Há uma linha tênue entre respeitar os próprios desejos e preservar as próprias idealizações e eu percebo, como sintoma de nossos tempos, que nos nomeamos mais exigentes sem nos darmos conta de que estamos sendo intransigentes, ansiosos e imediatistas. Ao nomearmos nossa postura como fidelidade ao desejo, evitamos investigar a rigidez de nossos critérios e o que essa intolerância revela sobre nós.
Evitamos também reconhecer o quanto fomos capturados pela urgência de um apaixonamento instantâneo, como se o encontro só valesse quando viesse embalado por certeza, intensidade e encaixe imediato. Duvidamos do outro, mas quase nunca da nossa rapidez em decretar o desencontro, o “não bateu” —como se a velocidade do diagnóstico fosse discernimento, e não, muitas vezes, a dificuldade de sustentar o tempo que a construção da intimidade exige.
Tanto na clínica quanto na vida vejo crescer uma espécie de adolescentização do desejo, traduzida em “ejaculações precoces” de afeto e sucessivos coitos interrompidos de vínculo. Queremos o clímax antes de suportar o trabalho do encontro; excitamo-nos com a promessa, mas recuamos diante do que fura a fantasia.
Nos comportamos como “serial first daters” presos numa espécie de “síndrome da cachinhos dourados”: “Essa tem filhos demais, essa não tem; esse se acha muito, esse não tem ambição; é muito família, é nada família…”. Talvez esse apego a uma lista extensa venha como efeito de um acerto de contas com nós mesmos: ao revisitarmos nossas primeiras relações longas, percebemos o quanto ficamos em dívida com nosso amor próprio, nossos limites e até nosso bom senso em nome da construção de um “nós” e um roteiro de futuro que nunca chegou. Não raro nos damos conta de que casamos com o casamento e não com a pessoa, suprimindo pulsão de vida em relações que funcionavam como “pequenas empresas, grandes negócios, mas pouquíssimo amor conjugal”.
Ficam as sequelas: solidão compartilhada, desgastes, silenciamentos e performances exigidas pela família, pela sociedade e por nosso superego carrasco. Tudo passa a funcionar como gabarito numa tentativa de não repetir erros e não desperdiçar o pouco tempo que acreditamos ter para ser feliz no amor.
A rotina tampouco ajuda. Trabalhamos mais, temos menos tempo, e os dias sem filhos viram eventos raros. Não há espaço para tentativa, erro e construção: ou encaixa ou vira “next”.
Estamos com pressa. Correndo uma corrida maluca em busca do tempo perdido. Ouço essa urgência com frequência na clínica e entre amigos 40+: “Não sei quantos anos de libido me restam”; “demorei cinco anos para conseguir me separar, já estávamos há dez sendo apenas pais das crianças… não vivo um grande amor desde a adolescência, quero um pra mim”.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
É uma espécie de demanda do eu reprimida que nomeamos como autoconhecimento sem perceber que se trata de autorreferência, ansiedade, excesso de confiança nas próprias análises, com pouca abertura ao risco, ao desconhecido, à incoerência do outro. Entre a anulação de si em nome do projeto do casamento e o encontro mágico com “aquele que vale a pena” existe uma infinidade de nuances, encontros, conversas… aos quais já não nos disponibilizamos.
Percebo essa postura em homens e mulheres, mas vale trazer brevemente um recorte de gênero. Nós, mulheres, fomos ensinadas a desejar sermos desejadas. Cinderela segue como metáfora: espremer-se para caber no sapato e na vida do príncipe ainda é vendido como final feliz. Por falar em príncipe, quantas vezes não fomos questionadas por não estarmos felizes com o cara legal que tem todos os traços do príncipe contemporâneo? Talvez você tenha ouvido assim como eu “quem muito escolhe acaba escolhida!”, como se tivéssemos que agradecer a escolha do tal bom moço e ficarmos felizes em sair da “prateleira do amor” como cunhou Valeska Zanello antes que nosso prazo de validade vencesse.
Nesse contexto, identificar e assumir critérios que mobilizem nossos desejos e talvez não sejam politicamente corretos —sejam eles algum tipo de profissão, a relação com dinheiro ou as preferências sexuais— é libertador. Mas qual é o tamanho da sua lista? Tudo é mesmo inegociável?
Já para muitos homens vejo os efeitos de décadas evitando conflitos e do diminuto vocabulário emocional ante os muitos anos vividos —anos esses atravessados por mais fracassos e impotências do que gostariam. Quando dizem “não quero mais problemas”, escuto também: “Tenho medo de não dar conta de novo”. Há a angústia da impotência sexual e simbólica. Muitos não “chegaram lá”, e um novo vínculo pode reativar a sensação de fracasso. Diante disso, recuam. Evitam o aprofundamento, projetando no outro uma demanda que muitas vezes é apenas a exigência do próprio ideal de eu.
Acredito que refinar nossos desejos e deixar de namorar o namoro pode ser profundamente transformador. Mas talvez valha perguntar: será que sua seletividade não está funcionando como defesa? Será que a frustração precoce com o outro não encobre o medo de frustrar ou de se implicar a médio prazo? Sartre escreveu que “o inferno são os outros”, mas a psicanálise nos ajuda a torcer essa frase: o inferno pode ser justamente o fato de que o outro não veio ao mundo para coincidir com a nossa fantasia.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP

