Produtividade e crescimento sustentável – 03/01/2026 – Roberto Campos Neto

Planeta Terra antropomorfizado com braços e pernas, segurando uma pá e equilibrando-se sobre uma linha ascendente. Ao fundo, quatro chaminés industriais emitem fumaça branca contra céu azul.

Em minha primeira coluna neste espaço, mencionei o ciclo vicioso que passou a dominar o debate econômico em grande parte do mundo. À medida que a dívida global sobe e se expandem programas de transferência de renda, intensificam-se pressões por elevação de impostos, aumentando-se a tributação sobre a formação e o estoque de capital.

Com juros mais altos e endividamento maior, o custo de rolagem cresce rapidamente, enquanto os gastos discricionários se comprimem em orçamentos cada vez mais apertados. Além disso, seguimos acumulando contas a pagar: o envelhecimento da população exige mais recursos; tensões geopolíticas elevam os gastos com defesa; somam-se os custos da transição energética e da reconstrução das cadeias globais de produção.

Nesse contexto, prospera a ilusão de que será possível consertar tudo com menos trabalho, mais direitos para todos ou simples redistribuição de riqueza. O ponto central, porém, permanece fora do debate: sem geração de riqueza, não há redistribuição sustentável.

A única saída para esse impasse é um aumento robusto da produtividade. Trata-se de uma restrição econômica básica. É a produtividade que sustenta o crescimento de longo prazo. Sem produzir mais e melhor, não há espaço para acomodar demandas crescentes da sociedade, nem como garantir ganhos duradouros de bem-estar. A pergunta relevante é: como conseguiremos aumentar a produtividade?

Produtividade, em termos simples, é a capacidade de produzir mais valor com os mesmos recursos —trabalho, capital e tecnologia. Historicamente, foi ela que permitiu o aumento da renda, a redução da pobreza e a expansão do bem-estar.

O problema é que, nas últimas décadas, a produtividade global entrou em trajetória de desaceleração. O FMI estima que mais da metade da desaceleração do crescimento econômico global desde a crise financeira de 2008 possa ser atribuída à perda de dinamismo da produtividade.

Segundo estudo do Banco Mundial, essa desaceleração tem sido generalizada, afetando cerca de 70% das economias avançadas e emergentes. As principais exceções têm sido a China, entre os emergentes, e os Estados Unidos, entre as economias avançadas.

Dados recentes do Fórum Econômico Mundial reforçam esse diagnóstico. O crescimento da produtividade total dos fatores (PTF) —medida da eficiência com que os insumos econômicos são combinados— desacelerou de cerca de 1,6% ao ano no início dos anos 2000 para apenas 0,6% no período pós-crise financeira.

Nas economias avançadas, o crescimento da PTF caiu pela metade, para aproximadamente 0,4%. A desaceleração foi ainda mais acentuada nas economias emergentes e de renda média e baixa, onde o crescimento médio da PTF recuou de mais de 2% no início dos anos 2000 para 0,6% após 2008, estabilizando-se próximo de zero nas economias de baixa renda desde 2020.

Trajetória semelhante é observada na produtividade do trabalho, que já vinha em tendência de queda havia décadas na maioria das economias avançadas —novamente com os Estados Unidos como exceção.

É verdade que a tecnologia avançou de forma impressionante, especialmente em inteligência artificial. Ainda assim, esses avanços não têm se traduzido em ganhos robustos de produtividade agregada no mundo —fenômeno comumente descrito como o “paradoxo da produtividade”.

O resultado é um cenário preocupante, marcado pelo trinômio de baixa produtividade, envelhecimento populacional e expansão do Estado. Essa combinação representa uma transferência silenciosa de custos para as próximas gerações.

No período pós-pandemia, a resposta predominante de política econômica concentrou-se em medidas de proteção ao emprego, ampliação de transferências e aumento da participação do Estado na economia. São políticas voltadas para o lado da demanda e caracterizadas por soluções de curto prazo. Estamos trocando o caminho do aumento da produtividade pela miopia do crescimento de curto prazo impulsionado pelo Estado.

Em trabalho publicado em 2022, Agustín Carstens observa que o impulso das reformas estruturais que sustentaram o crescimento entre as décadas de 1990 e 2000 diminuiu significativamente nos anos seguintes. Estamos embarcando em uma ilusão global na qual seguimos vendendo o almoço para comprar o jantar.

A palavra produtividade quase desapareceu do debate político e do receituário dos formuladores de política econômica. A pergunta que raramente se faz é simples: o que estamos deixando para as próximas gerações?

No Brasil, esse debate é ainda mais urgente. Desde antes da pandemia, diversas medidas foram adotadas, mas pouco se avançou no fortalecimento do lado da oferta. A trajetória de produtividade do país permanece fraca. Dados do Observatório da Produtividade da FGV mostram que a PTF cresceu apenas 0,3% ao ano entre 1981 e 2019.

O período mais recente foi ainda mais decepcionante: após crescer 1,5% ao ano entre 2000 e 2010, a produtividade foi negativa entre 2014 e 2019. No pós-pandemia, os resultados seguem igualmente fracos: no terceiro trimestre de 2025, por exemplo, a produtividade por hora efetiva registrou queda marginal de 0,1%.

Esse quadro se agrava diante de uma combinação conhecida: dívida pública elevada, juros altos e compressão crescente dos gastos discricionários. O investimento permanece estagnado, enquanto a poupança doméstica segue estruturalmente baixa. O espaço para sustentar o crescimento apenas por meio de estímulos à demanda torna-se cada vez mais limitado.

Diante desse cenário, torna-se necessário repensar o modelo de crescimento. O bem-estar das próximas gerações não será garantido por uma ampliação contínua de direitos dissociada de ganhos de eficiência e capacidade produtiva, tampouco pela expansão do Estado como substituto da iniciativa privada. Economias mais produtivas são aquelas em que indivíduos e empresas operam em ambientes com incentivos claros para investir, inovar, assumir riscos e alocar recursos de forma eficiente.

Recolocar a produtividade no centro do debate exige coragem política e visão de longo prazo. Reformas do lado da oferta raramente produzem resultados imediatos ou retornos eleitorais rápidos, mas são as únicas capazes de sustentar crescimento duradouro, inclusão social e justiça intergeracional. Ignorar essa agenda pode parecer confortável no presente. O custo, porém, recai silenciosamente sobre o futuro.



Fonte ==> Folha SP

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