A inteligência artificial e seus impactos sobre autenticidade, trabalho e vida pública dominaram parte dos debates do Festival Fronteiras, que começou nesta sexta-feira (15) em Porto Alegre e segue até sábado (16), reunindo mais de 50 convidados entre artistas, escritores, historiadores, psicanalistas e intelectuais.
“A inteligência artificial é o tema mais vibrante da atualidade do ponto de vista intelectual”, afirmou. Segundo ele, o avanço tecnológico exige uma revisão profunda das relações de trabalho e das próprias bases da ciência política.
As subjetividades da autenticidade humana também apareceram na mesa com a atriz Beth Goulart, que falou sobre sua pesquisa em torno de Clarice Lispector, personagem que interpreta em peça recém-estreada em São Paulo.
Em outra frente do festival, o escritor espanhol Javier Cercas e a historiadora Lilia Schwarcz discutiram como o passado segue operando no presente. Cercas retomou a frase “O passado não está morto, ele nem sequer passou”, do americano William Faulkner, para refletir sobre os desafios contemporâneos.
No mesmo palco, estavam um escritor ateu convidado pelo Vaticano para acompanhar a primeira viagem do papa Francisco à Mongólia e uma historiadora dedicada a investigar as contradições da formação brasileira. Por caminhos distintos, ambos trataram o passado como uma dimensão ainda ativa do presente.
“O presente não pode ser entendido sem o passado”, disse Cercas. Segundo ele, o passado é “uma dimensão do presente sem a qual o presente está mutilado”.
Essa percepção é compartilhada por Schwarcz, que relacionou a discussão ao 13 de maio, lembrado dois dias antes do evento, e citou versos do Hino da Proclamação da República para argumentar que o Brasil construiu uma relação marcada pelo apagamento de sua herança escravocrata.
A persistência de instituições e marcas sociais por décadas e séculos, segundo Cercas, está longe de ser exclusividade do Brasil. Por isso, apesar de se declarar ateu, ele disse ser cristão —no sentido de seguir fascinado pela capacidade da milenar Igreja Católica de se manter influente.
A viagem de Cercas com Francisco, realizada em agosto de 2023, deu origem ao livro “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, publicado pela editora Record. O autor arrancou risadas da plateia ao dizer que compartilhava com o pontífice o anticlericalismo.
Além desse, debates sobre o futuro dominaram os palcos do evento, por suas faces literária, política, econômica e tecnológica. A escritora Carla Madeira e a romancista argentina Claudia Piñeiro, por exemplo, discutiram literatura e a complexidade da condição humana.
Fonte ==> Folha SP
