Quando as ‘derrotas do governo’ viram derrota da notícia – 29/11/2025 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Uma versão metafísica da Praça dos 3 Poderes em Brasília.

A fórmula da “derrota de Lula/governo/Planalto” voltou com tudo ao noticiário, anabolizada pela crise entre o Congresso e o governo federal: “Congresso impõe derrota a Lula e derruba parte dos vetos à lei de licenciamento ambiental logo após a COP30”, “Em novo revés para o Planalto, parlamentares derrubam vetos a programa de socorro a estados”. E ainda teve a “pauta-bomba”, a derrota com outro nome: “Senado aprova pauta-bomba bilionária após Lula indicar Messias ao STF”.

Esses termos acabaram virando clichês jornalísticos para peripécias políticas. Alguns leitores enxergam má vontade do jornal com o governo. Mais do que isso, porém, essas formulações parecem sintomas de uma leitura política viciada —ou leitura factual com vícios da politicagem.

Para o engenheiro Roberto Garcia, 42, o título sobre o licenciamento ambiental foi “a gota d’água”. “A Folha não é um jornal que respeita consensos científicos? Como algo que vai contra a ciência pode ser classificado como derrota para o Lula?”, questiona o leitor. “Por favor, definam as situações pelo que elas realmente são. O Lula tem 80 anos. A demolição do licenciamento ambiental não é derrota para quem não vai ser afetado. Vou dar uma sugestão: ‘Congresso derruba vetos à lei de licenciamento ambiental em derrota para os nossos filhos’.”

Marcia Meireles, 71, também escreveu à ombudsman por esse motivo. “Tratar o retrocesso ambiental perpetrado pelo Congresso como derrota de Lula, como fez a Folha, me parece uma visão totalmente equivocada. O assunto é muito sério para ficar só na seara da briga política.”

“Está na hora de mudar manchetes como ‘Congresso impõe derrota a Lula’. Os danos serão permanentes para o Brasil. O jornal poderia fazer seu papel, evitando alimentar esse personalismo e chamando a atenção do eleitores para o efeito perverso disso”, afirma João Roncati, 59.

A fórmula pegou também o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), mas o enunciado era tão ruim que resultava ambíguo (“Em revés de Nunes, Justiça nega pedido para suspender prazo de regulamentação para mototáxis”). De todo modo, a discussão sobre um tema que interessa ou poderia interessar aos cidadãos acabava novamente reduzida a picuinha política.

No caso de Lula, a recorrência do uso da fórmula também desafia seu aspecto noticioso. A primeira “derrota” do terceiro mandato foi anunciada no início de maio de 2023, com a derrubada, na Câmara, das mudanças feitas pelo governo federal no Marco do Saneamento. Houve “apoio quase total de MDB, União Brasil e PSD, partidos que receberam juntos um total de nove ministérios de Lula”, informava a Folha.

O então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), resolveu contar como funcionam as coisas, logo após a aprovação (uma não derrota) do texto-base do arcabouço fiscal. Para ele, aquilo era “resultado de um Congresso Nacional protagonista”, segundo registrou a Folha, e o governo precisaria “se adaptar à nova relação entre os Poderes”.

Lira desenhava: a aprovação não deveria ser entendida como resultado de uma base consistente do governo, e sim do entendimento de lideranças partidárias da importância da proposta.

O jornalismo parece ter ignorado a lição de Lira sobre a “nova relação”. E as “derrotas do governo”, afinal, continuaram a ocorrer. Em maio de 2024, o governo chegou a receber um “pacote de derrotas” do Congresso.

Neste ano pré-eleitoral, elas dificilmente arrefeceriam. Na semana passada, a “derrota” foi a aprovação, na Câmara, do texto-base do projeto da Lei Antifacção.

“O título traz em destaque ‘derrota para o governo Lula’. Parece que a derrota é o interesse máximo da Folha, sem informação como foi elaborado o projeto original do governo e o projeto rasteiro de Derrite, em seis versões, sendo que a primeira pretendia abertamente proteger políticos envolvidos com o crime organizado”, afirma a professora e pesquisadora aposentada Dagmar Zibas, 88.

Em outubro, foi a vez de os deputados derrotarem o governo com a derrubada da medida provisória do do aumento de impostos. “A derrota veio mesmo após o governo fazer uma série de concessões [ao Congresso] na tentativa de ampliar o apoio à medida, o que incluiu poupar as bets (casas de apostas) do aumento na tributação proposto inicialmente e manter a isenção sobre rendimentos de títulos imobiliários e do agronegócio.”

Setembro teve “Câmara impõe derrota ao governo, avança com anistia e vai decidir se dá perdão ou reduz penas” dos golpistas. Em agosto, a “derrota” foi na composição da CPI para investigar a fraude do INSS. Vou poupar o leitor da retrospectiva completa, mas lembro que em junho falamos sobre “Congresso impõe derrota ao governo Lula e derruba decreto que subiu IOF”.

Não se trata de negar o jogo político nem de determinar qual lado está certo ou errado, mas da frequência com que o jornalismo parece se contentar em passar recados, sobretudo quando as “derrotas” não são surpresa.

Abordagens como essas ajudam a inflar conflitos políticos que fazem a festa de poucos tesoureiros e deixam à deriva o leitor comum, aquele que paga pelo conteúdo jornalístico.

Alguns leitores se manifestaram , com opiniões e questionamentos, sobre o anúncio do novo conselho editorial da Folha. Devido à limitação do espaço da coluna no papel, que determina o tamanho dela também aqui no site, o assunto ficou para a próxima semana. Contribuições ainda podem ser enviadas para o email ombudsman@grupofolha.com.br.



Fonte ==> Folha SP

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