O Brasil vive mais um momento decisivo de sua história recente. No plano internacional, precisa lidar com a estagnação da economia mundial e suas consequências, a instabilidade geopolítica, a volta, organizada em projeto político, da ideologia fascista, do avanço do autoritarismo, o aprofundamento das desigualdades e o desmonte da ordem global construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
No plano doméstico, impõe-se a decisão entre seguir preso a um modelo de desenvolvimento, político, excludente e submisso, ou construir um projeto democrático, soberano e socialmente justo. Esse debate não diz respeito apenas aos partidos políticos, nem só aos governos, mas ao conjunto da sociedade brasileira. O Brasil terá que escolher um caminho.
A experiência democrática demonstrou que não há desenvolvimento sustentável sem inclusão social, nem estabilidade política sem redução das desigualdades. O futuro do país depende da capacidade de articular crescimento econômico, justiça social, democracia e soberania nacional em um mesmo projeto.
Nesse contexto, a reeleição do presidente Lula em 2026 representa mais do que a continuidade de um governo: significa a reafirmação de um projeto de país comprometido com a reconstrução do Estado, implantação de um projeto de que dialogue com os desafios do século 21, que construa a nossa soberania, com a redução das desigualdades e a defesa da democracia. Um Brasil capaz de combinar agricultura forte, indústria desenvolvida, ciência, tecnologia e geração de riqueza com combate à pobreza, ampliação de direitos e proteção ambiental.
Um dos maiores desafios desse novo ciclo é a transição energética diante da emergência climática. Não há mais espaço para o negacionismo ambiental nem para a falsa oposição entre desenvolvimento e preservação. O Brasil reúne condições únicas para liderar um novo modelo de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar empregos, inovação e riqueza sem destruir seus biomas.
Outro eixo estratégico é o desenvolvimento tecnológico e industrial, especialmente diante do fato de o Brasil deter uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Esses recursos são fundamentais para as tecnologias do futuro. A soberania sobre essas riquezas deve estar a serviço do desenvolvimento nacional, da ciência, da inovação e do interesse da nação, das futuras gerações —e não seguir a lógica da simples exportação de matérias-primas. O Brasil quer e pode muito mais.
A educação tem que permanecer como um pilar estruturante. A universalização da educação integral e do direito à creche e o cuidado com a primeira infância significam o pilar de uma estratégia de desenvolvimento com justiça. Nenhum país superou desigualdades estruturais sem investir de forma consistente na infância, na segurança alimentar, na proteção social das crianças, sem cuidar da juventude, sem proporcionar a igualdade de oportunidades, sem possibilitar a prosperidade.
O debate sobre a redução da jornada de trabalho também precisa ser enfrentado com seriedade. O tempo é um direito social. Reduzir a jornada melhora a qualidade de vida e amplia o acesso ao estudo, ao lazer e à convivência familiar. Se esses argumentos não bastam, o crescimento vertiginoso do aumento da produção com cada vez menos mão de obra, a redução da jornada de trabalho se torna urgente, dentre outra iniciativas, para evitar o colapso do atual modelo de produção.
A tarifa zero no transporte público deve ser compreendida como política estruturante no atual modelo urbano. Democratizar a mobilidade é democratizar o acesso ao trabalho, à educação, à cultura e às oportunidades.
Nenhum projeto de futuro pode ignorar a segurança pública. É preciso desfazer dois mitos: o da suposta competência da direita no tema e o de que a esquerda estaria despreparada para enfrentar o crime. A experiência recente mostrou que liberar armas e transferir a responsabilidade ao cidadão não reduz a violência; ao contrário, só aumenta. Segurança pública exige inteligência, tecnologia, valorização das forças de segurança, combate ao crime organizado, prevenção, políticas sociais. A violência atinge sobretudo os mais pobres, a juventude negra, as periferias. Combatê-la é proteger vidas, estabelecer a democracia nos territórios, garantir direitos.
É fundamental reafirmar o direito ao esporte, à cultura e ao lazer como dimensões essenciais da cidadania, instrumentos de inclusão, formação humana e pertencimento social.
É inadiável uma reforma político-eleitoral no curto prazo. Sem ela, não estancaremos a sangria da democracia representativa nem seu descrédito na percepção popular; a democracia precisa ser defendida socialmente como um valor inegociável. O PT precisa buscar na sua história seus laços com a democracia direta e defender sem tréguas que o Orçamento público seja acessado pelo sociedade civil organizada. Os investimentos públicos não podem ser definidos pelos Parlamentos, em todas as instâncias, sem a participação popular.
Completando em fevereiro 46 anos de existência, o Partido dos Trabalhadores carrega uma trajetória ligada à luta pela democracia, pelos direitos sociais e pela soberania nacional. Esse percurso impõe responsabilidades: dialogar com a sociedade para além de suas bases, renovar lideranças, agendas programáticas e repensar a sua estrutura organizativa. Por isso convocamos o 8º congresso para abril deste ano. Vamos mobilizar o PT para os desafios de agora e do futuro.
O legado do presidente Lula permanece como referência democrática e de uma nação justa. Mas o futuro do país dependerá da capacidade das forças políticas que sustentam esse projeto de apresentar respostas concretas aos desafios do desenvolvimento, da segurança, da justiça social e da democracia.
O Brasil precisa de unidade em torno de um projeto nacional. A disputa política do nosso tempo não pode ser resumida ao ódio, à intolerância, “à gritaria entre torcedores dentro de um estádio” —ela precisa ser balizada à luz do dia, com ideias, propostas e diálogo. Temos que construir uma agenda para o Brasil, para as futuras gerações, que possam ir muito além das “guerras virtuais” e fake news, da propagação de mentiras e narrativas vazias.
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Fonte ==> Folha SP

