Quando desembarcou no Vale do Silício, em 2022, com grupo de 70 empresários brasileiros, a empreendedora Danielle Marques, 32, percebeu que era a única pessoa negra da turma. Esse desconforto a levou a criar, no ano seguinte, o Do Silêncio ao Silício, projeto que leva empreendedores negros ao polo de inovação e tecnologia na Califórnia.
“Eu nunca quis estar sozinha. Ser a única pessoa negra sempre foi um incômodo e ainda é. Estar nesses ambientes era pensar: o que posso fazer para que outros negros estejam nesse lugar?”, diz Marques.
Criado em 2023, o Do Silêncio ao Silício já realizou três edições e levou 26 empreendedores ao Vale do Silício. As inscrições para participar do programa são feitas por meio de edital lançado ao longo do ano. Segundo Marques, a próxima jornada está em fase de organização e deve levar nova turma à China.
“Nosso objetivo era expandir os horizontes deles, já que hoje as oportunidades, os investimentos, tudo acontece nesse networking”, diz.
O projeto, em vias de se tornar ICT (Instituição de Ciência e Tecnologia), oferece formações e amplia as conexões de empreendedores negros com o ecossistema de inovação.
Danielle Marques participa nesta terça (11) do SP2B, festival de inovação, cultura e empreendedorismo que ocorre de 9 até 16 de agosto, em São Paulo. Sua história é tema da palestra: “Do Silêncio ao Silício: De uma História Pessoal a um Movimento de Inovação”, quando falará de sua trajetória e como criou o projeto, além de discutir temas como liderança, acesso a oportunidades e o papel de cada um na construção de espaços mais diversos.
“Por muito tempo achei que seria médica. Mas mudei e entrei na Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto e Guarujá) pelo Prouni para fazer administração de empresas.
Eu sou cria de política pública. Fui a primeira da minha família no ensino superior. E ali me deparei com realidade diferente da minha. Eu trabalhava num call center, ganhava R$ 500 e mal tinha dinheiro para pegar ônibus para chegar à Unaerp, enquanto alguns alunos tinham carro de R$ 500 mil aos 18 anos.
E foi na universidade que ouvi falar do Vale do Silício, em 2018. Um professor trazia cases de empresas de lá que mudavam nossa realidade. Discutíamos casos de gente que tinha recebido R$ 100 mil do pai para começar o negócio. Isso não era tangível para mim.
Até que um colega falou comigo sobre afroempreendedorismo. Aí encontrei a área com a qual me identificava. Como, no país onde 56% da população é negra e 52% dos empreendedores brasileiros se autodeclaram pretos e pardos, essa realidade não era debatida na universidade?
Na época, eu e cinco amigos organizávamos uma festa para negros, com espaço para empreendedores venderem produtos. Ali que observei que, enquanto na universidade eu ouvia sobre empreendedorismo, nessas festas via empreendedores com dúvidas básicas, como misturar o dinheiro da conta pessoal com a da empresa.
Aí pensei em criar uma ponte entre o conhecimento produzido na universidade e esses empreendedores e, ao mesmo tempo, levar o saber desses trabalhadores para a faculdade.
Foi assim que, em 2019, conheci o Núcleo de Empreendedores da USP, organizado pelos alunos da universidade, com uma aceleradora de startups e projetos para estimular o empreendedorismo entre jovens.
Eu fiquei encantada. Só que eu não era aluna da USP. Insisti, e eles abriram uma exceção. Fui a primeira aluna de fora da USP a fazer parte do Núcleo. Depois, eu pesquisei sobre afroempreendedorismo para o meu TCC e fiz parte do núcleo para ajudar empreendedores de Ribeirão.
Em 2019, eu me formei, vim para São Paulo e trabalhei com atendimento ao cliente, mas decidi que inovação era o caminho.
Fui a eventos que falavam de diversidade e inclusão em startups, sobre como ambientes diversos geravam ideias diferentes e a importância de fomentar isso. O discurso existe, mas, na prática, tinha evento só com homens brancos. Como era possível falar sobre diversidade e ter só brancos?
Eles sempre falavam do Vale do Silício. Aí pensei: Se fosse necessário ir até lá para se tornar apta a falar sobre inovação, eu iria.
Pesquisei o valor da viagem, R$ 12 mil, isso sem as passagens. Como eu iria se meu salário era R$ 2.000?
Então, em 2021, eu fiz a vaquinha chamada ‘Quantas mulheres negras que você conhece já foram para o Vale do Silício?’. Ela viralizou e arrecadei R$ 20 mil para fazer a viagem.
Ao chegar lá, no primeiro dia, percebi que era a única pessoa negra da turma. Eu fui com um grupo de 70 pessoas, todos empresários brasileiros.
Na época, o auge era o metaverso. As conversas que eu tinha lá eram diferentes das que eu tinha no meu dia a dia com pessoas que são as primeiras a serem impactadas por essas mudanças.
Eles falavam muito de inovação, e eu pensava que a galera que eu conhecia era muito criativa, só não tinha acesso ao conhecimento. Inovação sempre era associada ao Vale do Silício.
Depois de ir até lá, minha carreira passou a valer alguns centavos a mais no mercado. Ao voltar ao Brasil, fui contratada por empresa de tecnologia e integrei time de diversidade e inclusão. Mas eu só pensava em levar empreendedores negros ao Vale do Silício. Eles precisavam ver o que eu vi. Foi assim que, em 2023, começou o Do Silêncio ao Silício.
Convidei três amigos e escolhi o nome a partir de uma fala da Monique Evelle, que diz que o que fazemos na periferia é considerado gambiarra, enquanto a mesma coisa no Vale do Silício é chamada de inovação. O objetivo era tirar as pessoas do silêncio.
Nos EUA, participamos da Brasil at Silicon Valley, conferência organizada por estudantes brasileiros de Stanford e Berkeley no Vale do Silício. Lá, todos tiveram contato com CEOs e empresários. Conectamos os participantes com pessoas de Google, Meta e Founder Institute. Na volta ao Brasil, eles deram mentoria a jovens da periferia, em parceria com a ONG Despertar. A ideia era ampliar os horizontes desses empreendedores e mostrar que investimentos acontecem a partir dessas conexões.
Eu nunca quis estar sozinha. Ser a única pessoa negra sempre foi um incômodo e ainda é. Estar nesses ambientes era pensar o que eu poderia fazer para que outros negros estivessem lá.
Para mim, sempre foi importante ser essa ponte e quem conecta pessoas. Meu trabalho é isso: eu faço conexões.”
Fonte ==> Folha SP
