Estou com um homem ‘sacola plástica’ e o amor difícil – 03/06/2026 – Amor Crônico

A ilustração mostra um homem e uma mulher em um ambiente estilizado. O homem, com uma expressão neutra, está vestido com uma camiseta vermelha e calças cinzas, enquanto a mulher, que está ao seu lado, usa uma blusa rosa e calças vermelhas. Ela está colocando a mão no ombro dele, sugerindo apoio emocional. Ao fundo, há elementos gráficos que representam clima, com nuvens, um raio e sol, simbolizando emoções contrastantes.

Queixas como: “Meu namorado topa a viagem, o cachorro, o show… todas as minhas propostas. Mas não move uma palha para que algo aconteça. Se eu não pesquiso, marco ou organizo… nada sai do lugar.” ou “Quero discutir se mudamos ou não nossa filha de escola e quais móveis comprar para a reforma do apartamento. Ele diz que eu posso escolher e concorda com o que eu decidir. Mas eu não queria autorização. Queria construir uma decisão junto.” são cada vez mais comuns na minha clínica.

Histórias que misturam frustração e exaustão por terem que se responsabilizar por todo o fazer da relação e pela sensação de solidão na responsabilidade. Fica a impressão de que o “acordado” tá saindo caro e que talvez não esteja tudo bem nesse “tudo bem” deles. Mas, junto ao incômodo, vem a culpa por senti-lo.

Antes de questionarem o homem, muitas mulheres questionam o próprio desconforto: “Será que eu sou a pessoa que sempre arranja problema? A eterna insatisfeita?” Se reclamar do que é ruim já nos custou anos de terapia, que dirá se autorizar a se incomodar com alguém que parece bom…

Afinal, depois de relações nas quais demoraram para perceber que posturas controladoras e impositivas não eram sinônimo de segurança e cuidado masculino (como nos deseducaram a pensar), e, sim, heranças de uma masculinidade que aprendeu a existir pelo controle, tudo o que queriam era alguém leve, flexível, aberto… Até perceberem a dificuldade de lidar com um outro supostamente fácil. Porque existe uma linha tênue entre alguém sem drama e alguém sem implicação emocional.

Ironicamente, quem trouxe um novo contorno a um comportamento antigo foi um homem. Alessandro Frosali, coach de comportamento masculino (poderia ser ironia, mas não é…), popularizou nas redes a expressão “homem sacola plástica” ao alertar para os riscos de parceiros que, talvez na melhor das intenções, confundem desconstrução com desaparecimento.

A sacola plástica é flexível, leve, sem resistência. É aquela que vai com o vento, que assume a forma do que colocam nela. O “homem sacola plástica” acha que tá arrasando ao dizer “O que você quiser”, “por mim tanto faz”, “você decide”. Na teoria, tá tudo bem. Mas na prática, falta ação, envolvimento e energia investida pra trazer a própria opinião, discutir, relativizar. E, talvez, o ponto mais complexo: não escolher é também não lidar com a culpa, a responsabilidade e as consequências do próprio desejo.

O homem sacola plástica talvez seja, em parte, um sintoma do nosso tempo. Um tempo polarizado e exausto. Para não impor meu desejo, retiro meu desejo. Para não ocupar todo o espaço, deixo de ocupar qualquer espaço. Para não ser o homem controlador, me torno omisso. Na exaustão, abrimos mão de desejos e pontos de vista para nos pouparmos do desgaste da negociação, do trabalho de encontrar a terceira margem do rio juntos. Mas amar dá trabalho.

E antes que você já venha comentar “nem todo homem”, me antecipo concordando: também existem mulheres sacola plástica. Porque, antes de ser uma característica masculina, a sacola plástica é uma defesa humana. Lacan dizia que o desejo é sempre atravessado pelo desejo do “Outro”. Buscamos entender o que o outro espera de nós, mas, ao transformar a concordância absoluta numa norma, apagamos nosso desejo da cena. E aquele que imaginávamos que se sentiria valorizado acaba se sentindo sozinho.

Mas, ainda que a “sacola plástica” seja uma defesa humana, vale investigar por que um homem viralizou atribuindo esse comportamento a um passo em falso do novo masculino.

Talvez a tal sacola plástica seja uma nova embalagem para uma velha dinâmica: o jogo de poder nas relações. O parceiro que aparentemente nunca cria atrito pode controlar a relação pela ausência: terceiriza a escolha e, com ela, a culpa e o risco. Uma estrutura passivo-agressiva embalada de “tranquilidade”. A manutenção de uma dinâmica de poder embalada em tons pasteis de afeto.

Não decidir é uma maneira de mandar sem se expor. E é também uma forma de perpetuar uma dinâmica de gênero que impõe à mulher toda a carga mental do cuidado e administração familiar. Há ainda uma recusa da castração: Ao dizer eternamente “o que você quiser”, ele evita o risco de escolher, frustrar e perder. E, sem abrir mão do personagem do “cara legal”, deixa para o outro o peso das decisões.

Se tá sempre tudo bem parece que sempre “tanto faz”. E tanto “tanto faz” faz parecer que o outro simplesmente não está ali. Mais do que querer alguém que nos ouça, queremos alguém que se importe, que se coloque. Com respeito, afeto e disposição à negociação, claro. Uma boa relação não é aquela que não tem conflitos, mas a que tem conflitos com afeto.

A alternativa ao homem que decidia tudo não pode ser o homem que não decide nada. A alternativa ao homem que ocupava todos os espaços não pode ser o homem que desaparece.

Em “O Brincar e a Realidade”, Winnicott fala do espaço potencial: um território intermediário que não pertence nem a mim nem apenas ao outro. É ali que a criatividade e os vínculos acontecem. Talvez uma relação possível também precise desse terceiro espaço: um lugar onde eu não precise dominar, mas também não precise desaparecer para amar.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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