Vai dar certo se envolver com quem terminou relação longa? – 27/08/2025 – Amor Crônico

Ilustração com fundo branco mostra linha preta contínua que forma a silhueta de um casal de perfil, um de frente para o outro, com os narizes se tocando

Curioso como tentamos buscar parâmetros racionais para avaliar o risco de um envolvimento afetivo, como se pudéssemos prever quais fatores tornam o outro mais ou menos propenso a estar aberto ao comprometimento e pronto para amar de novo. Mas afinal, o que seria alguém “pronto para amar de novo”? Uma pessoa que já resolveu todas as pendências com o ex? Que não precisa lidar com guarda de filhos, divisão de livros ou desconfortos sobre quem vai aparecer na festa dos amigos em comum?

Talvez se relacionar com alguém solteiro ou separado há tempos te poupe desses atritos práticos. Mas será mesmo que é o tempo cronológico que dita a disponibilidade afetiva e garante final feliz? Como se existisse uma ampulheta capaz de marcar o apagamento do ex da vida do seu amado. Acho importante nos questionarmos porque alimentar essa ilusão parece menos angustiante do que encarar que o amor não cabe no campo do exato, do lógico, do previsível.

Essa busca por garantias de afastamento do amor passado não fala tanto do processo do outro, mas da sua insegurança. Do medo de ser assombrada pela ideia de um antigo amor ou pela sombra de uma suposta indisponibilidade afetiva, fruto de um coração cansado. Tentar prever cenários a partir do tempo do término diz menos sobre ele e mais sobre sua necessidade de controle —hoje embalada em discursos de emancipação e de “saber o que se quer” como selo de maturidade.

Não por acaso, uma das tendências apontadas pela pesquisa global do Bumble sobre relacionamentos em 2025 é o chamado “future proofing”, uma espécie de “Serasa afetivo” das intenções a longo prazo. O estudo mostra que 6 em cada 10 mulheres querem um parceiro emocionalmente consistente, confiável, com objetivos claros de vida. Claros e específicos: 1 em cada 4 já espera conversar logo no início sobre ambições profissionais, planos de moradia, orçamento conjugal e até prazos para morar junto.

Entendo o cansaço diante das falsas promessas e dos homens que se comportam como eternos adolescentes, mas busca por consistência emocional tomada como certeza absoluta —sem dúvidas, contradições ou oscilações— é uma fantasia tão imatura quanto a síndrome de Peter Pan ou de boy problema do qual as mulheres se dizem exaustas.

Nessa ânsia por respostas que às vezes soa como remake do clichê do RH onde você se vê daqui a 5 anos?, os recém-separados podem parecer evitativos quando, muitas vezes, estão apenas sendo sinceros. Tão sinceros quanto a maioria de nós, que também é incapaz de prever a priori os desenhos relacionais do futuro. Falta de certeza não significa falta de comprometimento. Consegue perceber essa diferença?

Um estudo do Tinder aponta que estamos interpretando de maneira errada o que seriam sinais para seguir ou desinvestir numa relação e isso faz com que 65% das mulheres declarem acreditar que os homens estão apenas buscando por encontros casuais quando, na verdade, apenas 29% deles estão nesse modo “pegar sem se apegar” —os outros 71% estão buscando um relacionamento. Quantos foram descartados apenas por estarem recém-divorciados ou saindo de um namoro longo?

É nesse ponto que proliferam os clichês: o recém-separado só quer “aproveitar a vida de solteiro”, como se amar fosse sinônimo de punição ou privação, e não também de prazer, companhia e construção. A insegurança aparece de novo: pensar que você está apenas tapando um buraco é menosprezar sua capacidade de ser amada, de conquistar alguém, de escolher e ser escolhida. Freud escreveu sobre os “arruinados pelo êxito”: Estamos tão acostumados a sofrer que é mais fácil desconstruir a felicidade que finalmente se faz presente invalidando-a do que arriscar-se a viver algo bom.

E daí que ele acabou de se separar? Há pessoas que vivem o luto dentro da própria relação, por anos. Pessoas que encerram o vínculo na terapia antes mesmo do término oficial. Pessoas que seguem elaborando o fim e, em paralelo, se abrem para um novo amor porque se encantaram por você. Há ainda os que juravam não querer se envolver e, de repente, se apaixonam.

Talvez o medo de se envolver com alguém recém-separado venha do uso frequente dessa desculpa para encerrar relações frágeis. Quantas vezes ouvimos “não estou pronto para namorar” e, dois meses depois, a pessoa aparece em outro relacionamento? Isso revela que o impeditivo não era o divórcio nem o tempo: era simplesmente a ausência de amor ali. Com você. Assuma a derrota, viva o luto, mas não descarte todos os recém-separados.

E quando o próximo surgir e você tiver a dúvida é se você é apenas “mais uma” ou se existe lugar real para você, vale observar: essa pessoa é interessada mais do que apenas interessante? Vai além de te colocar rápido nos programas da turma, te postar nas redes, te apresentar aos filhos? Ou demonstra escuta, curiosidade, memória —lembra do que você contou, compartilha referências, se interessa pelos seus sonhos?

Relacionar-se com alguém recém-separado não é sinônimo de ser um tapa-buraco. É arriscar-se a ser amado por inteiro, justamente no momento em que o outro se redescobre disponível. O verdadeiro risco não está no passado dele, mas no seu medo de acreditar que você merece ser a aposta de um futuro.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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