O soldado, o espião e a Justiça – 17/01/2026 – Candido Bracher

A ilustração de Luciano Salles, publicada na Folha de São Paulo no dia 18 de janeiro de 2026, mostra um amontoado de livros fora de ordem, um tanto bagunçado. Entre tantos livros, no meio deles, há duas facas, um telefone antigo. Toda ilustração é azul. A excessão, em vermelho, são dois marcadores de páginas e uma folha solta ali no meio dos livros

Revi recentemente o ótimo “O Oficial e o Espião” (Prime Video), filme de Roman Polanski que trata dos eventos ocorridos na França na virada do século 20 que passaram à história como o “Caso Dreyfus”. A riqueza e a universalidade de seus aspectos políticos e sociais fazem-me pensar que vale a pena recontar essa história; talvez haja nela ensinamentos úteis para os nossos dias.

Em 1894, o tribunal militar francês condenou por traição o capitão Alfred Dreyfus em julgamento secreto. A condenação baseou-se em uma folha de papel —que se tornou conhecida como “borderô”— recuperada de uma cesta de lixo na embaixada alemã em Paris que fazia referência a documentos secretos do Exército francês (o serviço de contraespionagem francês tinha como informante uma funcionária de limpeza da embaixada).

Três dos cinco grafólogos consultados julgaram reconhecer a letra de Dreyfus no borderô, o que levou à sua condenação e ao degredo na Ilha do Diabo, um rochedo isolado na costa da Guiana, onde ele passaria quase cinco anos.

Em 5 de janeiro de 1895, no pátio da Escola Militar e diante do batalhão formado, dá-se a cerimônia da degradação do capitão. A impactante cena de abertura do filme de Polanski retrata o oficial incumbido da função arrancando as divisas e os botões da farda e partindo o sabre sobre o joelho, diante de um lívido Dreyfus. Uma turba enfurecida acompanha a suprema humilhação por detrás das grades do pátio.

Para compreender tamanha indignação, é preciso lembrar que a França nessa época ainda se achava ressentida e humilhada pela traumática derrota para a Prússia em 1870. A Alemanha era obsessivamente vista como a grande inimiga, e toda a lógica militar baseava-se na hipótese de uma nova guerra (que efetivamente ocorreria 20 anos mais tarde). A espionagem alemã, por sua vez, era tida como onipresente.

Nesse contexto, Dreyfus, um oficial judeu assimilado, poliglota e alsaciano (região que a França perdera para a Alemanha em 1870), era o suspeito perfeito.

Abro um parêntese para me referir à questão do antissemitismo no episódio: ele se encontrava amplamente difundido na sociedade francesa da época e constitui o núcleo simbólico a partir do qual a suspeita contra Dreyfus se formou, sem o qual ela não teria existido nem poderia ser compreendida. Isto dito —e sem minimizar esse fator—, pretendo concentrar a atenção no funcionamento das instituições, quando a injustiça passa a ser defendida em nome de “razões de Estado”.

Após a condenação, o coronel Piquart, chefe da contraespionagem, reúne evidências que provam a inocência de Dreyfus e apontam um novo culpado; o major Esterhazy. A Justiça Militar francesa fecha-se em copas contra o reexame das evidências. Para tanto, utiliza recursos como documentos falsificados e julgamentos sumários a portas fechadas, resultando na absolvição de Esterhazy. Não me aprofundarei aqui nesses fatos, que, para quem tiver interesse, estão muito bem descritos no filme.

É nesse momento —quando o sistema de Justiça passa a ter como prioridade a sua proteção corporativista, em detrimento da busca da verdade— que se apresenta como divisor de águas o documento “J’accuse” (eu acuso), sem o qual o caso Dreyfus jamais teria adquirido notoriedade.

Émile Zola, já escritor célebre, simpatizara com a causa “Dreyfusard” e, após certa resistência inicial, manifestara-se em uma ou outra ocasião, sem produzir qualquer resultado que não o de irritar e reforçar o aguerrimento do “establishment” francês.

Em 13 de janeiro de 1898, faz publicar no jornal L’Aurore o seu manifesto “J’accuse”, com o qual inverte totalmente a lógica de atuação e mesmo o objeto da cruzada “Dreyfusard”.

Em lugar de concentrar-se em provar a inocência de Dreyfus, Zola desloca o foco para a culpa dos militares envolvidos e para os vícios de uma Justiça Militar corporativista e antissemita.

No documento, após acusar frontal e formalmente diversas lideranças do Exército, nomeando a cada um individualmente e aos grafólogos envolvidos na questão, Zola conclui com uma espécie de xeque-mate jurídico e político: afirma estar ciente de que, ao fazer as acusações, está sujeito a ser processado por difamação, com o que obriga, na prática, o Exército a processá-lo. Com isso, a questão deixa o sigilo dos tribunais militares e ganha as ruas.

Seria muito bom poder concluir dizendo que o processo foi reaberto, Dreyfus foi absolvido, e todos viveram felizes para sempre. Mas, infelizmente, não é assim que se dão os processos de enfrentamento de disfunções institucionais. Zola é condenado e exila-se na Inglaterra.

O que Zola alcança com seu manifesto não é a produção de novas provas nem a absolvição de Dreyfus, mas a derrubada da possibilidade de encerramento do caso.

Antes de Zola, o caso Dreyfus era um dossiê militar protegido pelo segredo, sustentado por “razões de Estado” e encerrado institucionalmente. Através de Zola, ele se torna um escândalo público permanente, impossível de ser arquivado, acompanhado pela imprensa internacional e politicamente tóxico para qualquer governo.

Essa mudança resulta na prisão e no suicídio de Henry, o oficial que forjou provas, na reabilitação parcial de Dreyfus em 1899 e na sua absolvição plena apenas em 1906, mesmo ano em que Piquart torna-se ministro da Guerra.

Em resumo, o “J’accuse” não promove diretamente a Justiça; impede o esquecimento. Ao impedi-lo, força o Estado a revisitar indefinidamente uma decisão injusta, até que a mentira se torne insustentável. Não há como exagerar o papel da imprensa livre no episódio; ao publicar o manifesto de Zola, L’Aurore rompeu o isolamento deliberado do processo e forçou o poder político e judicial a se confrontar com a opinião pública.

Nos últimos anos, o caso Dreyfus tem sido invocado de maneira imprópria, para contestar decisões jurídicas específicas, como se toda crítica institucional implicasse a negação da legitimidade de seus resultados.

O paralelo que interessa aqui não se refere à culpa ou à inocência de réus contemporâneos, mas à forma como instituições reagem quando sua lisura e autoridade são contestadas com propriedade. Reconto esse episódio não para discutir o passado francês, mas por me parecer um exemplo eloquente de como sociedades reagem ao risco de ver seus sistemas de Justiça afastarem-se de sua razão de ser.



Fonte ==> Folha SP

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