidas se isso reacenderá a inflação de forma persistente. O mercado de trabalho, com queda tanto da demanda quanto da oferta de trabalhadores, foi classificado como “curioso”.

Mesmo com essas incertezas, Powell abriu a porta para um corte de juros na reunião de 16 e 17 de setembro. O tom, porém, foi menos enfático do que no simpósio do ano passado, quando havia consenso mais amplo em favor de cortes.

Dados recentes mostram a inflação estacionada acima da meta de 2%, com sinais de que as pressões de preços se espalham para bens e serviços não diretamente afetados pelas tarifas. Ao mesmo tempo, embora as contratações tenham desacelerado no verão, indicadores como a baixa taxa de desemprego sugerem maior resiliência do mercado de trabalho.

A falta de clareza sobre a trajetória da economia alimenta divergências internas. Dois diretores já votaram contra a decisão do Fed em julho, quando não houve corte. Caso a redução ocorra em setembro, é possível que surjam dissensos na direção oposta.

Essas disputas podem se ampliar nos próximos meses, com Trump indicando novos membros para vagas no Fed e com o fim do mandato de Powell em maio.

Sob pressão

As tensões ocorrem em meio ao escrutínio crescente da Casa Branca. O tema permeou conversas durante refeições e intervalos, ainda que pouco mencionado nas sessões oficiais.

Karen Dynan, professora de economia em Harvard e frequentadora assídua do encontro, diz não se surpreender com a cautela dos banqueiros centrais em evitar discussões políticas. Mas ressalta que o simpósio deu exemplo de como grandes questões econômicas devem ser tratadas.

“Este ano é particularmente relevante termos vários trabalhos baseados em boa economia, feitos por especialistas de peso”, afirma. “Não são problemas que se resolvem com intuição ou ouvindo apenas um círculo restrito —é preciso esse tipo de expertise.”

Novo arcabouço

Um dos pontos menos comentados foi o novo arcabouço apresentado por Powell em seu discurso.

O documento, fruto de meses de revisão do modelo de 2020, vai orientar a atuação do Fed em suas metas de inflação e emprego. A estratégia elimina parte da linguagem voltada ao desafio pré-pandemia da inflação persistentemente baixa.

“É um retorno ao básico, que reforça o foco do Fed em seus mandatos de máximo emprego e estabilidade de preços”, disse Carolin Pflueger, professora associada da Universidade de Chicago.

Segundo ela, Powell enfatizou que seu trabalho é lidar com inflação e desemprego. “E isso só pode ser alcançado com um Fed independente.”

Impacto global

A valorização da independência do Fed ficou clara quando Powell foi aplaudido de pé por economistas e autoridades estrangeiras após seu discurso —não pela primeira vez neste ano.

Para eles, a independência do banco central não é apenas uma questão de princípio, mas de prática: as decisões em Washington inevitavelmente têm efeitos globais.

O euro, por exemplo, se fortaleceu 1% frente ao dólar depois do discurso, adicionando riscos de queda a uma inflação já projetada em 1,6% na zona do euro no próximo ano.

“Se houver corte de juros refletindo crescimento mais lento nos EUA, provavelmente isso também significará desaceleração para eles, dado o peso da economia americana”, diz Maurice Obstfeld, pesquisador do Peterson Institute for International Economics e ex-economista-chefe do FMI.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *