Com mais de 15 anos de atuação, esteticista concentra seu trabalho no atendimento de mulheres e homens que carregam marcas de cirurgias e traumas, com procedimentos que unem avaliação individualizada, técnica e cuidado com o tecido.
Uma cicatriz pode representar o fim de uma cirurgia, mas nem sempre significa o encerramento do processo vivido pelo paciente. Para algumas pessoas, a marca permanece como lembrança diária de um trauma, de um tratamento médico ou de uma transformação corporal que também afetou a maneira como passaram a se enxergar.
É justamente nesse espaço, entre a recuperação física e a reconstrução da autoestima, que a esteticista Lu Pereira vem concentrando seu trabalho.
Com mais de 15 anos de atuação na área, a profissional trabalha com estética facial e estética regenerativa, mas direcionou seu foco principalmente para mulheres — e também homens — que passaram por cirurgias ou situações traumáticas e convivem com cicatrizes capazes de afetar sua relação com o próprio corpo.
“Meu foco principal hoje é atender pessoas que passam por algum trauma, alguma cirurgia, e ajudar na autoestima, na recuperação”, explica Lu.


Quando o procedimento deixa de ser apenas estético
Entre os trabalhos realizados pela profissional está a harmonização de aréola, procedimento no qual Lu destaca que o resultado visível é apenas uma parte de um processo que começa antes da intervenção propriamente dita.
“Por trás de cada harmonização existe muito mais do que o procedimento. Existe avaliação, escolha do protocolo, respeito ao tecido e cuidado em cada etapa”, afirma.
Em um dos casos apresentados pela profissional, o atendimento foi finalizado com LED vermelho como parte dos cuidados realizados após o procedimento.
Lu também chama atenção para um ponto que pode gerar interpretações equivocadas quando resultados são observados imediatamente após uma intervenção: a aparência daquele momento não corresponde necessariamente ao resultado final.
Segundo ela, regiões que apresentam cicatrizes podem responder de maneira diferente no primeiro momento. Por isso, avaliar apenas uma imagem feita logo após o procedimento pode não representar adequadamente a evolução esperada daquele trabalho.
Essa preocupação ajuda a afastar a harmonização da lógica simplista do “antes e depois” tão comum nas redes sociais.
Existe uma pessoa, um tecido com características próprias e uma história anterior ao procedimento.



Cada aréola carrega uma história
Essa dimensão se torna ainda mais evidente quando a região tratada está relacionada às consequências de cirurgias, traumas ou outras intervenções que modificaram o corpo.
Nesses casos, o procedimento não elimina a história vivida pela pessoa nem pretende apagar aquilo que aconteceu. A atuação ocorre justamente sobre uma região que, para determinados pacientes, também pode possuir significado emocional.
“Cada aréola carrega uma história. Aqui não é só tinta na pele, é acolhimento, respeito e reconstrução da autoestima. É sobre devolver identidade, confiança e amor-próprio”, diz Lu.
Para a profissional, há ainda um resultado que nenhuma fotografia de procedimento consegue registrar.
“Entre um traço e outro, existe algo que não aparece na foto. Existe acolhimento. Existe reconstrução. Existe o momento em que alguém volta a se reconhecer.”
Por isso, algumas das respostas mais significativas chegam depois, quando o paciente retorna à rotina e compartilha sua percepção sobre o atendimento.
“No final, o que mais me emociona é receber mensagens assim”, relata.



Técnica que também gera impacto social
Além do atendimento clínico, Lu Pereira também participa do projeto social Todo Mês é Rosa, iniciativa voltada ao acolhimento de mulheres que enfrentaram o câncer de mama e passaram pela mastectomia.
Por meio do projeto, a profissional realiza gratuitamente procedimentos de micropigmentação para reconstrução da aréola em pacientes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que não possuem condições financeiras de custear esse tipo de tratamento.
A iniciativa busca ampliar o acesso a um procedimento que, embora frequentemente associado à estética, representa para muitas mulheres uma etapa importante no processo de reconstrução da autoestima e da relação com o próprio corpo após o tratamento oncológico.
Para Lu, devolver a aparência da aréola significa muito mais do que concluir um procedimento técnico. Em muitos casos, é acompanhar uma paciente em uma fase marcada pela retomada da confiança, da identidade e da percepção sobre si mesma.

Cicatrizes exigem individualização
O trabalho com cicatrizes parte também da compreensão de que marcas aparentemente semelhantes podem ter origens e características diferentes.
Uma pode ter surgido depois de uma cirurgia estética. Outra, após um acidente. Há ainda aquelas decorrentes de procedimentos médicos que deixaram alterações permanentes na pele.
Isso exige avaliação individual e escolha do protocolo de acordo com cada situação, em vez da aplicação automática de uma mesma técnica.
É uma diferença importante em um setor frequentemente dominado por imagens rápidas de transformação.
O resultado visual continua relevante. Mas, para quem trabalha com pessoas que carregam cicatrizes, existe uma camada que dificilmente cabe em uma fotografia.


Mais de 15 anos até encontrar um foco
A trajetória de Lu Pereira na estética ultrapassa 15 anos e inclui procedimentos faciais e diferentes técnicas da área. Com o tempo, porém, a experiência com pacientes que chegavam após cirurgias e traumas ajudou a definir uma atuação mais específica.
Hoje, esse público ocupa o centro de seu trabalho.
São principalmente mulheres, embora o atendimento também alcance homens, que procuram cuidados para marcas e alterações deixadas por procedimentos ou experiências anteriores.
A especialização aponta para uma discussão que ultrapassa a estética convencional: nem todo procedimento nasce simplesmente do desejo de mudar o corpo. Em determinadas situações, ele surge do desejo de recuperar a relação com uma parte dele.
E talvez seja justamente por isso que uma pergunta aparentemente simples — “você já conhecia a harmonização de aréola?” — abra espaço para uma conversa muito maior.
Porque, por trás do procedimento, há técnica. Por trás da cicatriz, há história. E, por trás de cada resultado, existe alguém tentando voltar a se reconhecer.

