Pressão global por sustentabilidade acelera transformação na indústria calçadista e coloca fornecedores brasileiros sob nova exigência internacional

Marcas globais endurecem critérios ambientais na compra de couro e materiais, enquanto empresas brasileiras correm para não perder espaço no mercado internacional

A sustentabilidade deixou de ser discurso institucional e passou a determinar contratos bilionários na cadeia global da moda e do setor calçadista. Fornecedores brasileiros de couro e materiais vivem uma nova pressão internacional: atender exigências cada vez mais rígidas de rastreabilidade, redução de impacto ambiental e transparência produtiva para continuar abastecendo grandes marcas globais.

O movimento ganhou força após grandes grupos internacionais ampliarem metas ESG e reforçarem auditorias sobre fornecedores, principalmente em mercados como Europa e Estados Unidos. Para fabricantes brasileiros, o desafio é adaptar processos históricos de produção a uma nova lógica global em que preço competitivo já não é suficiente.

Dados divulgados pelo Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, CICB, mostram que o setor encerrou 2024 com US$ 1,26 bilhão em exportações, alta de 12,5% em relação ao ano anterior, o melhor resultado recente da indústria brasileira de couro. O avanço reforça a relevância internacional do Brasil, mas também aumenta a pressão por adequação ambiental.

Em 2025, o próprio CICB colocou a sustentabilidade no centro das discussões do setor ao definir a Avaliação de Ciclo de Vida, ACV, como tema principal do Fórum CICB de Sustentabilidade durante a Fimec 2025, em Novo Hamburgo. O debate mostra como a indústria passou a olhar não apenas para o produto final, mas para todo o impacto ambiental da cadeia produtiva.

Outro indicativo da transformação estrutural no setor aparece na própria indústria calçadista brasileira. De acordo com o Brazil Footwear Industry Report 2025, da Abicalçados, empresas que representam cerca de 60% da produção nacional relataram avanços significativos em práticas sustentáveis ao longo do último ano. O levantamento aponta que 83% das companhias já operam com energia 100% renovável, enquanto 71% afirmam realizar auditorias periódicas em fornecedores para verificar critérios ambientais, sociais e de conformidade. O estudo também destaca a aceleração de programas voltados à rastreabilidade da cadeia produtiva e à obtenção de certificações ESG, movimento que reflete a crescente pressão de marcas internacionais e consumidores por maior transparência na origem dos produtos e menor impacto ambiental na produção.

Apesar dos avanços em sustentabilidade, o setor ainda enfrenta desafios estruturais relevantes. O Brasil destina ao mercado externo cerca de 80% de sua produção de couro não processado, o que mantém o setor altamente exposto às oscilações internacionais. O mesmo levantamento mostrou que o valor médio da pele bovina despencou de US$ 59 em 2014 para cerca de US$ 5 em 2025, reflexo da sobreoferta global, da concorrência com materiais sintéticos e de desafios relacionados à qualidade da matéria-prima brasileira.

A pressão por rastreabilidade também aumentou diante de cobranças internacionais relacionadas a desmatamento, origem do rebanho e impacto ambiental da pecuária.

Para Alexandre Santarém de Moraes, especialista em materiais, couro e cadeia global de fornecimento com experiência no Brasil, China e em grandes marcas internacionais como Tory Burch, Camuto Group, ISA TanTec e JBS Couros, o setor vive uma transformação definitiva.

“Durante muitos anos, o mercado priorizou escala e custo. Hoje, grandes marcas querem previsibilidade, rastreabilidade e menor impacto ambiental. O fornecedor que não conseguir provar origem da matéria-prima e eficiência nos processos corre risco real de ficar fora da cadeia global”, avalia.

Segundo ele, a transformação também exige investimentos técnicos. “A sustentabilidade no couro não depende apenas de marketing. Estamos falando de revisão química nos curtumes, redução de desperdício hídrico, melhoria nos processos de acabamento e rastreamento completo da cadeia produtiva.”

Moraes afirma que o Brasil possui vantagem competitiva importante, mas precisa acelerar. “O país tem matéria-prima, capacidade produtiva e tradição industrial. O que falta agora é velocidade para adaptar processos às exigências internacionais que já estão em vigor.”

Com consumidores mais atentos e marcas sob pressão regulatória global, a indústria brasileira de couro entra em uma nova fase: mais tecnológica, mais rastreável e significativamente mais exigente. Para parte do setor, a adaptação será uma oportunidade. Para outras empresas, pode significar exclusão do mercado global.

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