Os riscos de uma cultura que entende submissão como afeto – 11/03/2026 – Amor Crônico

A imagem mostra uma mulher sorridente, vestindo uma blusa roxa e uma saia amarela com flores. Ela está segurando um ferro de passar e olhando para o reflexo dele. Ao fundo, há uma lavanderia com uma superfície vermelha. A mulher parece estar satisfeita e feliz.

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é uma daquelas máximas que nos aliviaríamos de nomear como datada, posto que reforça uma postura autoritária, agressiva, silenciadora. Infelizmente, em 2026 a vemos não só revalidada por líderes mundiais como repaginada perigosamente nas relações pessoais: “manda quem pode, obedece quem tem amor”.

É o que revela a pesquisa da King’s College em parceria com o Ipsos que ouviu mais de 23 mil pessoas em 29 países, incluindo o Brasil. O dado que ganhou destaque mostra que 1 a cada 3 homens da geração Z (entre 17 e 31 anos) diz que a mulher deve sempre obedecer o marido e que o homem deve ter a palavra final nas grandes decisões da casa. E 1 a cada 4 afirma ainda que a mulher não deve parecer muito independente.

Mas há dados menos discutidos e igualmente inquietantes: 1 a cada 5 mulheres da mesma geração também diz que a esposa deve obedecer o marido e que este deve ter a palavra final, e 1 a cada 6 concorda que não devem parecer muito independentes pois isso pode prejudicar sua vida amorosa. São homens e mulheres que traduzem silenciamento, submissão e apagamento de desejos como provas de amor. Que amor é esse que se constrói destruindo a possibilidade de divergências?

No coração dessas crenças há uma raiz comum: a angústia ante a própria impotência num mundo que já não nos dá caminhos ou respostas prontas. Não só não há mais a ilusão de que seguindo a estrada dos tijolos dourados chegaremos ao “felizes para sempre” como, pior, há agora a experiência presente de uma vida cada vez mais ansiosa, deprimida, insegura e solitária —incômodos vividos como fracasso numa cultura que premia discursos de certeza, potência e controle.

Voltar a associar amor com obediência é resgatar a fantasia de que há alguém que sabe —e, ao assumir o suposto saber, suspende o peso da incerteza. A psicanálise reconhece bem esse movimento: regredir a estruturas hierárquicas rígidas pode funcionar como defesa contra o desamparo.

Do lado dos homens, a necessidade de ser obedecido não revela força e sim fragilidade. O homem que impõe sua verdade pelo apagamento do outro o faz para não encarar o embaçado de si mesmo —embaçado este que compõe todos nós e é sinônimo de humanidade e não de fracasso. Mas para quem não suporta essa fragilidade, uma saída possível é projetá-la: a mulher torna-se depositária da impotência que ele não consegue reconhecer em si mesmo.

É nesse solo que a machosfera cresce ao oferecer uma narrativa simples para dores complexas: em vez de acolher e elaborar perdas, fragilidades e a própria falta, estimula o ressentimento como pedagogia emocional. “Você não fracassou; elas que passaram dos limites.” Essa saída narcísica devolve uma sensação imaginária de controle às custas da misoginia e do autoritarismo.

Do lado feminino, a adesão à obediência é mais complexa do que parece. Há o peso histórico de uma sociedade que ensinou que amar é sacrificar-se. A “boa menina” sempre foi aquela que obedece, entende, cede e relativiza seus próprios desejos. Mas há uma camada contemporânea que complexifica e humaniza essa escolha: estamos exaustas. Sobrecarregadas por uma vida com mais liberdade, mas também mais tarefas, mais julgamento e menos acolhimento. Nesse contexto, obedecer pode funcionar como terceirização da angústia de decidir. Delegar o poder ao outro pode parecer menos exaustivo do que ousar viver os próprios desejos, sobretudo quando já fomos punidas e rejeitadas ao fazê-lo.

Obedecer é horroroso, mas alivia angústia: “Tenho que fazer; preciso fazer…” repetimos. Estamos tão imersas nas obrigações e obediências que por vezes nos escondemos inconscientemente nesse sacrifício ao outro para não precisarmos nos haver com nossos próprios quereres, nem sempre coerentes ou instagramáveis.

Queremos ser um pouco cuidadas. Não por acaso, cresce nas redes o fenômeno das tradwives, que romantizam o retorno à esposa tradicional. A submissão raramente aparece nomeada como tal: ela é embalada numa estética de leveza que promete ternura enquanto esconde ideologia de controle.

Quando associamos cuidado a obediência, pagamos um preço psíquico alto: interditamos o próprio desejo e passamos a existir no registro do que o outro quer. Na clínica, muitas mulheres chegam sem conseguir responder à pergunta mais simples: o que você quer? “Quero ser querida”, respondem. Foi isso que aprendemos a chamar de amor. Mas quanto menos exercito meu querer, menos exploro, menos sei e mais me torno vulnerável

Essa cultura da obediência alimenta outro equívoco contemporâneo: a ideia de que um bom amor é um amor sem atrito. Imersos em bolhas e polarização, aprendemos a tratar discordância como desrespeito, como se amar fosse concordar.

O amor obediente seduz porque anula o atrito. Num mundo caótico e ansiogênico, voltar a jogar “o mestre mandou” cria a ilusão de regras claras e amor garantido.

Não por acaso, cresce também o discurso religioso nessa equação, oferecendo uma gramática moral simples: homem como líder, mulher como apoio; autoridade como cuidado; hierarquia como proteção. Essa lógica seduz porque oferece o que a angústia deseja: mais contornos, menos ambivalência.

Winnicott defende que amadurecer é poder existir sem colapsar diante da desaprovação. Defendo aqui uma ética amorosa do não saber juntos, da impotência compartilhada, dos caminhos errados que não são necessariamente errados. Uma boa relação não é a que não tem conflitos e sim a que tem conflitos com respeito, escuta, espaço para a discordância. É preciso que tenhamos coragem de abrir mão da ideia de que há um caminho certo, um jeito certo de ser homem, de ser mulher, de ser casal.

Talvez seja hora de aprendermos a ter coragem de sermos, juntos, incompletamente diferentes. Porque amar alguém não é mandar nem obedecer. É suportar que o outro exista inclusive quando ele não concorda conosco.



Fonte ==> Folha SP

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