O investimento estrangeiro está mudando – 24/01/2026 – Ana Paula Vescovi

Ilustração de @amarildocharges com fundo azul intenso. No centro, há um mapa-múndi em perspectiva, com os continentes destacados em tom dourado. Sobre o mapa, uma mão humana entra pela direita da imagem e posiciona uma pequena fábrica industrial, simbolizando a instalação de investimentos produtivos em diferentes regiões do mundo. A manga da mão traz a sigla “FDI”, que significa investimento estrangeiro direto.   Ao redor do mapa, flutuam ícones tridimensionais que representam setores estratégicos da economia global: um carro elétrico amarelo com um cabo de energia, uma bateria automotiva, um chip eletrônico, cristais azuis simbolizando minerais críticos, uma turbina eólica, um painel solar, servidores de dados com o símbolo de inteligência artificial e uma lâmpada acesa representando inovação. Há também pilhas de moedas douradas distribuídas em diferentes pontos, sugerindo fluxo de capital e investimentos internacionais.   A composição transmite a ideia de direcionamento estratégico do capital global para áreas como tecnologia, energia limpa, indústria avançada e inteligência artificial, em escala mundial.

Durante décadas, o IED (Investimento Estrangeiro Direto, FDI, na sigla em inglês) foi visto como uma consequência quase automática do crescimento econômico: capital seguia mercados promissores, mão de obra abundante e custos competitivos. Esse mundo está ficando para trás.

Evidências acumuladas nos últimos anos mostram que o IED voltou a ser um instrumento ativo de transformação estrutural, capaz de moldar cadeias produtivas, deslocar centros industriais e redefinir a geografia econômica.

Um amplo estudo do McKinsey Global Institute (MGI), “The FDI shake-up: how foreign direct investment today may shape industry and trade tomorrow”, analisa cerca de 200 mil anúncios de investimentos greenfield no mundo desde 2015 e aponta uma mudança relevante: o investimento produtivo internacional se reduz em número de projetos, embora com valores mais altos, tornou-se mais concentrado setorial e geograficamente, mais rápido em execução e claramente mais estratégico.

Desde 2022, cerca de 75% dos anúncios globais de IED têm se direcionado a setores “formadores do futuro”: semicondutores, infraestrutura de inteligência artificial (data centers), baterias, veículos elétricos, energia e minerais críticos.

Antes da pandemia, esse percentual era pouco superior à metade. Em paralelo, investimentos em manufatura tradicional e serviços convencionais perderam espaço; tendência que também aparece em levantamentos recentes da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) sobre investimento produtivo global.

Essa transformação não é apenas setorial; ela é também geopolítica. O estudo mostra que o chamado “distanciamento geopolítico” do IED em caindo a uma velocidade superior à do comércio internacional desde 2017.

Em outras palavras, empresas continuam investindo fora de seus países, mas cada vez mais entre parceiros considerados confiáveis do ponto de vista político, regulatório e estratégico. Os fluxos entre economias avançadas cresceram, especialmente em direção aos Estados Unidos, enquanto o investimento direto dessas economias na China recuou de forma expressiva.

Outro traço marcante é o tamanho dos projetos. Os chamados “megadeals”, ou investimentos acima de US$ 1 bilhão, representam apenas cerca de 1% do número de operações, mas já concentram aproximadamente metade do valor total anunciado de IED.

São fábricas de semicondutores, gigafábricas de baterias, grandes projetos de energia e data centers que exigem volumes inéditos de capital, tecnologia e coordenação institucional. Trata-se de setores com dinâmicas de “the winner takes most”, nos quais escala, financiamento e rapidez de execução fazem toda a diferença.

Embora esses projetos concentrem volumes expressivos de capital, análises mais recentes do próprio MGI e da Agência Internacional de Energia chamam a atenção para o altíssimo valor dos projetos de infraestrutura digital (data centers) e da sua forte dependência de energia barata, estável e disponível em larga escala.

Em alguns mercados, cresce o risco de excesso de capacidade e de retornos abaixo do prometido, especialmente quando decisões de investimento antecipam ganhos que dependem de avanços tecnológicos ainda incertos.

Essas tendências têm implicações profundas para os países, mas também para o sistema financeiro. Bancos, especialmente em economias emergentes, não podem mais analisar o IED apenas como uma variável externa ao crédito doméstico. Ele passou a funcionar como um indicador avançado de onde estarão o crescimento, os riscos e as oportunidades de financiamento nos próximos anos.

Para as instituições financeiras, o desafio é duplo. De um lado, os projetos associados a esse novo ciclo de IED são maiores, mais concentrados e mais sensíveis a decisões regulatórias, ambientais e geopolíticas.

Isso exige estruturas de financiamento mais sofisticadas, maior uso de project finance e compartilhamento de riscos com bancos de desenvolvimento e agências multilaterais, além de avaliações de risco que vão muito além dos indicadores financeiros tradicionais, um ponto recorrente em análises recentes do BIS (Bank of International Settlements) sobre a alocação de capital nesses setores.

De outro, abre-se uma oportunidade relevante para instituições capazes de atuar como orquestradoras de capital, não apenas como fornecedoras de crédito. Esses projetos demandam hedge cambial e de commodities, estruturação de garantias, financiamento de longo prazo, coordenação com políticas públicas e, cada vez mais, soluções ligadas à transição energética e à infraestrutura digital.

No caso brasileiro, o diagnóstico é realista. O país dificilmente será um polo global de semicondutores ou de grandes data centers hyperscale. Ainda assim, possui ativos estratégicos relevantes —tais como energia renovável em escala, minerais críticos, base industrial diversificada e um grande mercado interno— que o colocam como um conector importante em cadeias globais selecionadas.

Iniciativas recentes como o Redata sinalizam uma tentativa de inserção nessa nova geografia do investimento em infraestrutura digital. O desafio, no entanto, está no desenho. Tais projetos exigem previsibilidade regulatória, coordenação com o setor elétrico e clareza institucional. Mas não se sustentam a longo prazo quando dependem de subsídios fiscais permanentes ou de transferência excessiva de risco para o setor público.

A experiência internacional sugere que políticas bem-sucedidas são aquelas que reduzem ineficiências estruturais e melhoram o ambiente de negócios, sem substituir o julgamento econômico do investidor nem antecipar retornos que o próprio mercado ainda não comprovou.

A principal lição é que o IED deixou de ser um simples reflexo do crescimento para se tornar um vetor de escolha estratégica, tanto para países quanto para empresas e bancos.

Ignorar essa transformação é correr o risco de ficar preso a setores maduros e ciclos cada vez mais curtos. Compreendê-la é antecipar onde estará a economia de amanhã.



Fonte ==> Folha SP

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