Com potencial estimado entre 700 GW e 1.200 GW, país entra no radar global da energia eólica no mar
O Brasil passou anos observando de longe a corrida global pela energia eólica offshore enquanto Europa e China lideravam os investimentos em turbinas instaladas no mar. Agora, o país começa a entrar no mapa internacional, mas ainda precisa superar uma série de obstáculos para transformar potencial em projetos reais.
O ativo brasileiro é difícil de ignorar: uma das maiores faixas costeiras do mundo, ventos constantes em regiões estratégicas e experiência consolidada em operações offshore por causa do petróleo e gás.
O desafio é que potencial energético não garante liderança industrial.
Estudos da Empresa de Pesquisa Energética estimam que o Brasil possui cerca de 700 gigawatts (GW) de potencial técnico para eólica offshore em áreas de até 50 metros de profundidade. Em cenários mais amplos desenvolvidos em parceria com o World Bank Group, esse potencial pode superar 1.200 GW. Para efeito de comparação, toda a capacidade instalada do sistema elétrico brasileiro atualmente gira em torno de 250 GW, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica.
O apetite empresarial já começou.
Dados mais recentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis mostram que o órgão acumula 103 projetos em análise, que somam aproximadamente 244 GW em pedidos de licenciamento ambiental para parques eólicos offshore.
Em janeiro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.097/2025, que criou o marco legal para exploração de áreas marítimas destinadas à geração de energia offshore no Brasil. Apesar do avanço regulatório, o setor ainda aguarda etapas complementares de regulamentação para dar maior previsibilidade aos investimentos.
O problema é que, apesar da corrida por licenças, o Brasil ainda não possui sequer um grande parque eólico offshore em operação comercial.
Enquanto China e países da Europa avançam com escala industrial e cadeias produtivas mais maduras, o Brasil ainda precisa superar gargalos estruturais para transformar seu potencial offshore em projetos viáveis. Entre os principais desafios estão a limitação da infraestrutura portuária, a ausência de produção local em larga escala de cabos submarinos, a escassez de embarcações especializadas para instalação, entraves ambientais e regulatórios, além do alto custo de financiamento e da necessidade de ampliar a rede de transmissão para integrar futuros parques eólicos ao sistema elétrico nacional.
É nesse ponto que se observa uma oportunidade estratégica.
O brasileiro Eduardo Monterisi, executivo financeiro que hoje atua no Reino Unido com megaprojetos submarinos de energia, afirma que o país pode repetir na energia renovável parte da expertise construída no Pré-Sal.
Atualmente Gerente de Custos de Projetos Offshore da Enshore Subsea, Monterisi lidera o controle financeiro de contratos superiores a US$ 500 milhões em infraestrutura submarina e transmissão elétrica offshore, incluindo projetos no Mar do Norte e na África.
Com passagens pela TechnipFMC em projetos ligados à TotalEnergies e experiência anterior em operações relacionadas à Petrobras, ele afirma que o Brasil possui uma vantagem competitiva pouco explorada.
O especialista aponta o domínio do Brasil em operações offshore extremamente complexas por causa do Pré-Sal, além de possuir engenharia marítima sofisticada, operadores experientes e conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas.
Segundo ele, a janela de oportunidade, porém, pode não durar para sempre. “O mundo inteiro está disputando turbinas, navios especializados, cabos submarinos e fornecedores. Quem estruturar sua cadeia primeiro vai capturar os investimentos.”
Monterisi alerta que o país ainda precisa transformar potencial em execução, caso contrário, pode virar apenas um exportador de potencial enquanto outros países capturam o valor da cadeia.
Há ainda um novo componente estratégico: o avanço do hidrogênio verde.
Estados como Ceará, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul tentam atrair projetos que conectem eólica offshore à produção de combustíveis limpos para exportação.
Projeções do mercado e estudos do setor indicam que a cadeia da eólica offshore pode movimentar mais de R$ 900 bilhões nas próximas décadas e gerar centenas de milhares de empregos no Brasil, caso os projetos hoje em licenciamento saiam do papel e o país consiga desenvolver uma cadeia produtiva local competitiva.
“Por enquanto, o Brasil ainda está na fase das promessas. Mas se conseguir transformar vento abundante, litoral estratégico e experiência offshore em capacidade industrial real, pode emergir como um dos protagonistas globais da nova economia energética”, aponta Monterisi.
