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Juros elevados por mais tempo expõem fragilidades em provedoras regionais de internet que cresceram via aquisições alavancadas. Relatório da Credit Guide mostra divisão no setor: empresas com expansão conservadora preservam balanços mais saudáveis, enquanto as mais agressivas enfrentam alta nos spreads de crédito e maior pressão sobre a dívida.
Casos como Giga+ e Brasil TecPar ilustram o movimento. A Giga+ viu seus spreads subirem com alavancagem próxima dos covenants, após sequência de aquisições. Já a Brasil TecPar também sofreu com aumento dos spreads, influenciada pelo endividamento e pela aquisição da Liga, que enfrentou rebaixamentos de rating.
A Vero apresenta fragilidade na estrutura de dívida, com custo médio elevado e alavancagem próxima do limite, o que amplia sua sensibilidade a estresses de mercado.
Na outra ponta, Brisanet e Unifique mantêm spreads baixos e alavancagem mais controlada. Com estratégias mais disciplinadas, conseguem preservar a qualidade de crédito mesmo em cenário macroeconômico adverso.
Segundo a Credit Guide, o setor segue atrativo, mas exige maior seletividade, especialmente diante de juros altos e dependência de geração de caixa para sustentar a dívida.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Após anos de consolidação de provedoras de internet regionais, a manutenção dos juros altos por mais tempo que o esperado tem exposto fragilidades em empresas que optaram por crescimento inorgânico baseado em alavancagem. O efeito mais sensível tem sido sobre a dívida dessas companhias, que se desvalorizaram diante do maior risco de crédito em que estão envolvidas.
Um relatório da Credit Guide, que avalia o grau de estresse dos papéis do setor, aponta uma divisão entre as provedoras de internet. Quem optou por um modelo de expansão mais conservador tem conseguido manter seu balanço saudável, mesmo com o ambiente macroeconômico desfavorável. Por outro lado, os que tiveram uma política de expansão mais agressiva agora sofrem com o aumento dos spreads de crédito.
“A combinação de Selic em 14,75%, capex de fibra ainda pesando, churn elevado em alguns nomes e janela de equity fechada ficou cara, especificamente, para os ISPs com governança frágil ou alavancagem na holding”, diz o Credit Guide. “O fator mais determinante é a estrutura de controle e o modelo de crescimento.”
Um dos destaques do relatório é a Giga+, holding operacional do grupo Alloha, cujas debêntures sofreram uma alta de mais de 3 pontos percentuais nos spreads de crédito. Na debênture incentivada com vencimento em 2035, o rendimento vem sendo negociado a IPCA + 9,37%. A alta é explicada pelo maior endividamento da companhia, que chegou a uma relação dívida líquida/Ebitda de 3,58 vezes, no quarto trimestre, próximo dos covenants da dívida, de 3,85 vezes.
Além do endividamento, a desvalorização da dívida da Brasil TecPar também refletiu a aquisição da Liga, a provedora adquirida em 2020 pelo fundo Bordeaux, do empresário Nelson Tanure, após suspeitas sobre seu envolvimento com o Master.
No ano passado, os spreads de crédito da Liga chegaram a ter um salto de mais de 30 pontos percentuais, diante de rebaixamentos por agências de rating, citando os R$ 388,6 milhões reportados pela companhia como aplicações financeiras em ativos do Banco Master.
“As empresas controladas por fundos de private equity adotaram uma estratégia de crescimento acelerado via aquisições em série. O problema foi que a estratégia foi financiada com dívida e todas chegaram a 2025 com alavancagem elevada, parcelas pesadas de pagamento aos vendedores e dependência constante de novas emissões no mercado de capitais para rolar os vencimentos”, avalia o Credit Guide.
Outro exemplo nessa seara foi a Vero, o segundo maior ISP independente do país, liderada por um bloco de acionistas que tem a Vinci Partners como principal sócio. Mesmo sem rebaixamentos recentes por agências de rating, os spreads da companhia chegaram a saltar até 11 pontos percentuais nos últimos meses, diante de seu maior endividamento.
A principal fragilidade da Vero está na estrutura de dívida, que possui custo médio de 20% ao ano e consome boa parte do caixa gerado, segundo o relatório. A empresa tem alavancagem de 3,1 vezes, pouco abaixo do covenant de 3,5 vezes, e o estoque de dívida bruta de R$ 3,4 bilhões.
“Esse perfil faz com que qualquer estresse de mercado penalize a Vero de forma desproporcional em relação a pares mais saudáveis, como a Brisanet.”
No espectro oposto, a Brisanet chegou a ter debêntures negociando com spreads de crédito negativos, em janeiro. Mesmo após alguma abertura, com a piora do cenário macroeconômico, a companhia tem conseguido manter seus spreads abaixo de 1%, nas debêntures incentivadas. O título com vencimento em 2032, por exemplo, está com 0,34% de spread, pagando IPCA + 8,04%.
Diferentemente das demais, a Brisanet segue liderada por seu fundador e, desde seu IPO, em 2021, tem apostado exclusivamente no crescimento orgânico da plataforma, com atuação predominante no Nordeste. Seu nível de alavancagem tem se mantido “controlado”, na avaliação dos analistas, em 2,2 vezes Ebitda.
O nível de alavancagem é ainda menor na Unifique, com dívida líquida equivalente a apenas 43% de seu Ebitda. Também administrada por seu fundador, a empresa fez 20 aquisições desde seu IPO, em 2021. “Mas, as aquisições foram sempre de provedores menores, na região Sul, com valores modestos e integração disciplinada”, analisa o Credit Guide.
Assim como no caso Brisanet, as debêntures da Unifique também chegaram a ser negociadas com spreads negativos e, mesmo com a piora do mercado, seguem abaixo de 1%. Na debênture com vencimento em 2028, o spread está em 0,62%, com rendimento de IPCA + 5,34%.
Os spreads, embora relativamente baixos, refletem a “qualidade de crédito real” dessas companhias, na avaliação do Credit Guide. “A tese setorial dos ISPs regionais brasileiros continua válida, mas exige seleção rigorosa. Nos casos estressados, a questão é se a geração de caixa vai melhorar rápido o suficiente para sustentar o serviço da dívida num ambiente de juros ainda elevados.”
Fonte ==> NEOFEED

